Vladimir Carvalho é o cineasta mais importante de Brasília e foi um dos maiores documentaristas brasileiros. Além de deixar filmes essenciais como legado, Vladimir reunia em sua casa um acervo que guarda a história e memória do cinema brasiliense e nacional. Com mais de 5 mil itens, entre filmes, revistas, câmeras e jornais, o Cinememória armazena informações de mais de 50 anos de pesquisa do cineasta.

Pela localização do Cinememória em uma área residencial, o acervo não poderia ser aberto a visitação, o que era um desejo do cineasta. Por isso, finalmente, foi encontrado um espaço adequado para abrigar o sonho de Vladimir. O acervo do cineasta será reunido na Casa de Cultura da América Latina, da UnB, localizada no Setor Comercial Sul. O Iphan se uniu à Universidade de Brasília para realizar a mudança. “Na Casa da América Latina os equipamentos e documentos terão o cuidado que merecem e ficarão numa área própria à exposição, além de estarem numa área central da cidade, o Setor comercial Sul, de muito fácil acesso”, destaca Marcia Zarur, uma das coordenadoras do projeto de criação do Cinememória.

Em setembro de 2024, o Iphan catalogou todo o acervo em parceria com a Universidade Federal do Tocantins para definir o espaço que receberia os itens colecionados. Em entrevista ao Correio na mesma época, Vladimir comentou sobre sua vontade de colocar o acervo em um local para ser preservado. “Eu estou doando para qualquer instituição que seja pública, ou até privada, que tenha condições de abrigar em lugar seguro, respeitável, de fácil acesso para as pessoas, mas que tenha a garantia de segurança”, afirmou. “Eu estou trabalhando para que isso seja definitivo”, completou.

O cineasta destacou que encontrar um espaço para o Cinememória era o primeiro passo para a criação de uma cinemateca em Brasília, que teria o objetivo de democratizar o acesso a essa memória física. “Tem uma importância histórica e memorialística, e conta parte da história do cinema realizado em Brasília. É uma prévia para um grande cinemateca que se criará na capital da República”, finalizou Vladimir, que morreu no mês seguinte.

Antes da morte de Vladimir, Marcia Zarur e Ana Maria Lopes, do Coletivo Maria Cobogó, e o casal Gioconda Caputo e Sérgio Moriconi decidiram assumir o projeto. “Sempre tive uma admiração imensa por ele, e acabamos nos aproximando, pelo meu trabalho com audiovisual. Nos tornamos grandes amigos e era claro o quanto o Cinememória importava para ele”, conta Marcia. “A gente brinca que somos o ‘quarteto fantástico’ na luta pela fixação do Cinememória em Brasília. Esse quarteto segue na luta, mesmo após a partida de Vladimir”, brinca a jornalista.

Gregório Soares, professor do Instituto de Artes e Diretor de Difusão Cultural do Decanato de Extensão da UnB, afirma que o desejo de que o acervo fosse incorporado ao patrimônio da Universidade de Brasília foi manifestado pelo próprio Vladimir. “O acervo é um recurso inestimável para a qualificação das atividades de ensino, pesquisa e extensão da UnB, com o foco na formação cultural e profissional do nosso corpo discente. Bem como, terá um impacto social amplo, constituindo mais uma alternativa de interação da universidade com a sociedade, em um espaço aberto à visitação e ao estudo”, afirma o docente.

Gregório teve contato com este projeto pela primeira vez 2017. Atualmente, a mudança ocorre por meio da iniciativa do presidente do Iphan, Leandro Grass, e da atual gestão da reitora da UnB Rozana Naves. O primeiro passo para a transferência é a realização de um inventário detalhado, em diálogo com a família e amigos de Vladimir, para identificar todas as peças.

“Em paralelo, estamos construindo uma articulação coletiva entre diferentes entes públicos e organizações da sociedade civil com o objetivo de viabilizar recursos necessários à adaptação adequada do espaço de exibição, guarda e preservação do acervo na Casa da Cultura da América Latina”, afirma Gregório.

O presidente do Iphan, Leandro Grass, afirma que o acervo de Vladimir é um dos mais importantes registros da história cinematográfica nacional e brasiliense. “Nosso objetivo é democratizar o acesso da população a esse acervo, o que representa o maior desafio e, ao mesmo tempo, a parte mais importante, que é a conexão do povo com o trabalho do professor Vladimir Carvalho, uma obra que permanecerá viva, inspirando e educando gerações por meio de seu compromisso com a memória e o patrimônio cultural”, complementa Grass.

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Leandro Grass reforça a parceria entre o Iphan e a Universidade de Brasília. “Para isso, estamos em constante diálogo com a UnB, por meio da reitora, professora Rozana Naves, para que possamos conseguir levar o acervo para a Casa da América Latina, uma forma de facilitar o acesso da população e de deixá-lo sob a guarda da Universidade de Brasília, onde o professor Vladimir lecionou por tantos anos. Ainda existem algumas etapas para serem vencidas, mas acreditamos que conseguiremos realizar o sonho do professor Vladimir Carvalho”, finaliza Grass.

Marcia Zarur ressalta que é necessário recursos para o inventário, o projeto museológico, uma reforma na CAL e o traslado do acervo para o Setor Comercial Sul. “Os recursos devem vir de emendas parlamentares e editais na área de cultura e patrimônio. Depois dos recursos para essa 1ª etapa, será necessária uma verba de manutenção”, reforça.

Ana Maria Lopes, parceira de Marcia no Coletivo Maria Cobogó, afirma que a intenção é que esse material se transforme em um museu do cinema brasileiro e produza oficinas, mostras, exibições e palestras para estudantes e interessados em cinema. “Como amiga de longa data de Vladimir Carvalho, sempre apreciei o trabalho dele pelo cinema candango e brasileiro. O acervo que ele coletou e produziu ao longo de seus 89 anos é de vital importância para todos os que gostam e amam o cinema. O Cinememória é um rico produto cultural que engrandece a cidade e a todos os cidadãos”, define.

A relevância de Vladimir

O professor Gregório Soares define Vladimir Carvalho como pensador singular do audiovisual brasileiro, além de um leitor crítico do Brasil e das suas contradições.”Preservar seu acervo é garantir que esta e as próximas gerações tenham acesso a uma produção consistente e representativa do nosso documentário, iluminando a história do cinema brasileiro”, comenta. Além disso, por meio do acervo, a Universidade de Brasília pode reafirmar seu papel na preservação do patrimônio cultural da cidade.

Para Marcia Zarur, é importante realizar um dos maiores desejos da vida de Vladimir. “São fotos, documentos e equipamentos que contam a história do cinema mundial, do cinema brasileiro e especialmente do cinema brasiliense. Vladimir reuniu um verdadeiro tesouro ao longo de 50 anos. E esse acervo pertence a Brasília”, finaliza a jornalista.

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Mariana Reginato Repórter da Editoria de Cultura

Estudante de Jornalismo na Universidade de Brasília.