Se confirmada, a compra da Warner Bros. pela Netflix terá o potencial de transformar a indústria do audiovisual do planeta, com impactos preocupantes na criação, produção e distribuição de conteúdo. A concentração de poder que resultará desse negócio bilionário assusta, com razão, diferentes segmentos da indústria.
Num mercado ainda em formação, não consolidado, sempre houve especulações sobre fusões. Mas a compra da terceira maior empresa de streaming pela maior de todas acende o alerta de monopólio. Os interesses e as afinidades do presidente Trump com os donos da Paramount, também candidata a ficar com a Warner, acrescentam um elemento a mais de imprevisibilidade sobre as chances de a Netflix confirmar a sua aposta.
Em todo caso, ao oferecer US$ 82,7 bilhões, incluindo dívidas, por um bom pedaço da Warner, em uma das maiores transações da história da mídia, a Netflix não disfarça mais que iniciativas comerciais brutais são necessárias para manter a sua posição dominante. Como diferentes analistas observaram, longe da imagem de Davi que cultivou no início, a empresa agora se assume como o Golias desse mercado, fomentando antipatias e acumulando desafetos.
É preciso dizer que a imagem de Davi foi cultivada com a ajuda inestimável dos próprios concorrentes, que por anos desdenharam e minimizaram os impactos provocados pela Netflix. As piadas começaram há 15 anos, quando a empresa começava a transitar do aluguel de DVDs pelo correio para a distribuição de conteúdo por streaming.
Em dezembro de 2010, Jeff Bewkes, então CEO da Time Warner, empresa controladora da Warner Bros., foi questionado se a Netflix representava uma ameaça para os gigantes de Hollywood. O executivo ironizou a pergunta. “É um pouco como perguntar se o exército albanês vai dominar o mundo”, disse. “Acho que não.”
Já no Brasil, em 2014, Luiz Eduardo Baptista, então presidente da Sky, uma das grandes operadoras de TV por assinatura, afirmou que não enxergava a Netflix como uma rival no negócio: “Não somos concorrentes. Mas, daqui a pouco, se começarem a nos incomodar, podemos comprar esses caras no Brasil”. Hoje presidente do Flamengo, Baptista via a plataforma de streaming como “um produto complementar”. Na verdade, o negócio da TV por assinatura está derretendo em consequência do streaming.
A Netflix, ao contrário de executivos estrangeiros e brasileiros, sempre enxergou que o seu negócio tinha um potencial transformador, mas evitou minimizar os rivais posicionados à frente. Em 2012, por exemplo, o executivo Ted Sarandos anunciou: “O objetivo é nos tornarmos a HBO mais rapidamente do que a HBO consiga se transformar na Netflix”.
O tempo mostrou o acerto de Sarandos. A HBO ficou para trás, perdeu parte de sua identidade e deixou de ser uma referência para a Netflix. Em 2023, como resultado da fusão da Time Warner com o Discovery, a HBO perdeu até o nome, virando Max, uma decisão posteriormente revertida.
Em 2024, já no papel de líder de mercado, Sarandos disse ter se arrependido da previsão feita 12 anos antes e deixou explícito o tamanho do apetite da Netflix: “Queremos ser HBO, CBS, BBC e todas as diferentes redes ao redor do mundo que divertem as pessoas, e não nos restringirmos apenas à HBO”, disse. “A programação de elite, de prestígio, desempenha um papel muito importante na cultura. Mas é muito pequeno”, acrescentou.
Agora em dezembro, ao anunciar a oferta pela Warner, a Netflix não fingiu modéstia: “Nossa missão sempre foi entreter o mundo”. A história de Davi e Golias lembra, porém, que nem sempre o mais forte vence.
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