Oscar Niemeyer (1907-2012), um dos maiores nomes da arquitetura mundial, completaria 118 anos nesta segunda-feira, 15. Autor de palácios, museus e monumentos que redefiniram a paisagem urbana do Brasil e do mundo, o arquiteto deixou também raridades pouco conhecidas, entre elas, a única casa projetada por ele na cidade de São Paulo, que este ano passou a estar à venda por R$ 15 milhões.

Escondida no bairro do Alto de Pinheiros, área nobre da zona oeste paulistana, a chamada Casa Niemeyer vai além de um imóvel de luxo: é um manifesto modernista em forma de residência. No lugar de ângulos retos, curvas; no lugar de divisões rígidas, fluidez; e, no lugar de ostentação, leveza estrutural e integração com a natureza.

O projeto foi um presente pessoal de Niemeyer ao engenheiro Milton Mitidieri, seu parceiro em obras emblemáticas como o Palácio da Alvorada e a Catedral de Brasília. Desenhada no início dos anos 1960, a casa só foi concluída em 1974 e permanece, desde então, sob posse da mesma família.

“Na época, nem imaginávamos o valor arquitetônico que esse lugar teria. Para mim, com 11 anos, era só uma casa grande e divertida, com uma rampa onde deslizávamos de skate”, relembrou Milton Mitidieri Filho em entrevista ao G1.

Casa Niemeyer fica no bairro de Alto de Pinheiros em São Paulo - Foto: Leonardo Finotti/Casa NiemeyerCasa Niemeyer fica no bairro de Alto de Pinheiros em São Paulo – Foto: Leonardo Finotti/Casa Niemeyer Um raro exemplo da arquitetura residencial de Niemeyer

Com 670 metros quadrados de área construída em um terreno de 1.800 metros quadrados, a residência é considerada um dos exemplos mais completos da arquitetura doméstica de Niemeyer, um campo onde o arquiteto se permitia maior liberdade criativa.

Concreto aparente, grandes panos de vidro, rampas sinuosas e jardins integrados criam a sensação constante de continuidade entre interior e exterior. “A impressão é de estar fora mesmo estando dentro”, descreve o arquiteto Bruno Kim. “Morar numa casa de Niemeyer é viver dentro de um manifesto de modernidade.”

Leia também: Atriz chega aos 56 anos com casa de luxo vizinha de Neymar e expectativa de salário de R$ 1,5 milhão

Os ambientes fogem da compartimentação tradicional. A sala de jantar circular, por exemplo, fica um metro abaixo do nível do piso, conforme detalhado pelo próprio Niemeyer em uma carta manuscrita enviada à família Mitidieri. As paredes internas não chegam até o teto, permitindo que luz e ventilação natural atravessem os espaços livremente.

Um dos destaques é a rampa de madeira que conecta as áreas social e íntima da casa — elemento que remete diretamente às soluções monumentais usadas pelo arquiteto em Brasília. O corredor dos quartos, marcado por uma curva que esconde seu final, ganhou entre os moradores o apelido carinhoso de “barriguinha”.

Casa Niemeyer fica no bairro de Alto de Pinheiros em São Paulo - Foto: Leonardo Finotti/Casa NiemeyerCasa Niemeyer fica no bairro de Alto de Pinheiros em São Paulo – Foto: Leonardo Finotti/Casa Niemeyer Futuro indefinido e ausência de tombamento

Após a morte da matriarca Edith Mitidieri, em 2012, a casa passou a ser utilizada como espaço para eventos culturais, exposições, gravações de séries e comerciais. Para especialistas, esse pode ser um caminho viável para o futuro do imóvel.

“Essas residências modernistas poderiam funcionar como centros culturais ou espaços de convivência, não apenas como moradias”, avalia o arquiteto Nuno Janeiro.

Apesar de seu valor histórico e simbólico, a Casa Niemeyer nunca foi tombada oficialmente por órgãos de preservação, o que facilita sua venda, mas também levanta debates sobre a proteção do patrimônio arquitetônico brasileiro.

Oscar Niemeyer definiu o projeto de forma direta: “Uma casa simples, diferente e acolhedora”. Simples talvez na concepção, mas extraordinária na execução — uma verdadeira obra de arte habitável, acessível apenas a quem pode pagar o preço da exclusividade e da história.