Dresden, martirizada pela guerra de 1945, é hoje uma cidade alemã exemplar, com 560.000 habitantes, rivalizando com Lisboa e com mais do dobro da população do Porto. Muito próximo do centro, junto ao jardim botânico e à Universidade Técnica da cidade, em pleno parque, a Volkswagen construiu aquela que é conhecida como a Fábrica de Vidro, por ser integralmente revestida nesse material, o que faz com que seja considerada a mais bela unidade de produção de automóveis do mundo. Originalmente, foi concebida para fabricar o VW Phaeton (de 2002 a 2016), tendo em 2017 sido reformulada para a produção do e-Golf e, após 2021, do ID.3. Acontece que a produção deste modelo eléctrico em Dresden vai cessar este mês e, mesmo oferecendo 30.000€ aos funcionários da Gläserne Manufaktur (Fábrica de Vidro, em alemão) para que estes se desloquem para Wolfsburg, os empregados recusam.

Na realidade, a Gläserne Manufaktur nunca foi uma autêntica fábrica, pelo menos para o e-Golf e para o ID.3, pois não possui zona de estampagem, de pintura ou de montagem dos motores e transmissões, assumindo-se antes como um salão de exposições ou uma espécie de montra onde os clientes são convidados a assistir ao final da montagem dos seus veículos num local marcante. As carroçarias do e-Golf e do ID.3 chegavam a Dresden através de uma linha de comboio específica, já formadas e pintadas, vindas de Wolfsburg (e de Zwickau, para os ID.3), sendo que era também pela via ferroviária que os veículos ali produzidos — à razão de 6500 unidades/ano, o que corresponde a cerca 25 ID.3 por dia (com cinco dias por semana ou 260 dias de fabricação por ano) — eram introduzidos no sistema de distribuição dos Volkswagen novos.

Concebida mais como salão de exposições do que fábrica de carros, a Fábrica de Vidro vai transformar-se num centro de inovação em que a Volkswagen tem como parceiro a Universidade Técnica de Dresden

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Agora que decidiu um novo rumo para a emblemática Gläserne Manufaktur, que visitámos em diversas ocasiões, a Volkswagen ficou sem trabalho para os cerca de 250 empregados que faziam a linha do ID.3 funcionar, tendo-os convidado a deslocarem-se para Wolfsburg. Aqui fica a sede e as principais linhas de produção da marca, localizadas a 300 km de Dresden, a cerca de duas horas pela auto-estrada A14.

Para incentivar os operários à mudança, a Volkswagen anunciou que manteria 155 funcionários em Dresden, a exercer novas funções, oferecendo a cerca de uma centena 30.000€ para se deslocarem para Wolfsburg, de acordo com o que relatou a publicação germânica Handelsblatt. No entanto, ainda que o valor possa ser considerado generoso, o anúncio do bónus para a mudança foi acolhido com assobios e apupos pelos trabalhadores. O conflito laboral tardará a resolver-se, uma vez que os empregados da marca usufruem da garantia de postos de trabalho até 2030.

O futuro da Gläserne Manufaktur passa pela conversão da fábrica em campus de inovação da Volkswagen, em parceria com a Universidade Técnica de Dresden, que deverá ocupar cerca de 50% da área das instalações.