A venda de bilhetes para os jogos do Mundial 2026 arrancou na quinta-feira e as críticas já começaram a ser disparadas de vários quadrantes. Em causa está o preço dos ingressos, que extravasa largamente o padrão do anterior Campeonato do Mundo e está a deixar os adeptos incrédulos. A FIFA, até ver, limita-se a regozijar-se com os cinco milhões de pedidos de bilhetes realizados nas primeiras 24 horas do processo.
Um dos jogos que está a despertar mais interesse nesta fase inicial envolve mesmo a selecção de Portugal e, em concreto, o embate com a Colômbia, agendado para 27 de Junho, em Miami. Há três níveis de preços, que começam nos 225 euros, passam pelos 426 num segundo patamar e podem chegar aos 600 euros. Mas o problema agrava-se porque, face à impossibilidade de milhares de adeptos adquirirem os ingressos nesta fase, entram em cena as agências de revenda.
Neste mercado “secundário”, a subida é alarmante. Antes do sorteio, segundo o site ticketdata.com, o bilhete mais barato para o último jogo de Portugal na fase de grupos (que viria a colocar a Colômbia no caminho da selecção nacional) rondava os 400 dólares (340 euros), mas assim que o calendário ficou definido o Portugal-Colômbia disparou para os 1700 euros, o que faz deste encontro o quinto mais caro de todo o torneio nestas plataformas, só atrás de um jogo dos quartos-de-final, das meias-finais e da final.
Este arranque do processo de venda está a deixar os adeptos preocupados, ao ponto de tentarem pressionar as federações para que façam lobbying junto da FIFA no sentido de conter os preços. Até agora, o organismo que rege o futebol adianta apenas que recebeu pedidos de compra de ingressos oriundos de mais de 200 países, mas associações como a Football Supporters (FSA), que junta adeptos de Inglaterra e do País de Gales, falam num “escândalo”.
“Apoiamos a FSE – Football Supporters Europe [associação que junta adeptos dos 54 países que compõem a UEFA] no apelo a uma interrupção na venda de bilhetes e estamos a pedir à FA [federação inglesa] que trabalhe em conjunto com outras federações para contestar directamente estes preços absurdos”, afirma a FSA, em comunicado, lembrando que não existe futebol profissional sem adeptos.
@FIFAcom‘s #WorldCup ticket prices are a betrayal to the most dedicated fans. At least $6900 to support your team from the first match to the final – nearly 5 times more than in Qatar.
FSE calls for the immediate halt to ticket sales.
?? Statement: https://t.co/AgEdqsfrox pic.twitter.com/2Yq5z5GIDZ
— Football Supporters Europe (@FansEurope) December 11, 2025
Três (e sete) vezes mais caros do que no Qatar
Na verdade, os preços que estão a ser praticados na fase de grupos do Mundial 2026 são até três vezes mais elevados do que os registados no Qatar, em 2022, estando o ingresso mais barato para a final do torneio a ser vendido a 3550 euros – neste caso, sete vezes mais do que há quatro anos.
Neste contexto, a FSE pede que a política de preços (que considera “astronómicos”) seja revista rapidamente, lamentando que o processo seja pouco transparente e que impeça a maioria dos adeptos de aceder aos ingressos mais acessíveis, através de uma lógica de distribuição que não compreende.
“A categoria mais baixa de preços não está acessível aos adeptos mais dedicados através das federações nacionais, porque a FIFA decidiu reservar o limitado número de bilhetes da categoria quatro para a venda geral, sujeita a preços dinâmicos [que sobem ou descem em função da procura]”, apontam, em comunicado.
“Pela primeira vez na história do Campeonato do Mundo, não teremos preços consistentes nos jogos da fase de grupos. Em vez disso, a FIFA introduziu uma política de preços variável em função de critérios vagos como o poder de atracção dos jogos”, acrescentam, lembrando que os adeptos de diferentes países, na mesma fase do torneio, terão de suportar preços diferentes de bilhetes.
De resto, na política de vendas não há preços especiais para crianças ou para grupos, o que agrava as limitações no acesso aos ingressos. Em Inglaterra, a FSA fala mesmo numa “facada nas costas”: “A FIFA decidiu preocupar-se apenas com o dinheiro e com a elite que pode pagar estes bilhetes”.
https://t.co/NOCuj0WzZ0 pic.twitter.com/3JswsdvGVl
— The FSA (@WeAreTheFSA) December 12, 2025
Está agendada uma reunião do Conselho da FIFA para a próxima semana, em Doha, no Qatar, desconhecendo-se ainda se e em que moldes o tema será abordado. Uma coisa é certa: com um torneio alargado a 48 selecções e dividido por três países (EUA, México e Canadá), o custo de acompanhar os jogos in loco será incomportável para uma fatia generosa dos adeptos, agravando-se o cenário para quem viaja de outros continentes.
Na prática, estamos a falar de preços mais altos do que nunca para os bilhetes, de viagens de milhares de quilómetros (para o palco do torneio e, já durante a prova, entre cidades anfitriãs/países anfitriões) e do calendário mais alargado de sempre, o que implica uma permanência mais longa em território americano para quem tenha pretensões de acompanhar a competição de fio a pavio.