Recentemente, Xuxa Meneghel, de 62 anos, revelou o desejo de ser avó. Em entrevista ao “Fofocalizando”, do SBT, a eterna Rainha dos Baixinhos declarou que já pediu netos à sua única filha, Sasha, de 27 anos. “Digo isso a ela o tempo todo: não gostaria de forçar uma barra, mas eu estou preparada para ser avó”, disse ao programa durante a inauguração da loja da Sasha, no Shopping Leblon, Zona Sul do Rio.
Sasha, por sua vez, já manifestou vontade ter filhos, mas afirma que a maternidade ainda é um plano distante. Casada com o cantor João Lucas desde 2021, a empresária revelou ao “PodDelas”, em março deste ano, que quer viver essa fase com “calma e profundidade.” “E, agora, a minha vida não está calma, então acho que prefiro esperar um pouco mais”, disse.
A fala de Xuxa revela uma velha tensão familiar: a pressão imposta aos filhos, especialmente às mulheres, em gerar crianças para atender um desejo das avós. E, mesmo que Xuxa diga não “forçar uma barra”, comentários como os dela acabam exercendo uma exigência velada sobre a maternidade.
Psicóloga clínica, Isabela Coura analisa que expressar o desejo de ter netos não é, por si só, um problema. “Mas a fronteira saudável é clara: os pais podem compartilhar seu desejo, mas não devem insistir, repetir o tema de forma recorrente ou interpretar a decisão dos filhos como egoísmo ou desamor. Respeitar o tempo, o momento e até as dificuldades dos filhos é fundamental para que o diálogo permaneça saudável e não se transforme em pressão emocional”, destaca.
Mas quando figuras públicas como Xuxa expressam publicamente seu desejo urgente de se tornarem avós, elas acabam reforçando normas sociais que já estão presentes no imaginário coletivo, sobretudo a ideia de que o percurso “natural” da vida feminina inclui a maternidade, segundo o professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo Janssen, Luciano Gomes dos Santos.
“Mesmo que a intenção não seja pressionar, esse tipo de discurso pode normalizar ainda mais a expectativa de que todas as mulheres devam desejar esse caminho. No Brasil, onde celebridades têm grande influência simbólica, falas desse tipo contribuem para perpetuar padrões tradicionais de gênero e dificultam que escolhas alternativas como não ter filhos ou adiar indefinidamente essa decisão sejam vistas como legítimas”, explica o professor.
A expectativa sobre a maternidade alheia vem de um modelo tradicional de família, no qual a identidade feminina ainda é associada à maternidade e ao cuidado, avalia a psicóloga Isabela Coura. “Nesse imaginário social, a ‘plenitude’ da mulher estaria ligada à reprodução. Mesmo com avanços importantes na igualdade de gênero, e diante de novas configurações familiares, essa pressão ainda aparece. Ela é reforçada por discursos familiares conservadores, por certas instituições sociais, religiosas e por redes sociais que continuam a promover um roteiro de vida pré-determinado para as mulheres”, percebe a especialista.
No fundo, esta é uma forma de reduzir a complexidade da experiência feminina a um modelo único, desconsiderando projetos pessoais, profissionais e desejos individuais. “E isso gera impacto direto na autonomia e no bem-estar das mulheres”, aponta.
Na estrutura brasileira, impacto é ainda maior
O sentimento de culpa relatado por muitos jovens ao dizer “não” à família é universal, mas no Brasil assume contornos particulares. Isso porque a cultura brasileira “valoriza intensamente a família, a proximidade emocional e a reciprocidade afetiva.” “Pais investem muito nos filhos e esperam, muitas vezes, retribuição em forma de dedicação ou continuidade familiar”, explica o professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo Janssen, Luciano Gomes dos Santos.
O especialista aponta ainda que, em países com culturas mais individualistas, como os do Norte da Europa, a autonomia pessoal costuma prevalecer sobre as expectativas familiares. “Já no Brasil, onde há fronteiras mais fluidas entre autonomia e obrigação, a culpa emerge com mais força. Logo, trata-se de uma dinâmica universal, mas acentuada pela cultura brasileira, marcada por laços familiares intensos e expectativas interpessoais profundas”, sintetiza o sociólogo.
Além disso, o especialista avalia que o Brasil valoriza “a família extensa e a convivência intergeracional.” Isso faz com que a chegada de um neto seja percebida por muitos pais como um marco simbólico do ciclo familiar. “Assim, a pressão não surge apenas como um desejo individual, mas como um comportamento socialmente legitimado, alimentado por tradições, religiosidade e um modelo de família ainda bastante normativo”, explica.
Soma-se a isso a busca por não ferir os sentimentos alheios. “De alguma forma, todos nós temos, em maior ou menor grau, a necessidade de agradar, ser validados e corresponder ao que a família espera”, sintetiza a psicóloga Isabela Coura.
Quando a cobrança ultrapassa os limites
Existe um limite entre manifestar desejo em que os filhos se tornem pais e a cobrança invasiva. Isso acontece quando a necessidade dos pais passa a se sobrepor ao desejo e ao tempo dos filhos e ocorre quando começam a aparecer cobranças recorrentes, perguntas insistentes, “brincadeiras” sobre o assunto, comparações com outros familiares e até chantagem emocional para tentar acelerar decisões relacionadas a ter filhos.
“Esse tipo de pressão gera desconforto e costuma refletir diretamente na relação entre pais e filhos. Podem surgir brigas, sentimento de culpa, insatisfação, além de evitação de conversas e, em alguns casos, até dos próprios encontros familiares. Esses sinais indicam claramente que os limites foram ultrapassados e que a privacidade do casal não está sendo respeitada”, explica a psicóloga Isabela Coura.
Além disso, a pressão por netos pode gerar conflitos intergeracionais, e isso aparece de diversas maneiras nas famílias brasileiras. “Desde brincadeiras insistentes que escondem cobranças, passando por comparações com parentes que já tiveram filhos, até tensões explícitas em almoços de família ou mesmo afastamento temporário de jovens que desejam evitar o tema”, aponta o professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo Janssen, Luciano Gomes dos Santos.
“Esses conflitos refletem um choque de valores entre gerações: enquanto os mais velhos cresceram sob normas rígidas de família e maternidade como destino, os mais jovens vivem em um contexto que valoriza autonomia, estabilidade financeira, projetos individuais e saúde mental. Quando essas perspectivas se chocam, surgem frustrações, mágoas e incompreensões mútuas, que expressam essa transição entre diferentes formas de entender a vida familiar”, salienta o professor.