“Enquanto o quarto existir, ela existe de certa forma”. Este é o pensamento que resume toda a curta-metragem documental “Todos os Quartos Vazios”, que estreou este mês na Netflix, construindo um retrato silencioso que fica num país onde os tiroteios se tornaram tão frequentes que muitos já quase não lhe reagem. Durante 35 minutos, seguimos o jornalista norte-americano da “CBS News” Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp, num projeto contra esta anestesia coletiva que se prolongou durante sete anos: documentar os quartos vazios de crianças que, um dia, saíram de casa para ir para a escola e nunca mais regressaram.

Nestes quartos, o tempo parou: há roupa suja por lavar, pasta dos dentes aberta junto do lavatório, peluches espalhados em cima da cama, pulseiras na secretária e roupa cuidadosamente separada para um dia que nunca haveria de chegar. Aquilo que um dia foi refúgio para as crianças e adolescentes dá lugar hoje ao espaço de consolo dos pais, que o mantêm intocado numa tentativa de resistir ao esquecimento. Lugar de choro, conversa ou de um simples inspirar do cheiro das crianças que permanece nos lençóis.

O documentário não se prende no horror dos tiroteios, mas nas marcas que deixam: cartas escritas para a “Gracie do futuro”, projetos escolares, elásticos do cabelo na maçaneta da porta. São verdades que nenhuma estatística consegue contabilizar.

“Todos os Quartos Vazios” é, assim, um inventário de ausência e de infâncias interrompidas. É um mapa onde a rotina foi rasgada, mas onde o amor ainda vive, teimoso, a ocupar o lugar do corpo. A violência armada não termina no disparo, prolonga-se nos objetos que ficam, no “bom dia” e “boa noite” que os pais continuam a dizer a um espaço adormecido, nas luzes que foram deixadas acesas e nunca mais foram apagadas.