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A crise demográfica em Itália já está a afetar a economia e a obrigar e o Governo anti-imigração de Giorgia Meloni a ter de atrair imigrantes. Oiça aqui o último episódio do podcast O Mundo A Seus Pés com Pedro Góis, sociólogo da Universidade de Coimbra e investigador na área das migrações internacionais
Em Itália, a crise no mercado de trabalho está a obrigar o Governo de direita radical de Giorgia Meloni — que é anti-imigração — a precisar de atrair imigrantes. Foi o próprio Observatório de Contas Públicas italiano que alertou para este problema no início deste mês de dezembro, uma vez que o país está de braços dados com uma crise demográfica que já está a afetar a economia.
A população está muito envelhecida, a taxa de natalidade está a cair a pique e os jovens italianos estão a emigrar. O impacto destes três fenómenos já está a fazer-se sentir no mercado de trabalho e no sistema de pensões, que está “em risco de colapso”. “A situação só pode ser combatida com a chegada de imigrantes em números bem mais significativos do que aqueles que se registam atualmente”, de acordo com os economistas italianos que fizeram o estudo do Observatório.
Ora uma das grandes bandeiras do partido de Meloni (Irmãos de Itália) — e também dos que fazem parte da coligação governamental — é precisamente as ideias e as políticas anti-imigração. No entanto, o próprio Governo já reconheceu o problema da falta de mão de obra imigrante para sustentar o mercado de trabalho, entrando num paradoxo entre a sua ideologia política e a necessidade real de ter pessoas a trabalhar e a contribuir para a segurança social.
“A única forma de conciliar esse discurso” da extrema-direita com a realidade “é voltar ao pragmatismo e compreender as migrações atuais, que são sobretudo migrações laborais”, afirma Pedro Góis, sociólogo da Universidade de Coimbra e investigador na área das migrações internacionais. “Quando os migrantes chegam respondem a necessidades do mercado de trabalho. E quando o mercado de trabalho não necessita de migrantes, imediatamente há uma resposta suspendendo esses fluxos migratórios. Itália devia ter percebido isto há algum tempo. Mas a realidade mostrou que a política não se faz em gabinetes, faz-se reagindo à realidade”, diz.
Precisamente por ter consciência do problema que tem em mãos, o Governo italiano anunciou, já em junho, a emissão de 500 mil novos vistos de trabalho para cidadãos de países não pertencentes à União Europeia para o período 2026-2028. Mais recentemente, em novembro, o Executivo publicou também uma lei que permite aos descendentes de italianos de sete países (Brasil, Argentina, Estados Unidos, Austrália, Canadá, Venezuela e Uruguai) obterem vistos de trabalho sem limitações de número, como acontecia até então.
Trata-se de uma forma de imigração “seletiva”, aponta Pedro Góis. “Há aparentemente esta sensação de que afinidades culturais do passado são mais facilmente e rapidamente integráveis. As diásporas, os descendentes de nacionais europeus que migram para outros continentes serão, seguramente, parte deste grupo de migrantes preferenciais”, refere o convidado do episódio. “Essa seletividade das origens visa contrariar algo que também é real, que é esta perceção pública de que os migrantes não são todos iguais”, descreve.
De acordo com os dados estatísticos, o número de cidadãos estrangeiros a viver em Itália cresceu muito pouco ao longo dos últimos anos: de 4,6 milhões, em 2013, para 5,4 milhões no início de 2025, incluindo já os filhos de imigrantes nascidos em Itália. É cerca de 9% da população total, de 58,9 milhões de pessoas. Já o total de entradas de estrangeiros registadas em 2024 (dados mais recentes) foi de 435 mil, um número ligeiramente inferior ao de 2023, segundo o Instituto Nacional de Estatística italiano. Já o relatório do Observatório das Contas Públicas diz que o país precisa de receber 10 a 13 milhões de imigrantes até 2050 — são cerca de 400 mil a 520 mil por ano, até lá.
“A nossa economia global, europeia, italiana, portuguesa, não vive sem trabalhadores. Se internamente a demografia não é capaz de fornecer esses trabalhadores, a única solução viável, ou uma de duas, é ir buscá-os aos exterior. A segunda é fechar esses setores. Estamos a falar de setores de mão de obra intensiva, como construção, agricultura, alguma indústria e pescas. Fechá-los não é, portanto, uma possibilidade”, continua o investigador da Universidade de Coimbra.
Por isso, Itália “não funciona sem imigrantes”, tal como “muitos países”, sobretudo os “mais envelhecidos”. “Itália tem perfil demográfico muito semelhante ao perfil português, exceto que Portugal, nos últimos anos, recebeu muitas centenas de milhares de imigrantes e essas necessidades foram supridas no mercado de trabalho. Caso contrário, em algumas áreas já estaríamos com carência de trabalhadores”.
Este episódio foi conduzido pela jornalista Mara Tribuna e contou com a edição técnica de João Luís Amorim. O Mundo a Seus Pés é o podcast semanal da editoria Internacional do Expresso. A condução do debate é rotativa entre os jornalistas Ana França, Hélder Gomes, Mara Tribuna, Pedro Cordeiro e Catarina Maldonado Vasconcelos. Subscreva e ouça mais episódios.