283

Toalhinha:  – O que aconteceu com Jesus?
Stan: – Agora ele tá todo cristão.

Com A Cagada Final, Trey Parker encerra a história da vinda do Anticristo – ou o “bebê anal” de Satanás com Donald Trump -, iniciada no primeiro episódio da temporada anterior, com um capítulo que consegue ser até de mal gosto, mas que, justamente por isso, se encaixa perfeitamente nas críticas virulentas e diretas sobre o surreal governo dos Estados Unidos. Reconhecendo textualmente que a própria linha narrativa que criou para lidar com uma realidade que passou muito a frente da ficção é completamente enlouquecida e sem nenhum tipo de lógica, exatamente como as decisões tomadas pelo presidente consistentemente achincalhado pela produção há meses, Parker faz um deprimido Stan inadvertidamente conjurar as Criaturas da Floresta que apareceram pela primeira vez lá na longínqua oitava temporada da série, cortesia de Eric Cartman, e Trump e Vance se disfarçarem de Papai Noel e seu duende assistente para eles se infiltrarem na cidadezinha para libertar Peter Thiel, de forma que ele possa finalmente matar o bebê no ventre de Satanás.

Stan é, aqui, o personagem com quem o espectador se filia na incredulidade sobre o que está acontecendo ao seu redor; é o personagem que faz as perguntas para permitir que o roteiro dê respostas didáticas e lógicas, mas, hilariamente, falhando em todos os momentos, pois nada realmente consegue fazer sentido para alguém que está “de fora” do imbróglio político e religioso que vem sendo costurado como uma sensacional colcha de retalhos por Trey Parker nos nove episódios anteriores. Se nada faz sentido na vida real, porque é necessário que faça sentido na ficção? Tudo se torna “defesa Chewbacca”, outra criação brilhante de priscas eras da série que, mesmo não sendo explicitamente usada aqui, parece ser o espírito do que é colocado nas telinhas, especialmente quando o bebê “é suicidado” na barriga de Satanás exatamente como um clichê de filmes policiais em uma escolha para fechar a história que incomoda em diversos níveis e que por isso mesmo é brilhante.

O retorno da linha narrativa sobre o Jesus Cristo desgostoso com a deturpação de seus valores a ponto de ele se tornar um “caipirão” extremista de direita que arrancou as mangas de sua roupa, deixou a barca crescer no estilo padrão de personagens assim, passou a usar a guitarra como instrumento de manifestação de suas ideias e, claro, começou a abusar de uma mulher botocada e cheia de silicone que acha que tem que apanhar para ser posta em seu lugar. Se algum cristão não conseguia antes enxergar a hipocrisia da manipulação da religião católica por extremistas, tenho para mim que a corrupção de ninguém menos do que o próprio Cristo, que passa a lutar ao lado de Trump e companhia para fazer aquilo que Trump e companhia defendem publicamente que não pode ser feito de jeito algum em razão dos valores cristãos, deixou isso bem claro. Ou pelo menos assim eu espero, assim como eu espero que todo mundo consiga enxergar que esse mesmo raciocínio pode ser aplicado a qualquer religião em qualquer país de extremos.

Apesar de toda a bem-vinda crueza de A Cagada Final, que consegue efetivamente levar a narrativa macro a um final que faz sentido do jeito South Park de ser dentro de cenário absurdista da realidade retratada, tenho para mim que Parker poderia ter cuidado para trazer Cartman, Kyle e Kenny para esse encerramento. Afinal, temos que lembrar que toda a história de Trump, apesar de tangenciar South Park, foi quase independente da série, em uma das raras situações em que é perfeitamente possível separar uma coisa da outra em todos esses anos da série. Um final com os quatro amigos interagindo com a história macro teria sido uma maneira de estabelecer coesão narrativa com o espírito de South Park, ainda que, mesmo sem eles, a presença de um solitário Stan acabe sendo uma alternativa viável. Minha única dúvida é se Trey Parker pretende continuar a extrair ouro desse mesmo veio, considerando que ainda há três anos da presidência de Trump pela frente, e, se pretender, ele não encontrará obstáculos dentro do próprio conglomerado de entretenimento em que trabalha. Mas isso é coisa para descobrirmos em 2026 somente…

South Park – 28X05: A Cagada Final (South Park – 28X05: The Big Crap Out – EUA, 10 de dezembro de 2025)
Direção: Trey Parker
Roteiro: Trey Parker
Elenco (vozes originais): Trey Parker, Matt Stone, April Stewart
Duração: 25 min.