80 mil euros foi o valor pago pela iraniana Goli Kouhkan, de 25 anos, para salvar a própria vida da condenação à pena de morte por enforcamento [qisas], após estar presa durante sete anos na prisão de Gorgan, no Norte do Irão. A quantia, arrecadada pela fundação australiana Qasim Child através de doações, foi transferida para a família do marido e agressor como forma de “perdão”, pois Goli foi condenada por participação no assassinato de Alireza Abil, em maio de 2018, quando tinha 18 anos.
Aos 12 anos, foi forçada a casar-se com um primo e a adolescência foi marcada pela violência doméstica praticada pelo marido contra ela e o filho — nascido um ano após o matrimónio —, agravada pela falta de ajuda dos próprios pais quando relatou o que vivia em casa.
Alireza Abil foi morto por um primo, Mohammad Abil, que atendeu ao pedido de ajuda da mulher ao ver o marido espancar o próprio filho do casal, na altura com cinco anos. Goli telefonou para os serviços de emergência após a luta do primo com o agressor da criança. Relatou a morte do marido às autoridades, mas não se livrou de ser detida juntamente com parente que matou Abil e de entrar com ele naquele que é conhecido como “corredor da morte”. O filho foi entregue aos avós paternos, que assinaram documentos de “perdão” após receberem o dinheiro.
Goli faz parte da comunidade pobre balúchi (aproximadamente 2% da população do Irão), é analfabeta e não tem documentos de identificação. Foi coagida no tribunal a assinar uma confissão em que assumia a responsabilidade pela morte do marido, sem a presença de um advogado. O diretor da organização Iran Human Rights, Mahmood Amiry-Moghaddam, denunciou que o valor da indemnização estipulado para o caso era “várias vezes superior ao valor oficial, uma quantia impossível para uma jovem balúchi sem documentos, de origem humilde e que também foi rejeitada pela família”.
O caso ganhou destaque após uma reportagem no jornal britânico The Guardian em novembro, que chamou a atenção da imprensa internacional e pressionou as autoridades iranianas, levando à redução do valor da indemnização de 100 mil euros para 80 mil euros. A advogada de Goli publicou numa rede social na última terça-feira que a mulher já sabe da suspensão da execução e que agora deverá deixar a prisão e a cidade de Gorgan. Quando estiver em liberdade, espera poder reencontrar o filho, que deve receber legalmente parte do dinheiro pago aos sogros. Segundo informações da organização Iran Human Rights, Mohammad Abil permanece no corredor da morte com o risco de ser executado.
A Organização das Nações Unidas revelou que 241 mulheres foram executadas entre 2010 e 2024, sendo 114 condenadas à qisas por homicídio. “A maioria delas havia matado o marido ao serem vítimas de violência doméstica ou casamento infantil e agiram em legítima defesa”.
*Texto editado por Cátia Andrea Costa