A Ucrânia continua a produzir e a exportar vinho apesar da guerra, enquanto viticultores e sommeliers apostam na recuperação de uma tradição milenar para reforçar a identidade nacional e abrir caminho aos rótulos ucranianos nos mercados europeus

Quando Sergiy Klimov fala de vinho, o entusiasmo é contagiante — mesmo para quem não tem um paladar especialmente apurado.

Desde 2014, Sergiy Klimov tem sido um dos grandes defensores do vinho ucraniano de várias formas.

Gere uma cadeia de wine bars em Kiev, a capital, onde só serve vinho produzido na Ucrânia. É embaixador informal do vinho ucraniano, promovendo-o no estrangeiro. E agora tem a sua própria vinha na aldeia de Zarichanka, no oeste do país, onde experimenta novas formas de cultivar uvas e de fazer vinho.

Ao partilhar vinho ucraniano, Sergiy Klimov sente que está a preservar e aprofundar uma tradição ligada à sua terra ancestral há milhares de anos.

“Tornou-se a minha missão”, diz. “Quero trazer uma revolução à indústria.”

A par dos países vizinhos Moldávia e Roménia, e de outros da região como Geórgia e Azerbaijão, a Ucrânia tem sido solo fértil para o vinho há milénios. Escavações arqueológicas revelaram vasilhas gregas antigas de produção de vinho, enquanto restos fossilizados de espécies de uvas encontrados noutros locais remontam entre os séculos XI e IX a.C.

Talvez de forma mais conhecida, a Crimeia era casa de vinhas plantadas aos pés das montanhas do sul da península. Depois de a Crimeia ter sido ilegalmente anexada pela Rússia em 2014, muitas dessas vinhas perderam-se e, nalguns casos, foram minadas e destruídas pelas forças russas, conta Anna Eugenia Yanchenko, cientista cultural ucraniana, sommelière e investigadora especializada na história do vinho do seu país.

Um produtor de vinho senta-se entre os escombros da sua vinha numa aldeia de Donetsk, depois de esta ter sido destruída pelas forças russas em 2024. (Imagem: Wolfgang Schwan/Anadolu via Getty)

Desde que a Rússia lançou a invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, as suas forças destruíram ainda mais adegas, incluindo o Château Kurin, no sul, e a ARTWINERY, na cidade oriental de Donetsk, diz Anna Yanchenko. Outras, como a vinha Prince Trubetskoy Winery, no sul, e a Wineidea, na região de Kiev, passaram por períodos de ocupação.

A capacidade de produção vinícola do país foi dramaticamente reduzida, mas Sergiy Klimov e outros estão determinados não só a manter a indústria viva, como a fazê-la prosperar.

Os seus esforços são motivados, em parte, pelo desejo de reforçar a identidade nacional ucraniana perante as tentativas da Rússia de negar a soberania do país.

Sergiy Klimov promove vinhos produzidos na Ucrânia, tanto no país como no exterior. Recentemente, investiu na sua própria vinha, onde espera experimentar o cultivo de uvas e a produção de vinho.  (Imagem: Yurii Stefanyak)

Agora a viver em Varsóvia, na Polónia, Anna Yanchenko diz que se sabe pouco sobre quem plantou as primeiras vinhas, há milénios, no território que hoje é a Ucrânia — mas o que importa é que isso aconteceu e que a produção continua.

“Desde que o vinho apareceu, o processo de cultivar uvas e consumir vinho nunca parou aqui”, afirma.

Outra voz ativa na defesa da indústria é Tania Olevska, que deixou a Ucrânia rumo a Londres em julho de 2022, cinco meses depois da invasão em grande escala. Após alguns anos a trabalhar no setor do vinho no seu país, decidiu criar a Ukrainian Wines Company UK, focada em importar vinhos ucranianos para o Reino Unido. Participa em feiras e exposições de vinho que muitos produtores, ainda na Ucrânia, já não conseguem frequentar.

“No início, os vinhos eram rejeitados”, recorda Olevska sobre as tentativas de despertar interesse. Mas isso mudou depois de um produtor ucraniano enviar duas caixas para serem degustadas em eventos. “Em 2023, tivemos oportunidade de apresentar os nossos vinhos na London Wine Fair. Vários produtores vieram e houve um enorme interesse por parte dos profissionais. Gostaram dos vinhos”, conta.

Para o entusiasta Sergiy Klimov, isso não é surpresa. “O nosso território é super-único”, afirma, explicando como a diversidade da paisagem ucraniana favorece sabores complexos e interessantes. “Temos solos negros, calcário, solo vulcânico e mais de 400 castas de uva”, acrescenta.

Os compradores fora da Ucrânia estão a demonstrar um interesse crescente pelos seus vinhos, afirmam os importadores internacionais. (Imagem: Yurii Stefanyak)

Victoria Daskal, crítica e formadora de vinhos em Londres, considera que o aumento das importações de vinho ucraniano para o Reino Unido se deve em parte à consciência da guerra, mas também à diversidade do mercado britânico. “Muitos consumidores ficam surpreendidos ao saber que a Ucrânia é um país produtor de vinho, mas interessam-se em explorar novas regiões”, diz.

Ainda assim, os produtores ucranianos têm um longo caminho a percorrer para aumentar a notoriedade dos seus vinhos, tanto no estrangeiro como em casa.

Sergiy Klimov e Anna Yanchenko explicam como a era soviética limitou o setor, privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade.

Antes disso, o Império Russo falhara no combate à filoxera da vinha — uma praga semelhante a um pulgão que ataca as raízes da videira — causando grandes perdas na Ucrânia, como no resto da Europa do século XIX. Durante séculos, a produção de vinho foi afetada pela instabilidade política: partes do território estiveram sob domínio de Lituânia, Polónia e Rússia entre os séculos XIV e XVIII, antes de cair totalmente sob controlo russo.

No século XX, os soviéticos nacionalizaram tudo. Continuou a produzir-se vinho, mas as adegas privadas foram destruídas e substituídas por produção em massa, sem preocupação pela qualidade. A reputação do vinho ucraniano afundou-se rapidamente, diz Anna Yanchenko.

Agora, em plena nova guerra, a Ucrânia está comprometida em defender a sua identidade enquanto nação soberana — uma identidade que a Rússia procura apagar nos territórios ocupados, denunciam várias organizações de direitos humanos.

Essa tentativa de apagamento faz eco da era soviética, quando o regime de Moscovo controlava a narrativa histórica. “Os meus pais não aprenderam muito sobre a história da nossa terra na escola”, afirma Anna Yanchenko. “Sabemos tão pouco sobre quem somos. Mas, através de descobertas como a verdadeira história do vinho, estamos lentamente a juntar as peças de um puzzle maior: ‘Quem são os ucranianos?’”

Talvez por isso, quando Sergiy Klimov viu uma oportunidade de envolver os vizinhos na produção de vinho, não a deixou escapar.

“Kiev é a capital das vinhas verticais”, diz, descrevendo como as videiras — muitas plantadas no início do século XX — ainda hoje sobem pelas fachadas dos edifícios em certas zonas da cidade.

No final de 2023, lançou o desafio aos vizinhos: juntar e doar uvas cultivadas nas ruas de Kiev. Em pouco tempo, tinham recolhido 200 quilos de uvas.

O resultado foram 100 garrafas de vinho natural, de baixa intervenção, engarrafadas e vendidas com um rótulo criado pelo artista ucraniano Waone. “É como uma obra de arte que nunca tinha existido antes”, diz Sergiy Klimov.

Todas as receitas das vendas foram doada a fundos de apoio às forças armadas ucranianas, garantiu.

“É importante mostrar que a Ucrânia é um país de vinho. Tem raízes antigas, com vinho nas nossas ruas”, afirmou, acrescentando que espera transformar este esforço comunitário em tradição anual.

O projeto de vinho de rua de Sergiy Klimov continua a angariar fundos que ele doa para os esforços de guerra da Ucrânia, enquanto a nação luta para proteger a sua soberania contra a vizinha Rússia.  (Imagem: Yurii Stefanyak)

Anna Yanchenko deseja que o trabalho que ela e Sergiy Klimov fazem para promover os vinhos ucranianos dentro e fora do país contribua para redefinir a imagem da Ucrânia.

“Serve como uma ponte, ligando-nos a outras nações ao oferecer um sabor da nossa história, das nossas tradições e da singularidade da nossa terra”, diz.
“É uma forma de nos reconectarmos com as nossas raízes e de partilhar com orgulho o que torna a Ucrânia verdadeiramente especial.”

Apesar das dúvidas de algumas pessoas, Sergiy Klimov diz que muitos ucranianos começam agora a preferir produtos nacionais a rótulos internacionais.

Depois de participar em feiras de vinho em Düsseldorf, Londres e outras cidades europeias, Sergiy Klimov afirma também ter notado uma mudança no gosto dos consumidores estrangeiros, com mais curiosidade em conhecer as regiões vinícolas ucranianas.

Para Olevska, o apelo vai muito além da guerra: “As pessoas devem provar vinhos ucranianos não só por causa da guerra, não só por causa desta dor, mas porque é um bom vinho, de grande qualidade, e merece estar à mesa.”

Sergiy Klimov sente que investir o seu tempo e conhecimento nesta indústria é também uma forma de apoiar o esforço de guerra do seu país.

“Quando apoias a economia da Ucrânia, apoias a cultura da Ucrânia — e esse é um pequeno passo que qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pode dar pela Ucrânia.”