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O primeiro-ministro checo, Andrej Babis.
Novo primeiro-ministro checo poderá ser também o novo “amigo” de Hungria e Eslováquia, que minam Kiev desde o início da guerra. Já deu sinais disso.
O Presidente checo, Petr Pavel, acaba de dar posse a um novo governo de coligação de direita, liderado pelo multimilionário populista Andrej Babiš.
A nomeação põe fim a várias semanas de incerteza sobre a disponibilidade do chefe de Estado para confirmar Babiš como primeiro-ministro e representa uma mudança política, quase de certeza, perigosa para Volodymyr Zelenskyy e para a Ucrânia.
Isto porque a transição para Babiš deverá aproximar a República Checa das posições de países como a Hungria e a Eslováquia no que toca ao apoio a Kiev.
Pavel anunciou que avançaria com a indigitação depois de Babiš se comprometer a alienar a sua participação na Agrofert, um conglomerado agrícola e um dos grandes beneficiários de subsídios europeus. Babiš, que já chefiou o governo entre 2017 e 2021, regressa ao poder num momento em que a União Europeia procura novas formas de financiar a assistência à Ucrânia, devastada pela guerra.
Nos últimos dias, aponta o jornal Politico, o novo primeiro-ministro assumiu uma posição crítica em relação a uma proposta europeia para apoiar Kiev através de um empréstimo baseado nos ativos russos congelados.
“A Comissão Europeia tem de encontrar outras formas de financiar a Ucrânia“, anunciou Babiš no sábado, no Facebook. “Os nossos cofres estão vazios e precisamos de cada coroa [unidade monetária checa] que temos para os nossos cidadãos.”
A postura de Babiš reabre tensões antigas com Bruxelas. Durante o seu anterior mandato, foi alvo de críticas e de disputas políticas por alegados conflitos de interesses ligados à Agrofert. Desde então, o líder da Aliança dos Cidadãos Descontentes (ANO) tem reforçado o posicionamento à direita, juntando-se ao grupo Patriots for Europe no Parlamento Europeu e ameaçando cancelar uma iniciativa de munições liderada por Praga que já entregou mais de um milhão de cartuchos à Ucrânia.
Babiš venceu as eleições legislativas em outubro e fechou uma coligação com o partido de extrema-direita Liberdade e Democracia Directa (SPD) e com os direitistas Motorists. Os três parceiros partilham a intenção de travar medidas climáticas — incluindo o sistema ETS2 de comércio de emissões — e rejeitam planos de Bruxelas para proibir motores de combustão.
Na distribuição de pastas, a ANO fica com nove ministérios, incluindo a chefia do governo; os Motorists, quatro e o SPD três.
No discurso de posse, Petr Pavel prometeu vigiar de perto a forma como o novo executivo protege as instituições democráticas, apontando em particular à comunicação social, à justiça e às forças de segurança. O Presidente mencionou ainda preocupações com a liberdade de imprensa, perante planos de reforma da radiodifusão pública que preveem acabar com as taxas de licença e financiar o serviço através do Orçamento do Estado.
Pavel sublinhou ainda que as principais garantias económicas e de segurança do país dependem da pertença à UE e à NATO.