“Haverá duas sem três?”, perguntou Marcelo Rebelo de Sousa, esta terça-feira, num auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. O Presidente da República referia-se a José Manuel Durão Barroso — que foi primeiro-ministro português (2002-04) e presidente da Comissão Europeia (2004-14) —, no que teve tudo de uma alusão implícita à candidatura presidencial que não surgiu para as eleições de 18 de janeiro de 2026. Defende Marcelo que era bom que houvesse o tal “três”, pelo qual vale a pena “esperar dez anos”. Ou seja, que Durão se apresentasse a votos em 2036, ano em que fará 80 anos.
Marcelo falou para encerrar a apresentação do livro “O Divórcio das Nações”, do embaixador jubilado João Vale de Almeida, que foi chefe de gabinete de Durão Barroso em Bruxelas e, em seguida, embaixador da União Europeia (UE) nas Nações Unidas (ONU), nos Estados Unidos da América (EUA) e no Reino Unido. Durão abrira a sessão defendendo que a EU deve crescer. “O alargamento não prejudica o aprofundamento”, afirmou, num esforço por dar pistas sobre como contrariar o problema diagnosticado no título da obra, que tem por subtítulo “o colapso da ordem mundial visto por dentro”.
José Fonseca Fernandes
Durão recordou que muitos lhe diziam há 21 anos, aquando do grande alargamento da UE, que era impossível esta expandir-se de 15 para 25 membros. Frisou que Vale de Almeida foi o primeiro representante da UE em Londres após o ‘Brexit’ e que foi difícil os britânicos aceitarem que tivesse o estatuto de embaixador, por a UE não ser um Estado.
O ex-governante falou ainda da Rússia, que estava mais próxima do Ocidente nos tempos em que presidiu à Comissão. Sobre Vladimir Putin, afirmou que “a arrogância é sempre uma forma de estupidez”, recordando contactos passados, inclusive sobre a invasão da Ucrânia. “Não me digam que é inteligente quem diz que a Rússia podia tomar Kiev em duas semanas”, frisou. Relatou também como o Presidente russo se mostrava, frequentemente, ressentido e frustrado.
O autor do livro, em conversa com a jornalista Maria João Avillez, admitiu que o Ocidente poderia ter feito mais por manter a Rússia na sua proximidade política antes de 2014, ano da anexação ilegal da Crimeia. “As nossas economias são complementares”, afirmou. “Se tivéssemos aplicado o modelo da UE à relação com a Rússia, talvez pudéssemos ter obtido outro resultado.”
O diplomata referiu-se em seguida a alguma “húbris” dos EUA após a vitória na Guerra Fria, nos anos 90, quando Moscovo viveu um breve período relativamente democrático, mas também de “grande trauma”. Tal “húbris” contrasta com a reação do Presidente Barack Obama à tomada da Crimeia, que Vale de Almeida achou “frouxa”. Como premissa, asseverou que “nada justifica o que Putin está a fazer à Ucrânia”. A este propósito, Durão defendera a insuficiência do Ocidente num mundo globalizado, lembrando que na UE fez por convencer George W. Bush, Presidente dos EUA, de que era preciso trazer para o então G8 países como a China, a Índia, o Brasil ou a Arábia Saudita.