Gonçalo Feio é um português mais conhecido na Polónia do que no próprio país. Saiu de Lisboa em 2012, para ir fazer seis meses de Erasmus, e nunca mais voltou. Ou antes, voltou, mas só para férias ou para visitar as pessoas de quem gosta.

Entretanto tornou-se uma figura mediática na Polónia, pelo sucesso que tem tido como treinador – ele que foi o primeiro a vencer em Inglaterra por uma equipa polaca -, mas também pela paixão que passa: paixão pelos jogadores e pelo jogo.

Foi aluno de José Mourinho na Faculdade de Motricidade Humana, deixou-se inspirar pelo agora treinador do Benfica, considera-se um metodólogo, mas diz que o mais importante é saber cuidar das pessoas. Venha daí conhecê-lo melhor.

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Começando pelo início, de onde vem o Gonçalo Feio?

Eu venho de Alcântara, em Lisboa. Cresci na Rua da Aliança Operária, no fim da freguesia de Alcântara, a chegar à Ajuda. A minha mãe trabalhava num banco, o meu pai trabalhava com ferro e madeira numa fábrica. Nos últimos anos, antes da reforma, geriram um café também em Alcântara. A minha escola primária era mesmo debaixo da Ponte 25 de Abril, mais tarde estudei na Escola Rainha Dona Amélia e, enfim, andava sempre por ali.

E como é que o futebol entrou na sua vida?

Entrou naturalmente, na escola, na rua. Eu desde muito jovem ia à Tapadinha, ia ao Restelo. Mais tarde ia também à Luz, que já era um bocadinho mais longe.

Ia sozinho à Luz?

Não, não, ia com um amigo, o David Ramos, que era meu vizinho. Nós os dois íamos a todo o lado.

Mas então esta paixão não tem nada a ver com herança familiar?

Nada, nada. A minha família é zero ligada ao desporto.

Foi mesmo pelos amigos que se ligou ao futebol?

Sim, foi pelos amigos e pelo que o futebol me dava. Os desportos de equipa transmitem-te disciplina e fundamentos coletivos. No fim de contas, têm muito a ver com princípios comuns: representar uma equipa e pensar de uma forma comunitária. E isso marcou-me sempre.

Há uma disciplina intrínseca aos desportos coletivos, é isso?

Sem dúvida. Tem a ver com o que é o dia a dia de uma criança ou de um jovem que vai para a escola, estuda, depois vai treinar – e quanto mais velho se é, mais tarde são os treinos. Portanto, o desporto coletivo obriga-te a desenvolver capacidades sociais e a ter uma disciplina muito forte. Todas essas coisas sempre me fascinaram muito.

Chegou a jogar futebol?

Nada de especial. Comecei a jogar no Atlético, ali na Tapadinha. Depois joguei no Belenenses. Ao lado do Estádio do Restelo havia um campo, ao qual chamávamos Maracanã, que era um campo de terra. Ainda me lembro do meu primeiro treino lá. Estava a chover, treinávamos com calções brancos e camisola azul, e eu cheguei a casa castanho. A minha avó já tinha mais ou menos 90 anos e não gostou nada… aquilo já nem dava para lavar. Também passei pelo Benfica. Joguei até aos 16 anos, mais ou menos. Mas, como bom reconhecedor de talento, entendi rapidamente que não ia chegar longe a jogar futebol.

Mas era um apaixonado pelo jogo…

Era, e por isso apareceu a paixão por estudar futebol. Até porque nos meus anos de jovem é quando nasce o fenómeno Mourinho. Que tem uma influência brutal no que é a minha geração de treinadores. Acho que o sonho de ser treinador apareceu muito cedo por isso.

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A inspiração do professor José Mourinho e a importância de tratar das pessoas

Quando vai para a Faculdade de Motricidade Humana já é com a ideia de ser treinador?

Sim, mas não é uma ideia que eu partilhasse ou que fizesse disso uma coisa pública. Sempre mantive as minhas coisas muito minhas, muito fechadas, apesar de ser uma pessoa de equipa. Mas eu tinha claro que o objetivo era esse.

Escolheu desporto para ser treinador ou podia ser outra coisa ligada ao desporto?

Era o caminho de me formar. A FMH, sendo eu de Lisboa e novamente por influência de Mourinho, era o caminho normal para me formar como metodologista de treino.

E como é que foi ser aluno de José Mourinho?

Ele vinha algumas vezes, dava-nos palestras curtas no auditório da FMH e, claro, era uma pessoa que chegava de outro mundo. O melhor treinador do mundo. Acho que a grande inspiração – para além de todas aquelas publicações que saíram depois, de Vítor Frade, de José Mourinho, da periodização tática e dessa parte científica – era aquele discurso que ele nos dava de ‘saber muito de futebol não chega para ser bom treinador de futebol’.

Lembro-me de uma vez, numa dessas palestras na FMH, ele ter respondido a um aluno qualquer coisa como: ‘eh pá, se a tua preocupação é saber táticas, compra um livro’.

Exato. Ou seja, há uma holisticidade associada à preparação para a profissão de treinador, em termos de liderança, de psicologia, de gestão de equipa, de gestão do saber fisiológico, de gestão do saber tático… Para a minha geração, José Mourinho foi uma grande inspiração, por essa junção da parte científica e humana. Eu acredito muito que o modelo de jogo tem de ser ligado ao modelo de trabalho, o modelo de trabalho tem de ser ligado ao modelo de comunicação, o modelo de comunicação está ligado ao modelo de liderança e o modelo de liderança tem influência direta no modelo de jogo. Agora parece que tudo isto faz sentido e é muito claro, mas esta causalidade de um modelo de liderança provocar um determinado modelo de jogo foi aí que começou.

Como dizia o prof. Manuel Sérgio, quem só sabe de futebol não sabe nada de futebol.

Há uma coisa que eu faço muito, seja no campo ou aqui no meu gabinete, que é chamar dois ou três jogadores por dia para uma conversa mais direta. Às vezes nem é sobre futebol, é sobre a família, sobre as coisas da vida. E há algo que lhes digo muito: nós, treinadores, pensamos que o ponto número um do nosso trabalho é preparar um bom treino ou fazer uma boa palestra tática. E obviamente a parte metodológica é importantíssima, porque é o que a equipa vai mostrar no campo. Mas não é o ponto número um.

E qual é o ponto número um?

Cuidar das pessoas. Eu acredito muito que há um ponto antes de tudo o resto, que é o cuidar das pessoas. O futebol no campo é um jogo de equipa, mas fora do campo é um desporto individual. A preparação física não é igual para todos os jogadores, a preparação mental não é igual para todos os jogadores, há uma série de coisas que é diferente de jogador para jogador. Por isso é preciso cuidar das pessoas, porque não há duas pessoas iguais, não há duas pessoas com o mesmo entorno, não há duas pessoas com os mesmos problemas, não há duas pessoas com a mesma forma de pensar. É necessário estar com as pessoas quando elas mais necessitam. Joguem ou não joguem, o apoio tem de ser igual para todos e o tratamento tem de ser igual para todos. Ser sempre honesto com os jogadores. Eu prefiro sempre dizer uma verdade difícil a uma mentira doce. Não acredito em mentiras doces.

Pode dizer-se que um treinador para si tem de ter um pouco do prof. Vítor Frade e um pouco do prof. Manuel Sérgio?

Entendo a pergunta. Ser treinador para mim é, antes de mais, uma grande responsabilidade. E, lá está, a parte do prof. Manuel Sérgio é a responsabilidade de tomar conta das pessoas – e não falo apenas dos jogadores, falo de toda a gente no clube -, de inspirar as pessoas, de fazer com que evoluam todos os dias. E depois, sim, há a parte tática do treino. Aí normalmente um treinador tem o apoio da sua equipa técnica, apesar de eu ser o estilo de treinador que é um líder metodólogo, porque gosto de preparar o treino, gosto de estar na preparação tática, não sou só um manager, digamos assim.

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Polónia, Alemanha, Ucrânia… e a vontade de fazer Erasmus

Voltando à sua história, estava na FMH e um dia decidiu ir fazer Erasmus.

Sim, era um semestre em que tinha apenas de acabar Estatística e Psicologia. Era uma altura da minha vida em que não estava preso a nada, podia viajar, sair, ver outro futebol. Tinha pensado Polónia, Ucrânia, Alemanha, algo assim para abrir horizontes.

Mal imaginava como isso ia mudar a sua vida…

É verdade. Acabei por vir para a Polónia e acabei por entrar no futebol polaco, no maior clube da Polónia, pura e simplesmente porque fui lá pedir.

Essa história também é engraçada porque ia a passar à porta e entrou, não é?

Não foi bem. Fui bater à porta do Legia e pedir um bocadinho com o diretor da academia. Apresentei-me, mostrei-lhe uma carta de recomendação das escolinhas do Benfica e disse-lhe: eu não quero dinheiro, não quero trabalho e também não vos quero incomodar, só quero, já que vou estar cá, ver os treinos, passar os dias no clube e entender a vossa forma de trabalhar.

Qual foi a resposta?

Eles abriram-me as portas e foi o início de um caminho que nunca imaginei que fosse assim.

E passava os dias nas instalações do Legia?

De manhã, para ter uns dinheirinhos, dava aulas de português. À tarde, sim, ia para o Legia e passava lá o tempo todo, a ver treinos e a conversar com os poucos que na altura falavam inglês. Ao fim de dois ou três meses, o diretor da academia veio falar comigo e disse-me: nós queremos que tu fiques, queremos dar-te um contrato e pegas nos sub-10.

Qual foi a sua reação?

‘Estes gajos são doidos, eu não quero ficar aqui’. Até porque agora quase não há neve, mas há 13 anos tinha neve até aos joelhos. Enfim, disse que ficava só até final da época e aceitei. Peguei nos sub-10 e aquilo correu bem, sair da zona de conforto faz-nos crescer. No fim dessa época, quando pensava que já era altura de voltar para casa, o diretor da academia comunicou-me que estavam muito felizes comigo e que queriam que eu assinasse outro contrato, para coordenar os sub-11 e ao mesmo tempo trabalhar com os sub-15. Ou seja, ia trabalhar num escalão em que já havia internacionais polacos. Tive dúvidas, mas decidi ficar.

Quando assinou esse novo contrato, já o fez com a ideia de ficar na Polónia?

Sim, nessa altura já foi diferente. Aliás, no primeiro ano e sete meses assinei três contratos. Entretanto, a meio da terceira época, na paragem de inverno, o Legia trocou de treinador e veio Henning Berg, que como jogador tinha sido campeão europeu com Alex Ferguson. Já tinha sido treinador do Blackburn e, quando chegou, sentiu que precisava de um apoio maior do departamento de análise e preparação tática do jogo. Foi então que o clube lhe falou de mim. Houve uma reunião e ele pediu-me uma análise de um jogo do Borussia Dortmund, do Klopp. Obviamente a minha pergunta foi: mas como é que nós vamos jogar? Porque acho que quando se analisa um adversário, tem de ser dentro de uma ideia do que se quer para a nossa equipa. Falámos ali umas duas ou três horas, ele explicou-me a visão dele e a partir daí tive três dias. Foram três dias em que dei tudo de mim, porque queria dar aquele passo. Apresentei o relatório, ele ficou contente e passei a ter contrato de primeira equipa como analista.  

A partir daí começou o seu caminho no futebol profissional?

Sim. A temporada acabou, ele teve uma conversa comigo e disse-me que ficaria a coordenar o departamento de análise, mas que precisava de mim mais no campo. Aos 24 ou 25 anos passei a ser treinador-adjunto do maior clube da Polónia. Foram mais um ano e meio muito bons, até que, como tudo na vida, esta etapa acabou.

Mas acabou por alguma razão em especial?

Foi simples, o Henning Berg foi demitido a meio da época e eu, após cinco anos no Legia, durante seis meses não tive nenhum clube que me quisesse. Houve interesses, tive conversas, mas nada se concretizou e não ter trabalho fez-me voltar a Portugal. Aproveitei para fazer muitas conferências, como educador de treinadores.

Chegou a terminar a licenciatura?

Não, está suspensa. Nunca mais voltei a Portugal o tempo suficiente para a acabar. É uma das pedras que eu tenho aqui no sapato. Quero acabá-la ainda. Obviamente agora já tenho todos os cursos UEFA e UEFA Pro, está tudo feito, mas essa parte académica para mim é importante.

Até porque nesse período em que regressou a Portugal, só ficou seis meses, certo?

Sim, passei meio ano em Portugal e outro clube histórico da Polónia, o Wisla Cracóvia, ligou-me para ir coordenar os escalões da academia e trabalhar com os sub-18. Eu fui, as coisas estavam a ir bem e ao fim de quatro meses o diretor desportivo disse-me que eu tinha de ir para a primeira equipa.

Porquê?

Outra vez a mesma história, vem um treinador espanhol, Kiko Ramirez, e eu entrei como adjunto dele e também a fazer a tradução, porque ele só falava espanhol.

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A decisão de ser treinador principal e o início… na terceira divisão

Quando se dá a mudança para treinador principal?

Eu estive com o Kiko Ramirez no Wisla, depois fomos para a Grécia, e a meio da época voltei sozinho para a Polónia, para ser adjunto do Rakow. Em dois anos e meio ganhámos duas Taças da Polónia e conseguimos dois segundos lugares. Então eu senti que estava preparado e saí para começar uma carreira de treinador principal.

E foi para a terceira divisão…

Tive alguns convites, mas o projeto que mais me aliciou foi no terceiro escalão, sim, num clube que ao fim de onze jogos estava em último. Houve muita gente que me disse que eu era maluco, mas eu tinha visitado o clube, tinha conhecido as ideias do dono e percebi que era um histórico, com uma boa massa adepta e no qual estava tudo por construir.

Tinha margem para crescer e ajudá-lo a crescer?

Sim, porque ia ter grandes condições de trabalho, mas a nível de protocolos, estruturas e profissionalismo estava tudo por fazer. Ou seja, eu ia poder participar na visão e na estratégia de crescimento do clube.

Pegou no clube em último lugar e subiu duas vezes de divisão, não foi?

Antes disso, na conversa com o dono, ele disse-me que faltavam três anos para o Motor cumprir 75 anos e que gostava que nessa altura o clube subisse à Liga. Tinha três anos para subir duas divisões. Ele disse-me que já sabia que aquele ano estava perdido, mas que contava comigo para o futuro. Aí eu disse-lhe para ter calma, que só tinham passado onze jornadas. Mais tarde ele confessou-me que, quando lhe disse isto, ele pensou que eu era maluco.

Mas o que é certo é que conseguiu.

Na primeira época, peguei na equipa no último lugar e acabámos por subir, não direto, mas através dos play-offs, a jogar a meia-final e a final em casa do adversário. Subimos à II Liga e aí, com estruturas muito melhores, saí a sete jornadas do fim com a equipa em posição de subida. A minha equipa técnica ficou lá toda e acabou por concluir o trabalho.

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O regresso ao Legia e uma vitória histórica em Stamford Bridge

Saiu para voltar ao sítio onde tudo tinha começado: o Legia.

Foi um regresso à primeira casa, ao clube que me abriu as portas da Polónia. Foi um reencontro com muitas pessoas que me conheciam desde que era treinador dos sub-10, quando nem sequer falava polaco. Não é um clube mais, é um clube que significa muito para mim.

Mas não foi visto de lado, como se ainda fosse o miúdo que treinava os sub-10?

Não, pelo contrário. Vou contar-lhe uma coisa: no Legia, todas as terças-feiras o clube fazia um almoço para os trabalhadores não desportivos e havia sempre um convidado para dar um pequeno mind talk. Quando fui convidado, mostrei-lhes um ecrã com mensagens que muitos deles me tinham enviado: por exemplo, o Arthur, da manutenção, a senhora Maria, da contabilidade, a senhora Kinga, das limpezas, o Michal, do departamento de IT. Eram mensagens que eu guardei e que relia para ir buscar força e motivação.

Depois conseguiu um feito histórico: apurou-se para a Liga Conferência e tornou-se o último português a ganhar em Stamford Bridge.

E fomos a primeira equipa polaca a ganhar em Inglaterra.

Como é que esse feito foi recebido na Polónia?

Ainda hoje os sentimentos são um bocadinho agridoces. Obviamente, o Chelsea era o tubarão da Liga Conferência. Aliás, um ou dois meses depois desse jogo em Stamford Bridge foi campeão do mundo, portanto era uma equipa estratosférica para aquela competição. O Chelsea, o Betis e a Fiorentina eram as equipas a mais na Liga Conferência.

E desses três tubarões, o Legia venceu dois: o Chelsea e o Betis.

Sim. Essa noite em Stamford Bridge fechou uma longa campanha europeia, que começou com seis jogos de qualificação. Na fase de liga, ao fim de quatro jornadas estávamos apurados nos oito primeiros, porque fizemos 12 pontos e não sofremos nenhum golo. Portanto aquela noite fechou uma campanha que deixou os adeptos muito orgulhosos. Caímos frente a uma equipa melhor do que nós, sem dúvida, mas, por outro lado, cair nos quartos de final de uma prova europeia deixa aquela sensação de que não era impossível. São sentimentos agridoces, lá está.

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O gesto que o fez correr mundo e que foi um erro

E é nessa caminhada que o Gonçalo se torna viral em Portugal, por causa daquela reação em que faz uns gestos feios para os adeptos adversários.

Viral? Não sei. Viral sou seguramente aqui na Polónia, porque há muitas pessoas a amarem-me pela minha minha paixão, pela minha dedicação, pelo meu amor ao jogo, às minhas equipas e aos meus jogadores.

Se calhar viral é exagerado.

Foi ainda no verão, na eliminatória com o Brondby, e foi um erro. Um erro que seguramente não voltará a acontecer. Foi uma eliminatória louca, com muitas provocações entre equipas técnicas, muita tensão no campo, muita tensão nas bancadas. Depois de ganhar aquela guerra desportiva, tive aquela reação emocional, que foi um erro.

Foi uma reação a quente?

Sim, claramente. Nunca devia ter acontecido. Fui multado, aceitei a multa e acho que ela foi obviamente super justa. Foi uma experiência que me mostrou que a nível do meu desenvolvimento, nessa parte da maturidade emocional, havia trabalho que eu tinha de fazer. Trabalho que eu fiz e continuo a fazer. Foi uma aprendizagem, com alguma dor, porque cometi um erro que me custou bastante, mas ainda assim uma aprendizagem.

De Portugal alguma pessoa mais próxima lhe puxou as orelhas nessa altura?

As pessoas mais próximas que eu tenho em Portugal são os meus pais, que já estão reformados, que estão numa idade muito bonita e que sofreram à distância. Obviamente, preocuparam-se com aquilo que viram. E uma parte disto tudo foi eu dizer a mim próprio: ‘Pá, não posso fazer isto, não posso mesmo fazer isto’. Foram pessoas que me deram uma base fantástica, que me deram tudo e eu quero que eles se sintam orgulhosos pelos meus feitos, mas sobretudo pela pessoa que sou.

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Porque se demitiu do Dunkerke ao fim de… quinze dias

No início desta época foi para França e demitiu-se ao fim de duas semanas. Porquê?

Porque aquilo que se falou e a realidade que eu encontrei eram coisas muito diferentes. Era um entorno onde não me encontrei feliz, era um nível de ambição, uma organização e um nível desportivo que não correspondia ao que tínhamos falado, e atenção que eu rejeitei outras coisas, inclusivamente de Portugal, para ir para França. A partir daí, tive uma conversa muito honesta, ainda faltava muito para começar a temporada, ou seja, o clube tinha tempo para encontrar um treinador e tinha seis semanas para preparar a época. Tive uma conversa muito honesta com o diretor desportivo, expliquei-lhe as coisas e, sem problemas, sem dinheiro, sem nada, eu saí prescindido do maior contrato da história do Dunkerke, porque o meu contrato era efetivamente o maior da história do clube.

Ainda assim, não foi uma saída sem alguma polémica.

Sim, depois apareceram muitas histórias, que não correspondem à verdade. Imagino que a instituição teve de encontrar desculpas. Mas lanço um desafio aos jornalistas: encontrem um jogador, um só, que trabalhou comigo e que diga que foi maltratado por mim, que não tínhamos boa relação ou até que não aprendeu comigo. É um desafio que vos deixo.

Pelo que percebo, o Gonçalo se não estiver feliz sente que não vale a pena?

Não, não. Nada disso. No futebol vivemos bons momentos e maus momentos. No clube em que eu estou neste momento, estamos a passar uma situação muito delicada [ndr: está detido por acusação de violação o médio Ibrahima Camara, ex-jogador do Moreirense e Boavista]. E aí, eu como líder sou o primeiro a dar o passo em frente. Sou o primeiro a inspirar as pessoas. Sou o primeiro a defender o clube, a defender o grupo, a defender os meus jogadores.

Não foram as dificuldades ou os obstáculos que o fizeram sair?

Não, não foram. Já provei que sair da zona de conforto é algo que eu faço com todo o prazer e enfrentar obstáculos é algo que eu faço com toda a dedicação. Agora, no início de uma colaboração, quando coisas que se falaram são diferentes da realidade, quando os níveis de ambição diferem muito, quando a ética de trabalho não é a mesma, acho que não faz muito sentido continuar nesse caminho, porque não ia ser um caminho comum.

E disse que que rejeitou propostas, inclusivamente de Portugal? De I Liga?

Também. Mas sobretudo houve um clube da II Liga que demonstrou muito interesse em mim, muita crença em mim. Foi sem dúvida o clube que demonstrou mais interesse e era um grande projeto. Foi uma decisão muito difícil para mim.

Então porque não aceitou?

Eu tinha acabado de ganhar um título, a Taça da Polónia, tinha acabado de jogar os quartos de final de uma competição europeia, tinha vencido em Stamford Bridge, portanto, para mim, dar esse dar esse passo para um contexto de II Liga portuguesa, ou até para os contextos que me foram aparecendo de I Liga, não era o passo certo a dar.

Pelo que já ganhou na Polónia, não acha que se calhar já merecia um clube maior em Portugal, um clube que dispute pelo menos as competições europeias?

Sim, mas vai chegar esse momento. Com trabalho, com dedicação, com uma ética de trabalho muito forte, continuando a desenvolver equipas, a fazer evoluir jogadores e a ajudar clubes a irem para outros patamares, eu acho que isso vai acontecer. Eu entendo que ainda não tenha chegado a um clube desses em Portugal, porque o meu caminho foi feito no estrangeiro. Mesmo com as campanhas europeias que fizemos, a Liga Polaca tem pouca visibilidade em Portugal. Mas, lá está, é outra vez o mesmo: foco em trabalhar com os jogadores e com a minha equipa técnica, para ser melhor todos os dias. Eu tenho a certeza que Portugal vai chegar. Não é algo com que eu esteja obcecado, porque sei que naturalmente vou treinar em Portugal.

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O Southampton, o Rangers e o sonho do futebol britânico

Nos últimos meses, teve outras hipóteses, nomeadamente o Southampton e o Rangers, não é?

Sim, a verdade é que foram uns meses de verão muito emocionais.

Porquê?

Para já, deixei um projeto que era muito importante para mim. É verdade que o deixei tendo uma proposta de renovação, mas queria mudar certas coisas no clube, para lutarmos pelo título nacional, e não foi possível. A partir daí acabei por sair, de um projeto que era importante para mim e deixando uma equipa com a qual eu tinha um vínculo muito grande. Depois, porque havia esse sonho de dar um salto a nível europeu. Eu tive mais do que uma reunião em Inglaterra, tive propostas da Polónia, tive conversas de vários países, por isso foram meses muito intensos, que podiam mudar já imediatamente o rumo da minha carreira.

Foi um período de muitas decisões.

Sem dúvida. Mas sobretudo decisões que levam a consequências. Eu quero trabalhar no futebol. Não estou no futebol para me servir dele ou só para ganhar dinheiro. Não, eu amo o que faço e sou obcecado pelo jogo.

Foi meio ano sem treinar, tirando aquela pequena experiência no Dunkerke. Foram meses muito duros?

Eu acordo todos os dias às quatro e meia, às cinco estou no clube e só me vou embora às nove da noite. São dias em que o telefone não pára, em que toda a gente precisa que eu resolva alguma coisa. De repente passei para uma realidade em que havia dias que o telefone não tocava sequer. O que eu fiz? Concentrei-me numa coisa: posso não ter clube, mas trabalho não falta. Então vi jogos, estudei equipas e analisei jogadores. Eu ia a Portugal e num fim de semana era capaz de ver oito jogos e analisar todos os jogadores.

Nos vídeos que vamos vendo, dá a impressão que o Gonçalo Feio passa muito paixão nas palestras aos jogadores. Também sente isso?

Olha, eu vou contar uma história, a minha avó que me perdoe lá de cima, mas eu tenho de contar esta história. Quando estava na terceira classe, houve um torneio de futebol e nós chegámos à final, apesar de sermos do terceiro ano. Na final normalmente chegavam sempre as turmas do quarto ano, porque eram maiores. Mas pronto, estávamos a jogar a final e houve ali umas decisões do árbitro, que era diretor de turma da outra equipa, que nós não gostámos. Aí eu disse: ‘Isto não pode ser assim. Malta, vamos embora’. E fomos. Deixámos a final, fomos para a nossa sala e eu disse novamente: ‘Malta, isto não pode ser assim, vamos escrever uns papéis que somos nós ou ele’. E assim foi, colámos umas folhas e tal, o que deu grande confusão, a minha mãe foi chamada à escola, enfim. Mas o interessante desta história é que, de forma muito natural, sempre tive de empatizar grande, de ouvir, de apoiar, o que acabou por me dar uma influência grande no meu entorno. Se calhar é parte do talento do que é ser treinador e algo em que me sinto muito confortável.