Desde o passatempo radiofónico Tribunal da Canção, onde fez sucesso em 1952, que o nome e a voz de Anita Guerreiro não deixaram de se ouvir, com maior ou menor intensidade. Fadista, actriz, cantadeira, residia desde 2018 na Casa do Artista, onde morreu, durante o sono, depois da meia-noite deste domingo, 7 de Dezembro. Tinha 89 anos e deixa-nos a memória de décadas de intensa vida artística, da rádio aos fados, do teatro de revista às marchas de Lisboa e à televisão.
Nascida Bebiana Guerreiro Rocha no bairro da Pena, em Lisboa, no dia 13 de Novembro de 1936, tinha apenas 16 anos quando concorreu ao Tribunal da Canção, um passatempo do programa de rádio Comboio das Seis e Meia, com produção e locução de Marques Vidal. Este, surpreendido com sua voz, arranjou forma de a estrear no Café Luso com o nome artístico de Anita Guerreiro.
Num texto autobiográfico publicado pela Casa do Artista em 16 de Setembro de 2023, explicou ela assim o sucedido: “Aproveitaram o Guerreiro, para dar luta, e juntaram-lhe Anita, mais carinhoso. Até aos meus 12 anos, éramos cinco lá em casa: os meus pais e as três filhas. Nessa altura passámos a quatro, porque a nossa mãe faleceu de febre tifoide. Nunca tive desgosto maior.” Antes de se dar a conhecer naquele programa de rádio que acabou por lhe abrir as portas à fama, em Dezembro de 1952, Bebiana já começara a cantar. “Pelos 14 anos, já cantava na colectividade Sport Clube Do Intendente. Entrei lá numa revistinha e já não me largaram.”
E foi no palco no Teatro Maria Vitória que, já como Anita Guerreiro, se estreou na revista, em Ó Zé Aperta o Laço (1955), seguindo-se Festa é Festa. Não tardaria a estrear-se no cinema, a cantar Lisboa antiga (de Raul Portela e José Galhardo/Amadeu do Vale) no filme Lisbon, do norte-americano Ray Milland, que nele participou como actor ao lado de Maureen O’Hara, Claude Rains (o gendarme de Casablanca) e Yvonne Furnaux. Estreado em 1956, foi filmado em Lisboa e arredores, ainda que a “casa de fados” onde canta Anita Guerreiro fosse encenada em estúdio.
Anita Guerreiro no filme Lisbon, de Ray Milland (1956)
DR
Fados, cantou-os em várias casas de Lisboa, integrando o elenco d’O Faia, no Bairro Alto. Mas foi no teatro de revista que ela teve, à data, maior projecção, a par dos fados: “Fiz muita revista, cantei e lancei muitos fados originais, mas talvez o mais conhecido é o Cheira bem, cheira a Lisboa, com letra do César de Oliveira”, recordou ela no texto já citado. “Também fui Madrinha de muitas marchas populares de Lisboa, entre elas a Marcha dos mercados. Fiz teatro, cinema, televisão e muita avenida abaixo nos Santos Populares. Abri ainda um restaurante e casa de fados, a casa típica Adega da Anita, à entrada do Parque Mayer. Em tudo fui feliz, porque me entreguei com toda a minha alma. Ainda gosto muito de cantar. A voz pode não ser a mesma, mas a alma é.”
Anita Guerreiro em 1967 e na capa de dois dos seus álbuns
MUSEU DO FADO
Assim sintetizou Anita Guerreiro uma vida cheia. Na vida pessoal, teve “um primeiro casamento demasiado cedo”, que não lhe deu filhos. Só depois estabilizou, acrescentando ao seu nome de baptismo o apelido do segundo marido: “Casei pela segunda vez com o Pepe Cardinali, cantor e ilusionista do Circo Cardinali, com quem tive dois filhos e me fez muito feliz.” Viveram juntos durante muitos anos. “Ele adoeceu de Alzheimer e uma parte de mim adoeceu como ele. Quando o perdi, ficaram muitas saudades e a certeza de que nunca iria dar espaço a mais ninguém.”
O êxito de Anita Guerreiro não se ficou por Portugal, tendo actuado em vários países da Europa, no Canadá e nos Estados Unidos da América. Após várias temporadas no estrangeiro, Portugal começou a vê-la na televisão, não só em novelas (Primeiro Amor, 1995; Roseira Brava, 1996) mas também em séries de humor como A Loja do Camilo (1999), ou Os Batanetes (2004). Com um primeiro álbum lançado em 1970 (Cheira a Lisboa), gravou vários discos, com fados e marchas que viriam a ser parcialmente reunidos em colectâneas lançadas pela Movieplay, em 1994 e em 2005, esta intitulada Anita Guerreiro – Antologia 50 Anos de Teatro em Revista (1955-2000).
Em 2004, no dia 17 de Fevereiro, Anita Guerreiro foi homenageada num espectáculo no Teatro Municipal São Luiz, durante o qual recebeu da Câmara Municipal de Lisboa a Medalha Municipal de Mérito, Grau de Ouro, distinção a juntar às várias que foi recebendo ao longo da vida. Vinte anos mais tarde, em Junho de 2024, foi inaugurada em Lisboa, por iniciativa da Junta de Freguesia de Avenidas Novas, uma exposição intitulada Retratos Contados de Anita Guerreiro, percorrendo a sua vida e obra. A exposição esteve no Centro Comercial Campo Pequeno durante um mês.
No texto publicado em 2023, Anita Guerreiro escreveu: “A Casa do Artista é hoje a minha casa”, concluindo: “e o fado sempre foi a minha alma…” Afirmação certeira, que a vida confirmou.