“Não tenho nada a ver com o Projeto 2025.” No debate frente à adversária Kamala Harris, em 2024, o Presidente norte-americano, Donald Trump, garantia que não estava relacionado com este plano, uma espécie de guia para o ajudar a governar os Estados Unidos da América (EUA) quando regressasse à Casa Branca. Durante a campanha eleitoral, o assunto foi um incómodo para os republicanos. Feito pelo think tank Heritage Foundation, o projeto desejava transformar os EUA num país cristão, conservador e pretendia “restaurar a família como peça central da vida americana e proteger as crianças”.
Ao longo do livro O Plano (ed. Dom Quixote), o jornalista da revista norte-americana The Atlantic David A. Graham explica como é que os autores do Projeto 2025 delinearam um programa em várias esferas para implementar assim que Donald Trump chegasse ao poder. Em entrevista ao Observador, o autor mostra-se “surpreendido” com a “rapidez” com que muitas das ideias do Projeto 2025 foram já colocadas em prática: “Conseguiram acumular mais poder para o Presidente. E essa é a base para tudo o resto”.
Os autores do Projeto 2025, um documento de 900 páginas publicado online em 2023, desejavam reestruturar o Governo norte-americano para conceder mais poder à presidência. Uma das formas de o fazer seria colocar em vários cargos públicos aliados de Donald Trump.”Estão a promover e a contratar pessoas que são tão extremamente competentes quanto leais. Mas a competência não é o mais importante”, relata David A. Graham. Assim, num ambiente politizado, praticamente não existem contrapoderes — e a agenda do Presidente é colocada em prática com mais facilidade.
Ainda assim, o Projeto 2025 não é um assunto popular nos Estados Unidos. E muitos dos seus autores, apesar de se aliarem a Donald Trump, não se reveem totalmente na polémica figura mediática do chefe de Estado. Mas isso não é o mais importante, porque, com Trump, estão a conseguir implementar a sua agenda: “Enquanto forem conseguindo aquilo que querem nas questões de conservadorismo social, estão dispostos a trabalhar com Trump, mesmo que não o aprovem a nível pessoal”, explica David A. Graham.
Tenho a impressão de que este livro foi escrito no final de 2024 ou no início deste ano. Trump já está há quase um ano no poder. O Projeto 2025 já foi posto em prática? Quanto?
Acho que mais do que esperava inicialmente. Comecei a escrever este livro em dezembro de 2024 e acabei mesmo antes de Trump tomar posse. E depois perguntei-me: ‘E se eles não colocarem [o Projeto 2025] em prática? Será que vão descartar o meu livro?’”. Mas depois fiquei muito surpreendido com a rapidez com que o fizeram. É difícil para mim quantificar, porque há tantas coisas pequenas e grandes em escalas distintas. Mas penso que eles conseguiram acumular mais poder para o Presidente. E essa é a base para tudo o resto que eles querem fazer. Tiveram bastante sucesso nisso.
Tornaram Trump mais poderoso, então. Em que áreas é mais visível esta implementação do Projeto 2025?
Acho que uma das coisas em que tiveram mais sucesso foi no despedimento de funcionários públicos. Outra foi a abolição de várias medidas relacionadas com a proteção ambiental. E penso que foram bem sucedidos em assumir o controlo de partes do Governo federal, usando o Departamento de Justiça como ferramenta política para isso ou assumindo o controlo de agências reguladoras.
Existem vários relatos de funcionários públicos que têm sido despedidos. Considera que a competência e a meritocracia perderam valor para esta administração? No livro explica que a lealdade política agora é mais valorizada…
Os criadores do Projeto 2025 têm a ideia de que uma das coisas em que erraram na primeira administração Trump consistiu em terem pessoas cuja fidelidade era a um Governo funcional ou à Constituição e não a Trump. Agora, querem escolher pessoas que fundamentalmente são leais a Trump e que querem implementar a sua agenda. E acho que em muitos casos as pessoas que eles estão a promover têm uma espécie de dupla lealdade — quer a Trump, quer ao Projeto 2025. Querem competência, mas não necessariamente uma administração governamental competente. É mais sobre implementar a agenda. Penso que estão a promover e a contratar pessoas que são tão extremamente competentes quanto leais. Mas a competência não é o mais importante.