O anúncio de que a obra ia arrancar foi feito em 26 de setembro, quando faltavam duas semanas para as autárquicas. A Câmara Municipal de Nisa — então liderada pela socialista Idalina Trindade, tendo como número dois José Dinis Serra, que entretanto foi eleito presidente — fazia desta aspiração de décadas uma bandeira.
E o mesmo se diga do Governo, que através da Infraestruturas de Portugal, tutelada pelo Ministério da Economia, publicitou encontros ibéricos que haveriam de conduzir, um dia, à construção da ponte rodoviária sobre o rio Sever para ligar o Alto Alentejo à Estremadura espanhola em poucos minutos.
E, no entanto, passadas as eleições de 12 de outubro, a ponte caiu com estrondo. Todos se aperceberam, se é que não sabiam antes, da impossibilidade de concretizarem o projeto até agosto de 2026, data limite estabelecida por Bruxelas para libertar verbas do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR).
Segundo fontes locais, o presidente da Câmara de Nisa, José Dinis Serra, assumiu há dia na Assembleia Municipal que a obra está embargada e que não é previsível quando, e se, será retomada. Segundo as mesmas fontes, a empresa minhota ABB, à qual a execução da ponte foi adjudicada em outubro último, já desfez o estaleiro e retirou operários e máquinas.
A corroborar o embargo está uma reunião em Madrid a 2 de dezembro, que juntou a Comissão Técnica Mista Luso-Espanhola de Pontes e na qual participou a Infraestruturas de Portugal. A ponte do rio Sever ficou fora da agenda. O comunicado final do encontro dizia que as conversas giraram apenas em torno de quatro pontes transfronteiriças: entre Valença e Tui, entre Caminha e La Guardia, a do rio Erges junto a Terras de Monfortinho, e a do Guadiana junto a Alcoutim.
Nem a Câmara de Nisa nem a ABB quiseram fazer comentários, apesar dos nossos repetidos contactos no últimos dias. A ABB (Alexandre Barbosa Borges SA), de Barcelos, é a mesma empresa que construiu a ponte pedonal do rio Trancão, em Lisboa. Tem sido falada nos últimos meses depois de o Correio da Manhã e o Expresso terem revelado que o betão da remodelação da casa de Luís Montenegro em Espinho foi fornecido pela ABB e que anos antes a mesma construtora foi escolhida pela Câmara de Espinho para uma rendosa obra pública após apareceres do escritório de advogados que Montenegro integrava.
Espanhóis não sabem
António González Riscao, alcaide socialista de Cedillo, ainda não estava ciente de que o projeto tinha caído, quando contactado esta semana pelo Nascer do SOL. Reconheceu, no entanto, que da parte espanhola também houve atrasos significativos, descrevendo-os como «problemas burocráticos».
O projeto ainda está a ser estudado em Madrid por juristas do Governo, disse o alcaide. «Tenho a informação de que até ao fim do ano haverá assinatura do ministro. A partir daí, a obra pode avançar», comentou-nos. No entanto, os dados disponíveis do lado de cá da fronteira indicam que a obra borregou definitivamente.
A ponte deveria ligar a aldeia de Montalvão, no concelho de Nisa, à aldeia de Cedillo, na província de Cáceres. O projeto fala em 160 metros de comprimento para um tabuleiro de 11,5 metros de largura com duas faixas de rodagem.
Montalvão e Cedillo ficaram separadas em 1970 por uma barragem hidroelétrica espanhola, hoje explorada pela Iberdrola, que obrigou à demolição de uma velha travessia no encontro do Tejo com o Sever. Até 1995 foi possível cruzar o paredão da barragem. Desde aí, já lá vão 30 anos, o atravessamento pedonal está proibido e os carros só têm autorização para circularem aos fins-de-semana em determinados horários.
Habitantes com quem falámos descreveram uma forte ligação, até nas relações familiares, entre Montalvão e Cedillo e a necessidade de um corredor rodoviário para estimular a economia entre a Beira Baixa, o Alentejo e toda a Estremadura espanhola. Mas um caminho de apenas 15 quilómetros obriga hoje, sem ponte, a um desvio para sul, que atravessa os concelhos de Nisa, Castelo de Vide e Marvão, e depois para norte, já em Espanha, em direção a Cedillo, num total de mais de 100 quilómetros.
10,6 ou 12 milhões?
A ideia da ligação sobre o Sever tem décadas e pareceu finalmente viável com a cegada do PRR. Em 2021, a então ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, esteve em Nisa para assinar contratos de financiamento. Bruxelas entraria com nove milhões.
A Câmara lançou dois concursos para adjudicar a construção, que ficaram vazios por falta de interessados. Alegadamente, os montantes disponíveis eram muito baixos do ponto de vista das construtoras. Entretanto os custos foram sendo revistos em alta. Ao terceiro concurso, o financiamento da bazuca subiu para 10,6 milhões e apareceu a ABB.
De acordo com a Estrutura de Missão Recuperar Portugal, que gere o PRR, o montante europeu continua a ser à data de hoje de 10,6 milhões, dos quais já foram transferidos para os cofres da autarquia nisense cerca de 797 mil euros. Esta informação desmente um comunicado de setembro da Câmara de Nisa, que referia que o projeto era «financiado pelo PRR em cerca de 12 milhões de euros». O mesmo comunicado, citado pela Agência Lusa, dizia que o orçamento total da empreitada estava em 19,2 milhões. Portanto a autarquia teria de avançar diretamente com 8,6 milhões, que fontes partidárias dizem não estar disponíveis nos cofres da autarquia — o que ajuda a explicar o cancelamento da obra.
O cenário deste fracasso é a forma como o Estado central e o poder local têm gerido os dinheiros europeus da bazuca, num total de 22,2 mil milhões de euros ou 8,2% do PIB português.
A ponte internacional sobre o rio Sever é mais um desses projetos que se ficam pelo caminho, desbaratando a possibilidade de financiamento de Bruxelas. Alguns deles, não se sabe se será o caso deste, têm vindo a ser reprogramados para beneficiarem futuramente dos 22,6 mil milhões de fundos de coesão do programa Portugal 2030.