Camilo Castelo Branco é o paraíso de um romancista. Mentiu sobre a própria vida com todos os dentes que tinha, escreveu mancheias de papéis, muitos deles ainda inéditos, carteou com meio mundo e polemizou com a outra metade, teve mais casas e mais vidas do que um gato vadio e deixou-nos uma obra romanesca cheia de pistas sobre os seus interesses, documentos, preocupações, invejas e amores.
Não é de estranhar, por isso, que Mário Cláudio lhe tenha dedicado um romance biográfico, ou que Aquilino Ribeiro tenha chamado à sua biografia de Camilo O Romance de Camilo: conhece-se aquela vida e não se acredita, mesmo naquilo em que se pode acreditar. O tomo de Aquilino sofre de alguns males. Embrenha-se de tal maneira na vida pícara do seu biografado, que imagina aventura mesmo quando ela não existe: nesse sentido, parece as Memórias do Cárcere, em que Camilo conta as vidas dos seus companheiros de prisão. Não é possível conceber que, naquela prisão específica, todos os homens tivessem uma vida tão romântica quanto Camilo as pinta.
O Romance de Camilo carrega este problema— e carrega também outro, próprio de toda a interpretação de Aquilino da história literária de Portugal. Todos os grandes, para ele, são filhos danados da fortuna, homens mal-remediados que vivem nas sombras das arcadas escondidos dos governos, estroinas e malandros, que desafiam a moral vigente. É assim que Aquilino pinta Camões, Camilo e, parafraseando um título do próprio, alguns mais.
No caso de Camilo, isso é bastante claro. Aquilino centra quase toda a infância do seu biografado em torno do problema de uma falsa fidalguia. Camilo vem, de facto, de uma família com uma pequena prosápia nortenha. Justificada, sim, embora pequena, à medida de tantas famílias de província por esse Portugal fora, que numa geração conseguem sair da pobreza, e lutam depois para manter um estado que não se garante por si só. Para Aquilino, no entanto, são apenas “os Brocas”, apelido com que as línguas mais antipáticas taxavam a família, sim, mas que não prova a tese de Aquilino: a de que seria uma família intoxicada por fumos de fidalguia, que tolhiam as ações dos seus membros e os lançavam numa vida de mentiras, ilusões e falsidades de que tinham dificuldade em sair – e de que o próprio Camilo nunca sairia realmente. Sob a mão de Aquilino, o que surge da família de Camilo é uma galeria de malfeitores que Camilo passa toda a vida a dourar, numa tentativa de apeanhar a sua família a lugares em que nunca esteve.
▲ A capa da edição que reúne num único volume os textos de Aquilino Ribeiro que compõem “O Romance de Camilo” (Bertrand)
Prova disso mesmo, seria a infância atribulada do romancista. Camilo foi, como a sua irmã, perfilhado tardiamente – tal como o outro grande romancista português do século XIX – e, na verdade, a filiação durou pouco. Ficou órfão de mãe na primeira infância, e de pai ainda no tempo de aprender as primeiras letras, coisa que fez em Lisboa, numa pequena escola nas escadinhas do Duque. A orfandade recambiou-o, a ele e à irmã, para o norte, ao cuidado de uma tia que não parece ter tido a maior das estimas pelos sobrinhos. Pelo menos a julgar pelo controverso processo da herança e tutoria dos órfãos: não terá tido escrúpulo nenhum em lesar os sobrinhos e em atirá-los para um estado pouco condizente com a empáfia dos Botelhos.
A infância e adolescência de Camilo são, assim, as de um enjeitado a que não se sabe bem o que há de fazer. Aprende uns rudimentos de civilização com um padre, uns tiques de letras com outro, vive uns tempos com a irmã quando esta (mais velha) casa, saltita entre terras maiores e outras mais pequenas, até acabar ele também embrulhado num casamento de horizontes estreitos, próprio do mundo popularucho para o qual a vida o tinha atirado.
Camilo pinta o seu resgate à vida comezinha de um bruto de província com cores semi-napoleónicas. Por isso é que tem tanta importância para ele a mais que provável mentira de que terá combatido por D. Miguel, e que no grande elevador social que seria o exército pós-Napoleão, teriam dado conta do seu talento, levando-o primeiro a estudar, depois a consagrar-se como homem de letras.
A verdade terá sido mais prosaica e menos lustrosa para o romancista. A certo ponto, abandonou a mulher para ir estudar (pouca) medicina para o Porto – a expensas da família dela – e nunca mais a terá visto, nem a ela, nem à filha acabada de nascer. Logo por esta altura, Camilo ensaia umas polémicas que poderão tê-lo deixado mal-visto no ambiente familiar e, de facto, liberta-se das amarras domésticas com uma impiedade de que voltará a dar provas.
Há um pormenor curioso sobre as primeiras aventuras literárias de Camilo: há uma carta, citada por Alexandre Pinheiro Torres, em que Camilo admite a sua disponibilidade para escrever, seja sob ponto de vista liberal, seja realista, ultramontano ou ímpio. Camilo queria era escrever, que lhe pagassem, fosse por que ponto de vista fosse. Esta disposição, naturalmente, lançou – numa época menos benevolente com ele, ainda não amaciada pelo reconhecimento do génio – dúvidas sobre o seu carácter, dúvidas essas que Camilo se encarregou muitas vezes de esclarecer, nem sempre para melhor; no entanto, vemos já aqui, mais do que isso, a disposição hesitante do seu cérebro, mais interessada em testar a sua elasticidade do que em provar grande coerência.