Não é isso que se sente quando de repente estamos numa sala da AIMA imaginada, funcionários e imigrantes sentados frente a frente. “Fala português?”, “Tem documentos?”, “Trabalha?”, “Nem “Bom dia, boa tarde”, o básico?”, “Onde é a sua casa?”, “Ainda não conseguiu falar em português?”, disparam. “Posso falar. Tenho o direito a falar?”, escutamos a dada altura.
“As inquietações que sinto na vida trago-as para os meus espetáculos”, resume Marco Martins, encenador, findo o ensaio. Explica que para “esta onda de xenofobia que se tem espalhado nos últimos anos na nossa sociedade, muito apoiada pelo discurso da extrema-direita”, a mediática fotografia da Rua do Benformoso funciona como “um ícone dessa viragem social”. “A ideia de ter um primeiro-ministro que diz que não é preciso fazer crimes para as pessoas se sentirem inseguras, indiciando que há grupos étnicos ou grupos sociais que são eles próprios uma ameaça só por pertencerem a esse grupo…”, solta.
“Aquela imagem daquelas pessoas encostadas contra a parede transformou-se num ícone da relação, no fundo, política que temos com a imigração em Portugal”, acredita. “Levantou-me muitas questões e, sobretudo, a desumanização daquelas pessoas, ou seja, no fundo, bastava estar naquela rua para ser encostado a uma parede, não era preciso haver nenhuma causa, e, sobretudo, havia alguns lojistas, ainda por cima, naquela rua, que eram portugueses nativos, que continuaram a andar.”