Os pesquisadores basearam suas conclusões em um sítio arqueológico antigo intacto encontrado em Pompeia.Divulgação Anadolu Agency via Getty Images

Os pesquisadores basearam suas conclusões em um sítio arqueológico antigo intacto encontrado em Pompeia.

O concreto resistente usado pelos antigos romanos há mais de 2.000 anos é o responsável pelas estruturas que ainda estão de pé, em grande parte da Europa, nos dias atuais. Anfiteatros, aquedutos, muralhas, pontes, fortes e tantos outros vestígios do Império Romano estão por toda parte. Anos de pesquisa levaram uma equipe em 2023 a propor uma explicação sobre os ingredientes e técnicas utilizadas pelos romanos para produção desse resistente concreto. Eles acreditavam numa mistura quente capaz de produzir concreto autocurativo, capaz de reparar rachaduras por conta própria, sem intervenção do homem.

Agora, os pesquisadores afirmar ter confirmado a teoria anterior. Eles compartilharam os resultados mais recentes em um artigo publicado na última terça-feira (09), na revista Nature Communications.

Para o estudo, os cientistas coletaram amostras de um antigo canteiro de obras intacto descoberto em Pompeia, a antiga cidade romana preservada pela erupção do Monte Vesúvio, em 79 d.C., no sul da Itália, perto de Nápoles. Uma comparação dos materiais de paredes concluídas, paredes em construção e pilhas próximas de material bruto seco no local apoia, sem dúvida, a teoria da mistura a quente, escrevem os pesquisadores no artigo.

“Ao contrário de estruturas acabadas que passaram por séculos de reparos ou desgaste, este sítio arqueológico captura os processos de construção tal como aconteceram”, disse Admir Masic, engenheiro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, e coautor do estudo, à Reuters , em entrevista a Will Dunham.

“Para o estudo de tecnologias antigas, simplesmente não há paralelo. Sua preservação excepcional oferece um verdadeiro ‘instantâneo’ da prática de construção romana em ação.”

O método de mistura quente dos romanos consistia em juntar cinzas vulcânicas e outros ingredientes secos com “cal viva”, uma forma de calcário seco e altamente reativo. A adição de água desencadeava uma reação em cadeia que produzia calor, por isso o nome. A mistura resultante era repleta de pedaços de cálcio que conferiam ao concreto suas propriedades de autorreparação: à medida que a água penetrava no concreto romano rachado ou danificado, encontrava e dissolvia o cálcio. Quando esses depósitos recristalizavam posteriormente ou reagiam com outros materiais, ajudavam a preencher as rachaduras.

Durante as análises do concreto romano antigo, os pesquisadores questionaram se os depósitos de cálcio, conhecidos como clastos de cal, seriam simplesmente resultado de uma mistura malfeita. Mas essa explicação nunca convenceu Masic, que disse a Katie Hunt, da CNN, em 2023, que era “realmente difícil acreditar que os engenheiros romanos antigos não fariam um bom trabalho, porque eles realmente se esforçavam na escolha e no processamento dos materiais”. Agora, sob a perspectiva da mistura quente, a presença dos depósitos de cálcio faz sentido.

Os antigos romanos produziam concreto autorreparador misturando ingredientes de uma maneira específica.Divulgação Nature Communications, 2025

Os antigos romanos produziam concreto autorreparador misturando ingredientes de uma maneira específica.

As novas descobertas contradizem o processo de fabricação de concreto descrito em textos históricos — especificamente, um influente tratado chamado “De Architectura”, escrito pelo famoso arquiteto e engenheiro romano Vitrúvio no século I a.C.

Para os pesquisadores foi difícil sugerir que a descrição de Vitrúvio podia ser imprecisa, devido ao respeito que eles tem por sua trajetória. Entretanto, os resultados da pesquisa em Pompeia sugerem que os escritos de Vitrúvio estavam errados ou, talvez, “mal interpretados”, de acordo com o comunicado.

Também é possível que Vitrúvio estivesse simplesmente descrevendo um método anterior e que a fabricação de concreto tenha evoluído com o passar do tempo.

“Uma boa analogia seriam os primeiros telefones”, disse Masic à Reuters. “Nas décadas de 1920 e 1930: discagem rotativa, linhas de cobre de longa distância. Na década de 2020: smartphones usando sinais digitais comutados por pacotes e redes sem fio.”

Olhando para o futuro, as descobertas podem ajudar a aprimorar as técnicas modernas de construção, orientando o desenvolvimento de concreto durável e de baixo carbono da próxima geração. Além disso, podem ter implicações para as práticas modernas de restauração, especialmente aquelas usadas em edifícios romanos antigos, garantindo que os reparos sejam “historicamente autênticos e estruturalmente sólidos”, escrevem os pesquisadores no artigo.

“Este material consegue se regenerar ao longo de milhares de anos, é reativo e altamente dinâmico”, afirma Masic no comunicado. “Sobreviveu a terremotos e vulcões. Resistiu debaixo d’água e à degradação causada pelos elementos. Não queremos copiar integralmente o concreto romano hoje. Queremos apenas traduzir alguns ensinamentos desse conhecimento para as nossas práticas modernas de construção.”

Entretanto, o novo artigo está recebendo elogios de especialistas externos, incluindo Tom Brughmans, arqueólogo da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, que o descreve como “simplesmente uma bela observação, o sonho de qualquer arqueólogo”.

“Poucos temas na arqueologia romana merecem mais nossa atenção do que o desenvolvimento do concreto”, disse Brughmans, que não participou da pesquisa, a Humberto Basilio, da Scientific American .