Os primeiros migrantes climáticos a deixar a remota ilha de Tuvalu, no Sul do Pacífico, já chegaram à Austrália, na esperança de preservar os laços com a sua ilha natal que se está a afundar.

Mais de um terço dos 11 mil habitantes de Tuvalu candidatou-se a um “visto climático” para emigrar para a Austrália, ao abrigo de um acordo celebrado entre os dois países há dois anos, segundo os responsáveis dos negócios estrangeiros da Austrália.

A entrada é limitada a 280 vistos por ano para evitar a fuga de cérebros da pequena nação insular.

Tuvalu, um dos países mais ameaçados pelas alterações climáticas devido à subida do nível do mar, é um arquipélago de atóis de baixa altitude espalhados pelo Pacífico entre a Austrália e o Havai.

A Austrália está a criar serviços de apoio para ajudar as famílias tuvaluanas a instalarem-se na cidade de Melbourne, na costa leste, em Adelaide, no sul da Austrália, e no estado de Queensland, no norte.

De Tuvalu para toda a Austrália

Entre os tuvaluanos seleccionados para a primeira leva de migrantes climáticos encontra-se a primeira mulher motorista de empilhadora de Tuvalu, uma dentista e um ministro religioso empenhado em preservar a sua vida espiritual a milhares de quilómetros de casa, informou o Governo australiano.

Kitai Haulapi, a primeira mulher a conduzir uma empilhadora em Tuvalu, casou-se recentemente e vai mudar-se para Melbourne, com cinco milhões de habitantes. No vídeo divulgado pelo governo australiano, Kitai Haulapi diz que espera encontrar um emprego na Austrália e continuar a contribuir para Tuvalu enviando dinheiro para a sua família.

A dentista Masina Matolu, que tem três filhos em idade escolar e um marido marinheiro, vai mudar-se com a família para a cidade de Darwin, no norte da Austrália, onde tenciona trabalhar com comunidades indígenas.

“Posso trazer tudo o que aprendo na Austrália para a minha cultura de origem”, afirma.

Metade do atol submerso até 2050

O Primeiro-ministro de Tuvalu, Feleti Teo, visitou a comunidade tuvaluana em Melton, Melbourne, no mês passado, para sublinhar a importância de manter laços fortes e laços culturais além-fronteiras à medida que os cidadãos migram, afirmaram as autoridades de Tuvalu.

No principal atol de Tuvalu, Funafuti, os habitantes se agarram a uma faixa de terra com pouco mais de 20 metros de largura – o terreno é, em muitos troços, pouco mais largo do que a estrada. As famílias vivem debaixo de telhados de colmo e as crianças jogam futebol na pista do aeroporto devido às limitações de espaço.

Até 2050, os cientistas da NASA prevêem que as marés diárias consigam submergir metade do atol de Funafuti, onde vivem 60% dos habitantes de Tuvalu. A previsão pressupõe uma subida de um metro no nível do mar, enquanto o pior cenário – o dobro – colocaria 90% do principal atol do país debaixo de água.

“Mobilidade com dignidade”

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Penny Wong, sublinha que os migrantes climáticos vêm também contribuir para a sociedade australiana.

O visto oferece “mobilidade com dignidade, proporcionando aos tuvaluanos a oportunidade de viver, estudar e trabalhar na Austrália à medida que os impactos climáticos se agravam”, afirmou Penny Wong, em declarações à Reuters.

Manipua Puafolau, da ilha principal de Tuvalu, Funafuti, chegou à Austrália há duas semanas. Pastor estagiário na igreja mais proeminente de Tuvalu, planeia viver na pequena cidade de Naracoorte, no estado da Austrália do Sul, onde várias centenas de migrantes das ilhas do Pacífico trabalham na agricultura sazonal e na transformação de carne.

“Para as pessoas que se mudam para a Austrália, não se trata apenas de bem-estar físico e económico, mas também de orientação espiritual”, afirmou Manipua Puafolau, num vídeo divulgado pelo ministério dos Negócios Estrangeiros da Austrália.