Pesquisadores do Laboratório de Astrobiologia da USP conduziram um estudo que fortalece a hipótese de que lagos remotos em Marte eram capazes de abrigar formas de vida semelhantes às terrestres.

O trabalho, publicado recentemente na revista especializada em astrobiologia, investigou como soluções aquosas ricas em íons de ferro poderiam ter funcionado como escudo contra a radiação ultravioleta de tipo C, que atinge o planeta devido à sua atmosfera rarefeita — uma das principais barreiras à habitabilidade hoje.

Para simular as condições marcianas, os cientistas usaram como organismo-modelo uma levedura sensível à radiação ultravioleta, mas também resistente a ambientes ácidos. A levedura foi submetida a diferentes concentrações de ferro dissolvido e exposta a níveis crescentes de radiação.

Os resultados mostraram que mesmo em concentrações moderadas de ferro, a água protegia os microrganismos: as células conseguiram sobreviver e se reproduzir, compensando perdas causadas pela exposição. Isso sugere que, em um ambiente aquático adequado, formas de vida — ao menos simples — poderiam persistir.

Vida em Marte

Utilizando esse modelo experimental, os pesquisadores aplicaram simulações às condições dos lagos marcianos antigos.

Ficou evidente que, sob determinadas concentrações de ferro, até mesmo camadas rasas de água — com poucos centímetros de profundidade — poderiam oferecer proteção suficiente, e águas mais profundas tornariam o ambiente ainda mais favorável.

Isso amplia significativamente o leque de cenários em que a vida poderia ter existido em Marte, não apenas profundamente soterrada ou em locais isolados, mas em lagos superficiais, acessíveis a instrumentos de futuras missões.

As evidências geológicas e mineralógicas encontradas por missões recentes em Marte reforçam esse quadro. Diversas regiões do planeta apresentam sinais de sedimentos típicos de antigos leitos de lagos e ambientes aquáticos, como depósitos de argilas, sedimentos finos e estruturas que lembram margens de lagos e deltas fluviais.

Descobertas como essas têm levado cientistas a reconsiderar a cronologia e a geografia das áreas que poderiam ter sustentado água líquida estável — condição essencial para a vida como conhecemos.

O estudo da equipe da USP é considerado um avanço relevante dentro da astrobiologia, pois fornece um mecanismo plausível pelo qual microrganismos poderiam sobreviver à radiação intensa, sem depender de camadas profundas de solo ou de escudos geológicos.

A possibilidade de que lagos rasos e superficiais tenham sido habitáveis amplia os alvos de busca por sinais de vida; futuros robôs ou amostras retornadas à Terra poderiam mirar sedimentos antigos nesses locais.

*Sob supervisão de Fabio Previdelli