É difícil ficar indiferente a Maurizio Cattelan. Não pela polémica que rodeou algumas das suas obras mais emblemáticas, mas porque as razões que geraram essas discussões estão incrustadas em fundamentos perenes da cultura ocidental (da fé religiosa à crença no poder da arte), cujas imagens identifica de modo cirúrgico. A oposição entre a inocência e o mal é omnipresente. Essa insinuação de arquétipos ancestrais torna-se efetiva na superfície de acontecimentos contemporâneos. Nesta retrospetiva, as 26 obras são muito bem acomodadas às particularidades dos espaços da casa Art Deco portuense. O tema da crucificação, com as analogias correspondentes (pecado, sofrimento, etc.), sobrevoa várias. O néon com o seu nome grafado com três tês, em “Charlie Don’t Surf” (1997), o puto com as mãos espetadas com lápis, a mulher presa com talas a uma cama ou, de modo indireto, na figura de João Paulo II atingido por um meteorito. Em algumas há a inocência das crianças (o Pinóquio de “Daddy, Daddy”), noutras a irrevogabilidade dos cadáveres ou a estranheza dos animais (o cavalo, o elefante, o rato).

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