75 minutos depois de entrar em campo no Sunderland-Newcastle, Nick Woltemade recebeu uma ovação em pé enquanto era substituído. E não foi ovação apenas dos seus adeptos, mas de todo o estádio. Estamos a falar de um jogador do Newcastle a ser aplaudido de pé pelos adeptos do Sunderland, cujo ódio pelo adversário é visceral. O que fez este jogador alemão para merecer tamanha honra? Marcou um autogolo que deu ao Sunderland o triunfo por 1-0 no derby frente ao grande rival.

Quando fez um cabeceamento tremendo, aos 46 minutos, mesmo que na baliza errada, Woltemade ainda não sabia que estava a garantir para si próprio a grande ovação da tarde no Stadium of Light – mesmo que um aplauso que a poesia antiga (ou os Da Weasel) definiriam como amor, escárnio e maldizer.

O nível de rivalidade de que estamos a falar é ao ponto de o placard do estádio dizer “visitantes”, em vez do símbolo do Newcastle ou o nome do clube. Ou ao ponto de o Sunderland ter tirado uma foto de equipa à frente dos seus adeptos, como resposta a uma foto igual tirada pelo Newcastle num triunfo no derby em 2023.

Woltemade entrou nesta rivalidade e fê-lo de forma indelével. Não sabia, mas fê-lo.

Fã de Diego

No Verão, o Newcastle pagou 85 milhões de euros ao Estugarda por um jogador de 23 anos cuja única temporada de bom nível foi a última – marcou 17 golos. Para muitos, o clube inglês entrou na completa loucura. Para outros, apenas entrou em desespero com a novela de Isak e temeu não ter avançado para 2025/26. Para outros ainda, apostou num talento raro. E há argumentos possíveis para todas estas teses.

85 milhões de euros por alguém com uma única temporada de sucesso soa a loucura total – tese totalmente defensável. Mas quem defenda Woltemade tem boas formas de o fazer.

Estamos a falar de um jogador que vive no alto de quase dois metros (1,98) e que tem uma fisionomia que lhe valeu a alcunha de Crouchy – de Peter Crouch, o célebre gigante inglês. Woltemade é alto, magro e por vezes algo desengonçado, mas está longe de jogar como Crouch.

Este alemão faz do seu jogo uma busca constante pela bola, com capacidade técnica para jogar entre linhas, para dar apoios frontais e para assistir colegas.

Woltemade já disse que cresceu inspirado por Diego, ex-médio-ofensivo do FC Porto que jogou no Werder Bremen – onde Woltemade crescia na formação. E é também fã de Neymar. Ser fã de Diego e Neymar não é, em teoria, o que se espera de um indivíduo com quase dois metros.

“Quero ser um entertainer no campo”, disse há dias, citado pelo Guardian. Ora aí está outra ideia incomum para alguém com quase dois metros que não se chame Zlatan Ibrahimovic. E há mais: “Penso que o meu trabalho físico pode melhorar. Posso correr mais e ganhar mais duelos”.

Woltemade, tendo o físico que tem, acha que é precisamente no prisma físico que tem de evoluir – e não no técnico, virtude que escasseia em grande parte dos futebolistas com aquela fisionomia. E não é muito comum alguém daquela estatura ser chamado “Woltemessi” pelos colegas.

Não é forte pelo ar

Woltemade passou muito tempo da época passada a jogar como segundo-avançado, algo raro para alguém com aquela altura e que sugere uma mudança em Newcastle. Agora, está a jogar como foco de um 4x3x3 que lhe pede mais apoios frontais na zona central – em Estugarda, tinha um mapa de toques na bola muito mais variado, com participação nos corredores laterais.

A capacidade que tem para jogar faz com que obrigue os centrais a seguirem-no e isso arrasta-os e liberta espaços. Mesmo que não marque, a conjugação de altura e técnica fazem deste alemão um jogador que muda o curso das jogadas.

Woltemade não é, curiosamente, uma força no jogo aéreo – está bem longe do top dos avançados com melhor percentagem de sucesso nos duelos aéreos, ficando-se pelos 35%.

O alemão é, portanto, um jogador totalmente paradoxal. É anormalmente grande, mas com muita mobilidade. Parece desengonçado, mas é um portento técnico. Parece um foco para jogo directo e luta na área, mas nem é especialmente forte no jogo aéreo. E para completar a bizarria: neste domingo até marcou de cabeça – e na baliza errada.