A revelação de que quase 200 bebés europeus correm o risco de desenvolver cancro por terem sido gerados a partir do esperma de um único dador fez soar os alarmes.
Apesar dos países europeus terem legislações próprias para impedir a utilização do material do mesmo dador em múltiplas gestações — principalmente para evitar que meios-irmãos se relacionem romanticamente sem saberem — não há regras que limitem a utilização do mesmo dador a nível do continente. Foi este lapso que permitiu ao dador dinamarquês ser o “pai” de quase 200 crianças em pelo menos 14 países europeus. Um desses “filhos” foi diagnosticado com uma mutação do gene TP53 que é responsável pela supressão de tumores, o que aumenta a probabilidade de virem a desenvolver cancro.
Diante do caso divulgado esta semana, as autoridades belgas pediram que a Comissão Europeia estabeleça um registo de dador de esperma europeu para monitorizar a movimentação do material além fronteiras. Já a Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia propôs um limite de 50 famílias por dador ao redor da União Europeia. Entretanto, isso ainda significa que o mesmo dador poderia dar origem a centenas de bebés.
O mercado europeu de doações de esperma poderá chegar a valer mais de 2,2 mil milhões de euros em 2023, segundo estimativas de uma consultora citadas pela BBC. “A falta de dadores fez do esperma uma commodity preciosa e os bancos de esperma e clínicas de fertilização estão a maximizar o uso de dadores disponíveis para responder à procura“, diz à BBC Sarah Norcross, diretora do Progress Educational Trust, uma instituição de solidariedade que trabalha com fertilidade e genética.
Seja por problemas de infertilidade, uma produção independente ou para dar filhos a um casal de pessoas do mesmo sexo, há mais de uma década que clínicas em todo o mundo recorrem com frequência a bancos de esperma na Dinamarca. O país é considerado a “capital mundial de doação de esperma”, e ganhou fama por produzir “bebés Viking”. Com esta designação, a genética dos dadores está habitualmente genética associada a características físicas como olhos azuis e cabelos loiros ou ruivos. Não obstante, a informação relativa ao dador dinamarquês portador da mutação genética indica que este tem olhos castanhos.
“A população dinamarquesa é como uma grande família”, diz à BBC Ole Schou, fundador da Cryos International, banco de esperma dinamarquês que se diz o maior do mundo. “Há menos tabu sobre este temas, e somos uma população altruísta, muitos dadores de esperma que também doam sangue”, diz o empresário de 71 anos, que afirma que a atualmente quem mais procura o serviço são “mulheres solteiras, com educação superior na casa dos 30 anos”, que correspondem a 60% dos pedidos.
A Dinamarca também é um dos poucos países a exportar esperma. A Cryos chega a mais de 70 países, o que Schou atribui à “genética popular” dos dinamarqueses que costumam ter “genes de olhos azuis e cabelos loiros”, que, obrigatoriamente, devem estar presentes no pai e na mãe para aparecerem num bebé. Entretanto, a falta de diversidade também já foi apontada por Schou como um problema — os dadores ruivos chegaram a ser recusados em 2011, escreveu o The Guardian na altura, por já haver demasiado stock para a procura.
Na Cryos International um frasco com 0.5 ml de esperma custa entre 100 e mil euros. Habitualmente o beneficiário da doação terá acesso a informações como a raça, a etnia, a cor dos olhos, a cor do cabelo, a altura, o peso, o grupo sanguíneo e a educação e profissão do doador. Entretanto, se pagar mais pode ter acesso à identidade ou mais informações pessoais, o que inclui uma fotografia em criança, gravação de voz e detalhes sobre a sua personalidade, hobbies e até o perfil de inteligência emocional.
“Podemos saber que se chama Sven, que tem cabelos loiros, 1,93 metro e é um atleta, toca violino e fala sete idiomas — alguém muito mais atraente do que um dador que se pareça comigo”, diz o professor de andrologia especialista em fertilidade Allan Pacey, que já dirigiu um banco de esperma em Sheffield, na Inglaterra. “Ultimamente as pessoas estão a deslizar para a esquerda ou para a direita quando se trata de fazer match com um dador”.
Em Portugal os bancos de gâmetas têm orientações para não usar o mesmo dador em mais do que oito famílias, o que permite que os bebés da mesma mãe gerados através de doação possam ser geneticamente irmãos. Além disso, a legislação portuguesa obriga à confidencialidade — os beneficiários da doação não têm acesso a qualquer informação identificativa do dador, que também fica completamente isento de obrigações parentais sobre as crianças nascidas da sua doação.
A doação é de caráter benévolo e não remunerado, mas os dadores têm direito a uma compensação financeira correspondente a 10% do valor do Indexante de Apoios Sociais do ano corrente. A valores de 2025 equivale a uma compensação de 52,25 euros por cada colheita, sendo que os bancos de sémen costumam pagar parte do valor após cada colheita e o restante quando terminar o período de quarentena, o que geralmente são seis meses, quando é feita uma nova análise para verificar marcadores virais de infeção.
Entretanto, um homem pode ser saudável e pai de vários filhos e, ainda assim, não ser considerado elegível. Além de ter entre 18 e 45 anos e não ter histórico de doenças sexualmente transmissíveis, genéticas ou outras, deve passar por análises sanguíneas e espermograma que vão confirmar a qualidade do material. Estima-se que menos de cinco pessoas sejam elegíveis num universo de 100 voluntários.