O desaparecimento de glaciares devido às alterações climáticas deverá atingir o pico em meados do século, com uma perda de dois a quatro mil glaciares por ano. Sob as políticas climáticas actuais, os glaciares dos Alpes, na Europa Central, deverão atingir “velocidade de cruzeiro” de extinção em 2033, quando se prevê que cerca de 106 glaciares desapareçam todos os anos – e apenas 110 glaciares restarão na região até o ano de 2100.
Um estudo publicado na revista Nature Climate Change esta segunda-feira especifica que o número de glaciares que desaparecem depende do nível de aquecimento no mundo acima dos valores pré-industriais.
Actualmente, existem mais de 200 mil glaciares a nível global, com uma perda anual entre 750 e 800 glaciares. Os investigadores utilizaram três modelos globais de glaciares para quantificar o desaparecimento de cada um dos corpos de gelo e estimam que a taxa máxima de perda será de três a cinco vezes superior à actual, introduzindo o conceito de “pico de extinção dos glaciares”, o ano em que desaparece o maior número de glaciares.
O momento e a magnitude deste “pico de extinção de glaciares” dependem fortemente do nível de aquecimento global.
Apenas 40 mil sobrevivem até 2100
As acções climáticas actuais dos governos projectam que as temperaturas globais atinjam cerca de 2,7 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais até 2100.
Neste cenário, as perdas anuais de glaciares atingiriam cerca de três mil por ano em 2040, mantendo-se neste patamar até 2060, o que resultaria na sobrevivência de apenas cerca de 20% da contagem inicial de glaciares até 2100.
Ou seja, a diferença entre perder dois mil e quatro mil glaciares anualmente será determinada pelas políticas e decisões societais tomadas hoje.
Políticas climáticas fazem a diferença
Os autores notam que limitar o aquecimento a 1,5 graus celsius pode mais do que duplicar o número de glaciares restantes em 2100, em comparação com um cenário de aquecimento de 2,7°C e evitando a perda quase total de glaciares previsível com um aquecimento de 4°C.
Sob um cenário limitado a 1,5 graus Celsius, um dos objectivos do Acordo de Paris), o desaparecimento atinge o pico com cerca de dois mil glaciares por ano por volta de 2041, o que poderia levar à sobrevivência de quase 50% dos glaciares até 2100.
Se o aquecimento atingir 4 graus Celsius – uma trajectória de emissões mais elevadas -, este pico intensifica-se para aproximadamente quatro mil glaciares por ano, ocorrendo mais tarde, em meados da década de 2050.
Diferenças regionais
A extinção máxima de glaciares varia significativamente por região, reflectindo as diferenças no tamanho médio dos glaciares e no clima local.
Regiões dominadas por glaciares pequenos e de resposta rápida, como os Alpes Europeus (Europa Central), o Cáucaso e os Andes Subtropicais, deverão atingir o pico de extinção mais cedo, antes ou por volta de 2040, com mais de metade dos glaciares a desaparecer nas próximas duas décadas.
Na Europa Central, os glaciares deverão atingir o pico de extinção em 2033, quando se prevê que cerca de 106 glaciares desapareçam todos os anos na região. Os investigadores projectam uma redução de 97% dos seus glaciares até ao final do século sob o cenário de 2,7°C (sob as políticas actuais), mas mesmo que o aquecimento global seja limitado a 1,5°C espera-se que os glaciares da Europa Central encolham 87% até 2100. Num cenário de aquecimento de 4°C, apenas cerca de 20 glaciares vão sobreviver na Europa Central, uma redução de 99% em relação ao presente.
Regiões com maior proporção de glaciares maiores, como a periferia da Gronelândia e o Árctico Russo, mostram um pico de extinção mais tardio no século XXI. Na Gronelândia, embora o pico de extinção ocorra por volta de 2063, a fusão está projectada para continuar a acontecer para além de 2100.
Implicações profundas
O estudo denota ainda que o desaparecimento de glaciares tem implicações profundas que vão além da perda de massa e área, que tradicionalmente têm sido o foco dos estudos. Estes corpos de gelo são cruciais para o ecossistema, os recursos hídricos e o património cultural.
Em algumas comunidades os glaciares têm significado cultural e espiritual, podendo ser uma importante fonte de rendimento ao atrair milhões de visitantes em cada ano, mas também uma fonte de água.
O pico de extinção de glaciares marca um ponto de viragem, transformando a perda num “drama humano de paisagens a desaparecer, tradições a esbaterem-se e rotinas diárias interrompidas”, descrevem os cientistas no artigo científico.
Em muitas regiões, as comunidades já realizam rituais simbólicos, como os “funerais de glaciares” (por exemplo, Okjökull na Islândia e Pizol na Suíça), para assinalar a perda e sublinhar as dimensões emocionais e sociais deste fenómeno. O estudo destaca que a política climática ambiciosa pode fazer uma diferença substancial na preservação dos glaciares. com Lusa