José Sena Goulão / LUSA

O candidato à Presidência da República, André Ventura

Os sindicatos eram “sanguessugas”. Depois apareceu um “talvez”. No dia da greve, já havia razões para descontentamento.

André Ventura estava contra a greve geral do dia 11 de Dezembro. Disse que os sindicatos são “sanguessugas”, porque não resolvem os problemas; disse que “não precisamos de uma greve geral” porque “uma paralisia (…) é um erro”.

Depois, num debate na Assembleia da República, comentou em frente a Luís Montenegro que “talvez não haja motivos para uma greve geral, mas há motivos para um descontentamento geral”.

Já no dia da greve, num debate com Jorge Pinto, disse: “A greve é legítima e há razões para um descontentamento generalizado nesta matéria e têm razão, mas podíamos ter evitado que acontecesse”.

Nesse momento, Jorge Pinto (Livre) até disse que André Ventura se podia juntar a um sindicato, ou ser mesmo líder da CGTP. “Bem-vindo, camarada Ventura, a esta luta” – na verdade, Ventura chegou a querer construir um sindicato a partir do próprio Chega.

Já na sexta-feira, o presidente do Chega anunciou que o seu partido, afinal, vai votar contra o novo pacote laboral. Isto se o Governo alterar ideias sobre despedimentos e parentalidade.

Repetindo outros exemplos, André Ventura defendeu uma ideia, depois suavizou essa ideia e no fim até acabou por contrariar o que tinha dito.

Nuno Gonçalo Poças salienta que o Chega “fica sem saber o que fazer em alguns temas”. E, por isso, haverá consequências: “Mais cedo ou mais tarde, estas coisas pagam-se, estas oscilações bastante contraditórias”.

Na rádio Observador, o advogado reforça que “não é possível ser a favor e contra o pacote laboral, e ser a favor e contra a greve geral”.

Olhando até para o percurso ideológico do Chega, Nuno lembra que o partido, no início, tinha um programa económico bastante liberal e, nos últimos anos, percebendo os eleitores, foi tendo alguma dificuldades em ser fiel a esse propósito; e “vai fazendo este tipo de fintas, para tentar beneficiar” disso. Ou seja, ganhar votos.

Mas fica o aviso: “Pelo menos do ponto de vista económico, o André Ventura, mais cedo ou mais tarde, vai ter alguma dificuldade em manter todo o eleitorado que já tem. Não é possível ser tudo e o seu contrário ao mesmo tempo, sem que as pessoas, a uma determinada altura, não notem isso”.

“Não se é de direita por se ser contra a cultura woke, só. Não se é direita por se defender uma imigração mais regulada, só”.

Nuno Gonçalo Poças considera que o líder do Chega não tem conseguido ser fiel a diversos princípios e valores. “Quando essas coisas se começam a notar, volta sempre aos mesmos temas para que se notem menos essas incoerências”.

Voltando ao pacote laboral, “ninguém sabe muito bem o que André Ventura quer fazer”.

E as convicções de um político “não podem depender de eleições”, reforça.

Numa fase em que o eleitorado do Chega é tão heterogéneo, “há-de haver eleitores insatisfeitos com este ou aquele tema. Pode haver um denominador comum que faça com que as pessoas não desistam do seu voto, e ignorem estas coisas – mas tenho as minhas dúvidas, porque é um erro tomar as pessoas por parvas o tempo todo. Inevitavelmente, Ventura vai acabar por sofrer consequências por causa disso”.


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