Pela primeira vez, em 88 anos, a Volkswagen (VW) vai fechar uma fábrica no seu próprio país, na Alemanha. Não só estão em causa ainda 250 postos de trabalho da unidade de Dresden, na parte oriental do país, como também o próprio orgulho industrial de uma economia que, todos os dias, vê símbolos do seu poder de outrora a eclipsarem-se na sombra de novos concorrentes, modelos de negócio e tecnologia. Segundo o Financial Times, a produção é suspensa na próxima terça-feira. Segundo jornais alemães, ainda haverá trabalho até ao fim de Dezembro.

Trata-se da fábrica mais pequena que a VW tem na Alemanha. Mas o simbolismo desta decisão, confirmada no início de Dezembro, transcende as paredes da dita Fábrica Transparente ou Fábrica de Vidro, que passará a integrar um “campus de inovação”, a construir em parte dos terrenos ocupados actualmente por aquela unidade. A VW e a Universidade Técnica de Dresden já assinaram um acordo que envolve também o governo regional da Saxónia.

Segundo o jornal alemão Handelsblatt, especializado em assuntos económicos, o presidente da VW, Thomas Schäfer, “deixou claro dois pontos” quando se deslocou a Dresden, acompanhado da representante dos trabalhadores da VW, Daniela Cavallo: “após os cortes de empregos anunciados, 155 funcionários permanecerão na Fábrica Transparente (anteriormente, esse número era de 135); além disso, a VW dá um bónus de 30 mil euros aos funcionários de Dresden caso sejam transferidos para a fábrica principal, em Wolfsburgo”.

Entre 2001 e 2016, a fábrica de Dresden produziu o modelo Phaeton. Entre 2017 e 2020, passou a fazer o e-Golf, até que, em 2021, assumiu a produção do ID.3, um eléctrico. Agora, será transformada num centro de investigação em inteligência artificial, microprocessadores, robótica e inovação, num compromisso de 50 milhões de euros de investimento, ao longo dos próximos sete anos, partilhado pela VW e pelo governo da Saxónia.

O responsável regional da VW diz que o campus de inovação, a que a fábrica vai dar lugar, “pode vir a ser a Stanford do Oriente”. Stanford é uma universidade de elite nos EUA, que “ajudou a produzir” 94 bilionários e dezenas de cientistas premiados com um Nobel. Para já, existe uma carta de intenções, esperando-se ainda pelo contrato. O objectivo é que ali se faça “investigação de ponta” e “transferência de tecnologia” naquelas áreas.

A produção do ID.3 é suspensa em Janeiro. Cerca de 60 trabalhadores da unidade de Dresden ainda desconhecem o seu futuro. Caso não encontrem alternativas, podem ficar em casa, a receber o salário. Estes e os demais trabalhadores da VW têm emprego garantido até 2030.

A razão para este encerramento é o drástico programa de cortes que a administração do grupo alemão decidiu pôr em marcha, face à quebra nos lucros e a incerteza quanto à capacidade comercial dos modelos eléctricos daquela marca. As vendas estão em queda, sobretudo em mercados cruciais como a China, a guerra aduaneira com os EUA vai “custar” mais de 5000 milhões de euros e a procura por carros eléctricos não sustenta os pesados investimentos que todos os fabricantes de carros têm de fazer rumo à transição climática e digital na mobilidade.

O plano global da VW, que tem uma fábrica em Portugal, no distrito de Setúbal (a Autoeuropa), prevê a eliminação de 35 mil postos de trabalho. Na Alemanha, há unidades com trabalhadores em layoff, devido à falta de encomendas, e outras unidades que estão em vias de encerramento. Dresden teve o destino de ser a primeira.

A unidade da Volkswagen Autoeuropa está num certo contraciclo, com investimentos de centenas de milhões, que incluem um novo edifício, para a nova secção de pintura e tendo em vista a transição do actual modelo T-Roc, a combustão interna, para a versão híbrida (em 2026) e, posteriormente, a produção do ID.1, um modelo 100% eléctrico barato em que a VW aposta para conquistar o mercado de massas para carros eléctricos.