Zed Nelson repara na pintura na parede atrás de mim quase assim que começamos a nossa entrevista.
“É perfeita”, diz.
A tela retrata um tigre adormecido deitado sobre uma almofada de veludo, flutuando entre folhas e flores em tons pastel. O fotógrafo londrino não se refere a “perfeita” no sentido de “pintada com maestria”, mas sim como a metáfora perfeita para a relação idealizada e antropocêntrica que cultivamos com a natureza.
A pintura lembra-lhe outra obra de arte, ‘Um jovem tigre a brincar com a sua mãe’, do artista romântico francês Eugene Delacroix, que usou um tigre em cativeiro num jardim zoológico e o seu gato de estimação como modelos.
“O movimento romântico na pintura começou com o divórcio humano do mundo natural. À medida que nos afastámos da natureza e ela afastou-se da nossa imaginação, recriámos estas versões hiper-românticas da natureza”, diz Zed Nelson.
Essa é a tese central do seu mais recente projeto, ‘The Anthropocene Illusion’ (A Ilusão do Antropoceno, numa tradução livre para português), que lhe rendeu o prémio de Fotógrafo do Ano, no Sony World Photography Awards 2025. Capturadas em 14 países e quatro continentes ao longo de seis anos, as imagens mostram a natureza tal como imaginada pelos seres humanos: habitats encenados em jardins zoológicos, pistas de ski artificiais, florestas tropicais internas e praias artificiais.
“The Anthropocene Illusion”, de Zed Nelson, publicado pela Guest Editions. (Zed Nelson/Instituto)
No projeto anterior, ‘Love Me’, Zed Nelson explorou a homogeneização dos padrões de beleza. “Há um certo eco disso aqui. É sobre como essa versão artificial e idealizada da natureza está a ser (quer dizer, eu gostaria de dizer) vendida de volta a nós, mas nós também somos participantes voluntários disso”, explica Zed Nelson.
“Enquanto destruímos a coisa real, parecemos estar a criar versões cada vez mais artificiais ou coreografadas e curadas da natureza”.
É essa “desconexão psicológica” que Zed Nelson está mais interessado em expor. A coleção é igualmente irónica (um membro da tribo Maasai a posar ao lado de uma manta de piquenique para um brunch com champanhe ‘Out of Africa’, no Quénia) e distópica (uma criança empoleirada numa rocha de fibra de vidro numa praia na maior floresta tropical interior do mundo, com a tela do céu ligeiramente rasgada atrás dela).
“Isso é muito ao estilo do Truman Show. Ele foi até ao limite desse mundo artificial”, diz Nelson sobre a foto.
Mais do que tudo, porém, há um sentimento de tristeza que permeia a coleção: dioramas taxidermizados de espécies ameaçadas de extinção em museus; cardumes de peixes vibrantes a nadar em aquários escuros com tubos de plástico; elefantes em cativeiro levados a um local de banho para o benefício de um bando de influenciadores do Instagram; um urso polar enjaulado agachado ao lado de um mural que retrata uma paisagem ártica que ele nunca vai conhecer.
“O que substituímos pela natureza real torna-se, na verdade, um monumento involuntário ao que perdemos”, observa o fotógrafo.
Parque de Animais Selvagens de Xangai. China. (Zed Nelson/Instituto)
Sombrio, mas belo
O termo “Antropoceno” refere-se à era dos seres humanos. Não é uma época oficial, ainda. Mas Zed Nelson acredita firmemente que, nos próximos anos, a sociedade atual vai marcar o início dessa nova era, evidente nos níveis elevados de dióxido de carbono proveniente de combustíveis fósseis, na abundância de microplásticos e nas camadas de cimento e alcatrão.
“A utilidade de renomear uma época, neste caso, seria chamar a atenção das pessoas para o nosso impacto no planeta”, diz Zed Nelson. Na sua opinião, “a linguagem da (ação ambiental) tornou-se um pouco cansativa ou obsoleta. Fica-se meio imune a ela”.
O fotógrafo queria combater essa apatia coletiva com imagens que “nos fazem pensar ou sentir de forma diferente”.
Sombrias, mas belas, as fotos dele revelam um paradoxo.
Menos de 3% da terra do Mundo permanece ecologicamente intacta, de acordo com um estudo de 2021, mas o turismo baseado na natureza e a arquitetura biofílica, uma filosofia de design que imita a natureza, estão a ganhar popularidade. As populações globais de vida selvagem caíram em média 73% nos últimos 50 anos. Entretanto, há mais tigres em cativeiro do que na natureza, globalmente.
As camadas de gelo do Ártico estão a caminho de um “derretimento descontrolado” catastrófico, que pode provocar o aumento do nível do mar e devastar as comunidades costeiras. Mas, ao mesmo tempo, os bares de cocktails no Dubai estão a importar gelo antigo das geleiras da Gronelândia para oferecer bebidas livres de poluição aos ricos.
“Estamos empenhados em criar uma ilusão para nós próprios. Seja para esconder o que estamos a fazer, seja como algo em que nos podemos refugiar para nos sentirmos seguros, porque ansiamos precisamente aquilo que perdemos”, afirma Zed Nelson.
Canhão de neve a produzir neve artificial na estação de esqui Dolomites, Itália. (Zed Nelson/Instituto)
Tornar o “invisível” visível
Existe um espectro de ilusões, que vai desde paisagens exteriores controladas a cenários artificiais que simplesmente evocam a ideia da natureza.
Zed Nelson compara isso ao fast food: “Não queremos cultivar e preparar. Só queremos que nos entreguem sem espinhos, sem perigo, com uma bela passarela no estacionamento. Queremos consumir e depois voltar para casa. Somos cúmplices disso”.
Apesar das críticas às qualidades “consumistas” das experiências naturais fabricadas de hoje, Nelson enfatiza que não é necessariamente contra nenhuma dessas coisas: as pessoas devem desfrutar de safaris, ficar maravilhadas com aquários, aproveitar o tempo em num parque local e não “se destruírem com culpa”.
“Temos esse desejo duradouro pela natureza, por uma conexão com o mundo natural. Isso é real”, observa.
Há um limite para o que o indivíduo pode fazer: o tipo de mudança radical necessária para proteger o ambiente precisa de vir de grandes corporações e líderes políticos, o que, na opinião de Zed Nelson, está a faltar.
“É importante lembrarmo-nos que não é que não tenhamos ideias sobre o que pode ser feito”, diz, enumerando uma longa lista de políticas ambientais que poderiam mudar o curso das alterações climáticas.
Talvez este livro, com a forte justaposição entre a vida selvagem surpreendente e a interferência humana, possa ser um lembrete de como controlamos o mundo, com o poder de remodelá-lo à nossa imagem ou proteger e restaurar as paisagens com as quais nos sentimos tão conectados.
“Quando estamos rodeados por algo em excesso, isso pode tornar-se totalmente invisível”, diz Zed Nelson. “A fotografia é uma forma de tentar torná-lo visível novamente, tentando expô-lo pelo que realmente é”.
Depois de terminar a chamada, não consigo deixar de ver a ilusão do Antropoceno na minha casa. Não é apenas o tigre antropomórfico na parede. É uma lâmpada de sal-gema do Himalaia, uma planta monstera de plástico e cravos de papel. Um jarro de cerâmica em forma de cacatua ao lado de velas com aroma de pinho e um abridor de garrafas de alumínio em forma de ‘fatia de limão’. Almofadas com estampas florais e uma manta com tema da selva.
É difícil esquecer as palavras de Zed Nelson sobre a nossa cumplicidade coletiva. A nossa disposição de participar na reconstrução do mundo natural, em vez de salvá-lo.