Em vez de destruir a Estação Espacial Internacional (ISS) em 2030, há quem queira reciclá-la no espaço. A proposta passa por algo inédito: reciclar a estação em órbita e transformar a infraestrutura envelhecida numa fonte de matérias-primas para o futuro da exploração espacial.
A Estação Espacial Internacional tem os dias contados. O plano oficial aponta para a sua desorbitação em 2030, mas uma startup norte-americana defende que destruir a ISS será um erro estratégico, económico e tecnológico.
Uma estação envelhecida e cheia de problemas
A Estação Espacial Internacional orbita a Terra desde 1998 e ficou completa em 2011. Inicialmente, previa-se a sua retirada em 2024, mas dificuldades orçamentais levaram a NASA a adiar a decisão para 2030. Ainda assim, a preocupação cresce.
Nos últimos anos, multiplicaram-se os problemas técnicos: fugas de ar, fissuras em vários módulos, falta de peças de substituição para sistemas críticos e orçamentos cada vez mais apertados. As várias agências envolvidas têm recorrido a soluções provisórias para manter a ISS operacional.
A NASA já adjudicou à SpaceX o desenvolvimento de um veículo capaz de rebocar a estação até ao chamado “cemitério espacial” no Pacífico, o remoto Ponto Nemo. A questão é simples: fará sentido afundar uma estrutura de 450 toneladas que custou cerca de 150 mil milhões de dólares?
A partir de 2026, a ISS será deixada cair sob os efeitos do arrasto atmosférico até atingir uma altitude de cerca de 320 km.
Reciclar a ISS como se fosse uma mina orbital
Para Greg Vialle, fundador da startup Lunexus Space, a resposta é claramente não. A empresa propõe reutilizar a Estação Espacial Internacional como fonte de matérias-primas, evitando o desperdício de toneladas de materiais valiosos já colocados em órbita.
Segundo Vialle, a ISS contém cerca de 430 toneladas de alumínio de alta qualidade, titânio e outros metais de grau espacial.
O valor estimado desses materiais ronda os 1.500 milhões de dólares, que acabariam no fundo do oceano caso o plano atual avance. A isto somam-se quase 1.000 milhões de dólares que a NASA deverá gastar apenas para desorbitar a estação.
Nas palavras do CEO da Lunexus Space, trata-se de “um plano fiscalmente irresponsável que desperdiça um recurso estratégico e uma oportunidade única”.
A Estação Espacial Internacional é um dos projetos científicos mais caros alguma vez construídos. No total, o programa da ISS ultrapassa largamente os 100 mil milhões de dólares, refletindo a complexidade técnica, logística e humana de manter uma infraestrutura habitada permanentemente no espaço.
Economia circular em órbita baixa
A Lunexus Space aposta no desenvolvimento de uma verdadeira economia circular em órbita baixa. A ideia passa por reutilizar estruturas e sucata espacial para fabricar novos componentes diretamente no espaço, reduzindo a dependência de lançamentos a partir da Terra.
Os cálculos são claros. Colocar um quilograma de material em órbita custa, em média, 3500 dólares (cerca de 2900 euros). Aproveitar materiais já existentes na ISS permitiria reduzir drasticamente esses custos.
Vialle estima que o processo de reciclagem poderia ser realizado por cerca de 300 milhões de dólares, acrescidos de um empréstimo governamental para lançar a infraestrutura necessária. Mesmo assim, o valor ficaria muito abaixo do custo previsto para a destruição da estação.
Liderança espacial dos Estados Unidos em jogo
Para além da vertente económica, a proposta tem um forte argumento geopolítico. Vialle defende que reciclar a ISS permitiria lançar as bases de uma nova indústria espacial liderada pelos Estados Unidos, reforçando a sua posição face a concorrentes como a China, que também investe fortemente em estações espaciais e infraestrutura orbital.
O responsável compara esta estratégia a momentos históricos decisivos, como a mobilização industrial dos EUA antes da Segunda Guerra Mundial, o salto tecnológico do Japão nos anos 70 ou o papel de Taiwan com a TSMC na indústria dos semicondutores.
Na sua visão, quem dominar a gestão de recursos no espaço dominará o futuro do comércio e da defesa em órbita.
Obstáculos técnicos e pouco entusiasmo da indústria
Apesar da ambição, o plano enfrenta resistências. A NASA já revelou que, após avaliar a possibilidade de reutilizar componentes da ISS, não recebeu propostas concretas de interesse por parte da indústria.
Também a Agência Espacial Europeia considera que a reciclagem em órbita é “um verdadeiro desafio”, levantando dúvidas sobre a rentabilidade de capturar e processar materiais no espaço.
O tempo, contudo, não joga a favor de ninguém. Faltam cerca de quatro anos para a data prevista de desorbitação e a ISS aproxima-se rapidamente do fim da sua vida útil.
O movimento “Recycle the ISS” ganha visibilidade, mas a decisão terá de ser tomada em breve, sob pena de a estação simplesmente não aguentar até lá.



