Um país está na lista para entrar na União Europeia, outro partilha fronteira com três Estados-membros, porém, tanto na Geórgia como na Bielorrússia a liberdade de imprensa continua sob ameaça e as restrições que ali se vivem, com centenas de presos políticos, devem ser o aviso para o resto da Europa não tomar como “dado adquirido” que a democracia é uma realidade inabalável.

A atribuição do Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento de 2025 aos jornalistas bielorrusso Andrzej Poczobut​ e georgiana Mzia Amaglobeli – ambos detidos nos seus países –, nesta terça-feira, no Parlamento Europeu, é uma forma de reconhecer a sua luta pela democracia mas também uma garantia de que o Parlamento Europeu “não vai esquecer nem vai abandonar [os presos políticos] até o tempo dos ditadores acabar”. A garantia foi deixada por Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu na entrega do prémio às representantes dos dois jornalistas, que deixaram aos eurodeputados o desafio de continuarem a defender os direitos humanos e a liberdade de imprensa mas também o aviso sobre os ataques que se vivem nos dois países e na Ucrânia.

“A nossa democracia europeia baseia-se na liberdade de pensamento e de expressão, que jamais abandonaremos. Nestes tempos incertos, devemos orgulhar-nos deste facto e não pedir desculpa por isso. Derramámos sangue por estes valores europeus, sabemos o quanto valem e nunca os abandonaremos”, vincou Metsola. Que garantiu que o Parlamento se “solidariza com Andrzej e Mzia na sua luta”, frisando o facto de serem “jornalistas que são presos apenas por fazerem o seu trabalho”. “Exigimos a sua libertação imediata, bem como a de todas as pessoas injustamente presas.” Congratulou-se com a libertação recente de 123 presos políticos na Bielorrússia, mas, num comprometimento colectivo, prometeu que o Parlamento “não descansará até que todos os outros injustamente presos sejam libertados” e “até que a era dos ditadores termine de vez”.


A jornalista georgiana directora de vários meios de comunicação independentes e defensora da minoria polaca Mzia Amaglobeli foi presa no início do ano na sequência de manifestações contra o Governo e cumpre uma pena de dois anos. Usando uma t-shirt onde se lia “Lutem antes que seja tarde de mais” sobre a foto de Mzia, a também jornalista Irma Dimitradze leu uma carta da laureada em que esta apela aos líderes europeus para que “usem todos os mecanismos disponíveis para pressionar os governantes autocráticos” e para que defendam a sociedade georgiana — a sua democracia e as suas aspirações europeias — “da mesma forma que defendem a liberdade dos seus próprios países”. Porque, avisa, é bom que todos tenham consciência de que “a força por trás dos horrores na Bielorrússia, na Ucrânia e na Geórgia está a aproximar-se do coração da Europa, e a dirigir-se para as suas casas. E nós somos apenas um obstáculo no seu caminho”.

Irma Dimitradze haveria de lembrar a travagem da Geórgia no processo de adesão, referindo lamentar que falte uma bandeira entre as dos 27 Estados-membros que se encontram no corredor principal do Parlamento.

Por seu turno, Jana Poczobu, filha do jornalista bielorrusso Andrzej Poczobut, preso em Março de 2021 e condenado a uma pena de oito anos devido a trabalhos de investigação na Gazeta Wyborcza sobre o regime de Aleksandr Lukashenko, contou que a família nem sabe sequer como ele está – “a minha família mudou para sempre” –, e fez questão de nomear outro preso político, Mikalai Statkevich, para lembrar que “quando pronunciamos estes nomes em voz alta, deixam de ser estatísticas.”

O prémio, vincou, é a prova de que, mesmo quando se prende e silencia alguém, “os seus princípios não podem ser apagados e a sua voz continua a falar através dos outros”. E a atenção que estes presos, na pessoa do pai, recebem “preserva a dignidade humana onde tudo o resto tenta apagá-la”.

Os nomeados para o prémio são escolhidos pelos diversos grupos políticos do Parlamento – os dois jornalistas, que receberão 50 mil euros, foram propostos pelo PPE. Os outros finalistas foram os estudantes sérvios, o Crescente Vermelho, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) e o Sindicato dos Jornalistas Palestinianos, representando jornalistas e trabalhadores humanitários.