“Vox populi, vox dei”. O orçamento foi “a gota de água. A corrupção e o dinheiro que está a ser roubado é o grande problema” no segundo país mais corrupto da UE. O que se segue na Bulgária?

Pela primeira vez, na Europa. A Bulgária acaba de se tornar o primeiro país europeu a assistir à queda de um governo às mãos, essencialmente, da geração Z.

O governo de coligação liderado pelo primeiro-ministro Rosen Zhelyazkov apresentou a demissão esta quinta-feira, após semanas de protestos e manifestações contra a corrupção endémica e a perceção de que as elites políticas vivem desligadas das dificuldades da população.

O anúncio foi feito no Parlamento, num discurso em que Zhelyazkov evocou, cita o Wall Street Journal, a máxima latina “Vox populi, vox dei” (“a voz do povo é a voz de Deus”).

“Temos de atender às suas exigências. E a exigência deles é a demissão do governo”, disse o agora antigo primeiro-ministro, que tinha chegado ao poder em janeiro, já num contexto de enorme instabilidade — foram sete eleições legislativas em quatro anos.

O plano orçamental para 2026, no qual o Governo planeava aumentar a despesa pública, esgotou a paciência dos manifestantes, que acusam o executivo de usar o orçamento como instrumento para reforçar o controlo sobre instituições do Estado.  Uma vaga de protestos que começou por reclamar contra o orçamento rapidamente se transformou num protesto contra a impunidade, a falta de condenações de alto nível por corrupção e o que muitos descrevem como “captura do Estado” por interesses instalados.

É o que explica um dos manifestantes, com um nariz de porco como máscara, à France24. “O protesto não é de todo sobre o orçamento. O orçamento foi a gota de água. A corrupção e o dinheiro que está a ser roubado é o grande problema para nós”, resume.

Na quarta-feira à noite, dezenas de milhares saíram à rua em Sófia e noutras cidades búlgaras. A mobilização deveu-se em grande parte pela divulgação no TikTok e outras redes sociais, onde circulam vídeos, memes e apelos à participação. Com “Gen Z is coming” e “Gen Z vs. Corruption” escrito nos cartazes, os manifestantes foram para a porta do Parlamento, onde um ecrã gigante exibiu em loop conteúdos satíricos dirigidos a políticos e partidos.

A participação de jovens em massa está a ser um dos aspetos mais destacados pela vaga de protestos que deitou abaixo o governo. Provavelmente “encavalitados” pelas mobilizações juvenis que têm deitado abaixo regimes este ano e derrubado executivos em várias regiões do mundo.Bangladesh, Sri Lanka… aconteceu em setembro no Nepal, de forma inédita, onde a primeira-ministra interina foi eleita na rede social Discord depois de semanas de fortes protestos que abateram a “tóxica política tradicional”; em outubro houve reação popular sem precedentes em Marrocos, também protagonizada pela Geração Z com a ajuda das redes sociais; também no Madagáscar , no mesmo mês, o presidente denunciou “tentativa ilegal e forçada de tomada do poder”, quando um movimento da Geração Z saiu à rua contra os cortes crónicos de água e de energia.

A geração Z búlgara cresceu depois do fim do regime comunista, em 1989. Hoje exige o fim da corrupção, da falta de transparência, da degradação dos serviços públicos e da escassez de empregos bem remunerados que alimentam a emigração.

E nas redes sociais, as publicações tornam-se cada vez mais politizadas — mas de uma forma “fixe”. Aqueles que procuraram trazer o povo para as ruas (um grupo que envolveu atores e influencers) juntaram o útil ao agradável para promover os protestos: colocaram as trends das redes sociais no contexto da manifestação, com vídeos de “get ready with me” (“arranja-te comigo”) para ir à manifestação, por exemplo.

Euro chega em janeiro. O que se segue?

Com cerca de 6,5 milhões de habitantes e membro da União Europeia desde 2007, a Bulgária tem sido frequentemente descrita como um dos países mais afetados pela corrupção no bloco. A associação Transparência Internacional classificou a Bulgária como o segundo país mais corrupto da UE, apenas atrás da Hungria.

A crise política não podia chegar em pior altura para a Bulgária, que está a poucas semanas de aderir à Zona Euro (a passagem está prevista para 1 de Janeiro). A queda do governo não deverá impedir a mudança de moeda, mas acrescenta incerteza a um processo já complicado e aumenta a probabilidade de eleições antecipadas nos próximos meses.

A demissão do governo deverá desencadear negociações para a formação de um novo executivo ou, mais provavelmente, uma ida às urnas, uma vez que o cenário de nova coligação está a ser dado como improvável. Entre os nomes apontados como possível beneficiário da queda do executivo está o presidente Rumen Radev, o político mais popular do país, que deverá avançar com a criação de um partido próprio para concorrer nas próximas legislativas. Antigo piloto da força aérea, Radev tem-se destacado por posições críticas em relação ao apoio ocidental à Ucrânia na guerra com a Rússia.


Tomás Guimarães, ZAP //


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