João Santa nem sabe bem como dizer e inspira-se num ferroviário “já muito velho” que dizia dela ser a sua rainha. “Provavelmente também é a minha rainha…” O maquinista à beira de se despedir da CP – atingiu os 65 anos e a reforma é compulsiva na CP – brilhava tanto quanto a 0186 que acabava de coroar.

João Santa, à esquerda, à janela da 0186 (Foto: Carlos Carneiro)

Ela, uma dama a vapor entregue a Portugal pela Alemanha do pós-guerra em 1925, veste-se por estes dias de Natal, orgulhosa como o seu estridente apito, para puxar as carruagens, históricas como ela, entre a estaçãom de São Bento, no Porto, e Ermesinde. Com luzes brancas e o metal negro a brilhar.

Mas, este ano, carrega um novo e belo adorno: a placa comemorativa do seu aniversário, uns bonitos cem anos, descerada este sábado pelo presidente da CP-Comboios de Portugal, Pedro Moreira.

A placa descerrada este sábado pelo presidente da CP, Pedro Moreira (Foto: Carlos Carneiro)

João Santa não escondia um misto de sentimentos, alheio, talvez, à felicidade natalícia dos passageiros. Misturava a tristeza de largar uma vida que começou no berço – é filho de ferroviários, a mãe guarda de passagem de nível, o pai a trablhar nas estações -, em Vila Pouca de Aguiar, se estendeu pela Régua onde ainda no verão conduziu a rainha Douro acima, e se fixou em Rio Tinto, para uma existência de viagens por Portugal. E a alegria de poder finalmente descansar, passando ao filho maquinista a paixão por este mundo.

As linhas, correu-as todas, ou quase, a bordo de locomotivas elétricas que “é só manusear”. Daí o sorriso para a 0186. “No vapor, a gente tem que trabalhar, temos que fazer o vapor – agora é com gasóleo, não é tão pesado, mas cheguei a trabalhar com ela a carvão. Chega-se ao fim estoirado. Mas dá outro gozo estar dentro daquela locomotiva. Nós não temos nada, só temos calor e água e com isso fazemos o que os outros comboios fazem.”

E nem o afeta o calor extremo que ali se faz sentir, mormente quando se abre a caldeira. Tudo aquilo é um trabalho de equipa, quatro homens de lenço vermelho ao pescoço e um diálogo tranquilo de quem trata a máquina por tu. “Quem corre por gosto não cansa”, ri João Santa.

A locomotiva a vapor 0186 foi construída em 1925 pela alemã Henschel & Sohn (foto: Carlos Carneiro)

A aniversariante, falemos dela, é um bicho de 98 toneladas quando vai carregada com umas 20 toneladas do seu combustível – 4000 litros de gasóleo e 16 mil de água -, entregue numa remessa de dez locomotivas da Henschel & Sohn entre 1924 e 1925. Atinge os 50 km/h.

“É um símbolo da ferrovia e da nossa memória coletiva”, recordaria o presidente da CP. Graças a ela se ajudou ao desenvolvimento do país e à coesão territorial, abrindo o interior. “E está aqui hoje graças a uma equipa de excelência” que trabalhou na sua recuperação e ainda trabalha na sua pesada manutenção e na sua operação.

No vapor, só há calor e água (foto: Carlos Carneiro)

A locomotiva divide a atividade entre o programa do comboio histórico do Douro, que circula alguns dias por semana entre a Régua e o Pinhão, e o projeto turístico de Natal que ontem arrancou para uma nova temporada, em parceria com a autarquia de Valongo. A ideia, explicou Pedro Moreira, é juntar “tradição com momentos de magia” e apoiar a economia local e o “turismo de proximidade”. Em Ermesinde, à espera dos visitantes, a Praça do Natal exibe a árvore mais alta do país.

As viagens de Natal acontecem até ao dia 4 de Janeiro

As viagens acontecem aos sábado e domingos até ao dia 4 de janeiro, custam 13,50 euros (preço adulto) e podem ser reservadas online. A CP promove também nesta época natalícia uma edição especial do Comboio Histórico do Vouga.