Peritos comportamentais dizem que pode ser uma forma de os jovens lidarem com a violência que enfrentam diariamente, mas os críticos destes conteúdos, como a presidente Claudia Sheinbaum, veem-nos como uma glorificação lucrativa da “narco-cultura”.

Estes jogos permitem escolher várias personagens: assassino, polícia ou militar e incluem perseguições a alta-velocidade, tiroteios brutais, pistolas douradas, capacetes personalizados e carros modificados.

“Atrai-me ver coisas que gostaria de ter na vida real. Por exemplo, quem não gostaria de ter um Lamborghini, um todo-terreno uma casa grande?”, explica, à AFP, Alan Crespo, um agricultor fã destes jogos, residente em San Blas, na costa oeste do México. Crespo tem 24 anos. É mais velho do que a maioria dos jogadores, que têm entre 13 e 18 anos e são oriundos dos estados do norte do México, como Sinaloa, Chihuahua e Baja California, onde predomina a violência dos cartéis.

Plataforma Roblox permite disponibilizar jogos

Os jogos são grátis e facilmente localizáveis em plataformas online gratuitas como a Roblox, que permite aos programadores conceberem e disponibilizarem jogos para os utilizadores. Segundo a AFP, os narco-jogos mais populares chegam a atrair mais de mil pessoas por dia.

A plataforma, que tem mais de 100 milhões de utilizadores diários, apertou os mecanismos de controlo para proteger menores e implementou um sistema de verificação de idade para prevenir o assédio por parte de adultos.

Quanto mais reais e violentos, mais populares

Os conteúdos são gratuitos, mas os jogadores podem comprar armas mais potentes e equipamentos especiais. Quanto mais reais e mais violentos, mais populares são os jogos, garantem os programadores. “Os jogadores não estão interessados em ver gangues com nomes inventados”, afirma Angel Villaverde, um jovem programador de 19 anos.

No jogo “Tamaulipas Belico”, pode-se escolher entre jogar como membro dos “Jalisco New Generation Cartel” ou dos “Northeast Cartel”. Os dois grupos são classificados como “organizações terroristas estrangeiras” pelos Estados Unidos da América e já terão causado inúmeras mortes, incluindo de civis. As personagens usam trajes e veículos decorados com os símbolos reais destes cartéis e o objetivo é matar rivais e conseguir controlar edifícios.

Alejandro Solorzano, um programador de 18 anos, de Tijuana, frisa que os jogadores ficam “fascinados por fazer atividades criminais”. “É quase como uma guerra, é grotesco, mas é ficcional ao mesmo tempo”, explicou à AFP.

Enaltecimento da violência ou catarse?

A influência da narco-cultura mexicana que agora chegou aos videojogos também já se fez sentir na música, nos filmes e até em roupas que glorificam a vida criminosa. A presidente Claudia Sheinbaum opõe-se ao que considera ser “o enaltecimento da violência” e lançou uma campanha contra a sub-cultura, incluindo um imposto de 8% em jogos com conteúdos violentos.

Porém, peritos comportamentais alegam que, através dos jogos, os jovens podem ter a sensação de que controlam uma realidade violenta que os deixa ansiosos.

Ainhoa Vasques, investigadora da Universidade Técnica Federico Santa Maria, do Chile, considera que jogar também pode ser uma maneira de “dar sentido” a uma sociedade violenta e de “transferir a angústia real” para um reino ficcional. Estas experiências podem ser “catárticas”, admitiu a cientista que estuda representações culturais do tráfico de droga.