Climate Breakthrough

O professor de física Ramón Méndez Galain, antigo Secretário de Energia do Uruguai
Os cenários de catástrofe associados às alterações climáticas deveriam bastar para empurrar os governos a abandonar os combustíveis fósseis. Mas talvez sejam histórias de sucesso como a do Uruguai, em que os mercados e a economia também ganham, a mostrar o caminho.
Em 2008, Ramón Méndez Galain era um simples professor de Física Teórica, especializado no estudo do Big Bang, quando o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, o surpreendeu com um telefonema a convidá-lo para o cargo de Secretário de Energia do país.
Na altura, a economia uruguaia estava a ser estrangulada pela escalada dos preços do petróleo e do gás. Vázquez, médico oncologista que faleceu em 2020, sabia que era necessário transformar o país, e sabia que Méndez Galain era a pessoa certa para o fazer.
Cinco anos mais tarde, o Uruguai tinha-se transformado numa potência das energias verdes, com 98% da eletricidade da sua rede elétrica a vir de fontes renováveis, conta o The Washington Post.
Nos anos em que Méndez Galain foi o principal responsável pela política energética do país, num período que abrangeu dois governos, o Uruguai instalou dezenas de centrais de energias renováveis. Em apenas 5 anos após a sua entrada em funções, o país descarbonizou quase por completo a sua rede elétrica: 98% da energia tem agora origem em fontes renováveis.
A energia eólica, por si só, consegue produzir até 40% da eletricidade total consumida no Uruguai num ano, nota o The Washington Post.
Um dos fatores mais importantes para o sucesso de Méndez Galain foi o facto de a sua estratégia ter sido apoiada por todo o sistema político uruguaio, o que significou que não seria revertida com a mudança de governo.
Com esse consenso, conseguiu mexer em todo o sistema energético do país: infraestruturas, regulamentação e desenho do mercado.
Méndez Galain defende que, quando se eliminam as vantagens concedidas pelos governos aos combustíveis fósseis e se permite que as renováveis concorram em pé de igualdade, estas podem tornar-se a opção mais barata.
E não se trata apenas de cortar subsídios ao petróleo e ao gás. No Uruguai, conduziu uma mudança para “mercados de capacidade de longo prazo, dando previsibilidade a investidores e utilities e eliminando o enviesamento que favorecia os combustíveis fósseis”.
Outro elemento-chave da estratégia estratégia de foi Ramón Méndez Galain foi uma ferramenta de simulação que ele próprio desenvolveu, que analisava a estabilidade da rede, a intermitência do vento e do sol e a forma como diferentes tecnologias podiam funcionar em conjunto. Esta ferramenta ajudou a difundir a mensagem e a mostrar que era possível uma realidade diferente.
Atualmente, o Uruguai produz quase 99% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis, e apenas uma pequena fração, cerca de 1% a 3%, é proveniente de centrais térmicas flexíveis, como as alimentadas a gás natural — que só são usadas quando a energia hidroelétrica não consegue cobrir totalmente os períodos em que o vento e o sol são escassos, realça a Forbes.
A transformação liderada por Méndez Galain trouxe benefícios profundos ao Uruguai em várias frentes.
O impacto económico foi profundo. O custo total de produção de eletricidade diminuiu para cerca de metade do que seria com alternativas fósseis e o país atraiu 6 mil milhões de dólares em investimentos em energias renováveis num período de cinco anos — o equivalente a 12% do seu PIB.
Foram criados cerca de 50 mil novos empregos na construção, engenharia e operação, aproximadamente 3% da população ativa. Ainda mais impressionante: o Uruguai deixou de estar sujeito às fortes oscilações dos mercados globais de combustíveis fósseis. Desde então, a economia do país tem crescido entre 6% e 8% ao ano e a taxa de pobreza caiu de 30% para 8%.
Cumprida a sua missão, Méndez Galain dirige agora uma organização sem fins lucrativos, a Fundação Ivy, que aconselha governos sobre como podem fazer transformações semelhantes rumo às energias renováveis.
Méndez Galain espera ajudar 50 países a fazer a transição para renováveis nos próximos dez anos. “Queremos provar que uma transição energética pode ser possível em geografias diferentes e funcionar em contextos nacionais de energia e de política distintos”, diz Galain à Forbes.
Os cenários de catástrofe associados às alterações climáticas deveriam bastar para empurrar os governos a abandonar os combustíveis fósseis e a adotar as renováveis com toda a urgência. Mas talvez sejam histórias de sucesso como a do Uruguai, em que os mercados e a economia também ganham , que acabem por levar os decisores a agir com coragem.