S. Dagnello / NRAO / AUI / NSF

Ilustração de um objeto interestelar, como o ‘Oumuamua ou 3I/ATLAS, a passar pelo sistema solar
A missão Comet Interceptor, da Agência Espacial Europeia, tem como objetivo viajar até um dos próximos objetos interestelares que atravessem o Sistema Solar. Um estudo recente analisa as dificuldades desta missão.
Nos últimos meses, tem havido muita especulação sobre a natureza do objeto interestelar 3I/ATLAS, em grande parte devido à fraca qualidade dos dados que conseguimos obter ao observá-lo a partir da Terra ou de Marte. Em todo o caso, está muito mais longe do que seria ideal para uma análise detalhada.
No entanto, isso poderá mudar em breve. A Agência Espacial Europeia, ESA, está a planear uma missão, a Comet Interceptor (CI), para se aproximar do próximo objeto interestelar ou de um cometa que esteja a caminho do interior do Sistema Solar.
Tendo em conta as limitações da missão, qualquer alvo potencial teria de cumprir um conjunto de condições.
Num novo estudo, recentemente pré-publicado no arXiv, Colin Snodgrass, astrónomo da Universidade de Edimburgo, e os seus colegas, analisam quais são essas condições, e avaliam a probabilidade de encontrarmos um bom candidato num prazo razoável após o lançamento da missão.
O Comet Interceptor é uma missão de classe F da ESA, o que significa que foi concebida para ser desenvolvida e lançada rapidamente, explica o El Confidencial.
Após o lançamento, a sonda da ESA permanecerá numa órbita de espera no ponto de Lagrange L2 do sistema Terra–Sol, até surgir um alvo adequado: um Dynamically New Comet (DNC), um tipo de cometa que, tal como o 3I/ATLAS, estaria a entrar no interior do Sistema Solar pela primeira vez.
ESA

Representação gráfica da missão Comet Interceptor da ESA
Se a missão for bem-sucedida, poderá observar um objeto interestelar enquanto este atravessa o nosso Sistema Solar na sua trajetória de passagem, embora a probabilidade de isso acontecer a uma distância razoável, no momento exato em que o CI estiver em espera, seja espantosamente baixa.
No entanto, os DNC são mais comuns. O artigo identifica 132 destes cometas entre 1898 e 2023, embora cada um tenha as suas próprias particularidades. Muitos são extremamente ténues e só são descobertos poucos meses ou anos antes de chegarem ao interior do Sistema Solar.
É aqui que entra outra missão: espera-se que a missão Legacy Survey of Space and Time (LSST), do Observatório Vera C. Rubin, descubra muitos mais DNC do que alguma vez foram observados e, com sorte, dê tempo suficiente à equipa do CI para analisar um potencial alvo e determinar se é adequado.
Mas, mesmo que o LSST encontre um candidato razoável, não há garantia de que o cometa aumente de brilho até um nível verdadeiramente interessante à medida que se aproxima do Sol.
Também não há garantia de que não se desintegre antes de o CI conseguir aproximar-se o suficiente para o inspecionar. Como a missão só pode escolher um único alvo, estas incógnitas introduzem um grau de aleatoriedade suficientemente grande para obrigar a ponderar duas vezes.
Por isso, é preferível explorar, com recurso à teoria dos jogos, os cenários possíveis, para ter uma ideia mais clara do que esperar ao selecionar um alvo real.
Essa análise começou com algumas restrições básicas da missão. Em primeiro lugar, há um delta-v limitado — a energia necessária para alcançar o cometa — imposto pelas limitações da nave que tem de transportar o combustível até L2. Os autores estimam esse valor em 1,5 km/s, o que não é particularmente elevado para os padrões de missões interplanetárias.
O CI teria de intercetar o cometa algures entre 0,9 e 1,2 UA, aproximadamente na vizinhança da trajetória orbital da Terra — e, o que é crucial, tem de cruzar o plano da eclíptica onde a Terra efetivamente se encontra, para ficar ao alcance.
Além disso, a nave também tem de manter o Sol a um ângulo entre 45° e 135°, para garantir o funcionamento dos painéis solares. E, talvez mais importante, o sobrevoo do cometa não pode ocorrer a mais de 70 km/s, porque os danos provocados pelo pó poderiam destruir as pequenas sondas que o CI libertaria para estudar a coma do cometa.
A isto soma-se a existência de um ponto ótimo de desgasificação: o cometa-alvo deve produzir gás suficiente para ser interessante, mas não tanto que destrua a sonda. Segundo os autores do estudo, o cometa Halley parece ser um limite superior razoável para a desgasificação exigida.
A probabilidade de encontrar um candidato ideal na janela de 2 a 3 anos da missão CI não é muito elevada. Por isso, é provável que os operadores tenham de se contentar com um alvo “suficientemente bom” e recolher os dados que conseguirem.
Trata-se de uma limitação inerente a este tipo de missões, em que o alvo final só é conhecido depois de a missão estar desenhada e lançada. Ainda assim, com alguma sorte, o CI poderá encontrar um bom candidato, muito provavelmente com a ajuda do LSST, quando este for lançado em 2029.
Talvez, com muitíssima sorte, encontre até um visitante interestelar com quem se possa cruzar; se isso acontecer, poderemos vir mesmo a assistir ao famoso “rendez-vous com Rama” que Arthur C. Clarke profetizou em 1937.