Não foi propriamente uma surpresa, mas acabou por ter uma dimensão inesperada. Esta segunda-feira, na sequência da eliminação do Cruzeiro nas meias-finais da Taça do Brasil, Leonardo Jardim anunciou que vai deixar o clube brasileiro e realizar uma pausa na carreira de treinador.

Depois da eliminação deste domingo contra o Corinthians, na decisão por grandes penalidades e após o terceiro lugar no Brasileirão a nove pontos do campeão Flamengo e ainda atrás do Palmeiras, o técnico português convocou uma conferência de imprensa para a manhã desta segunda-feira. Se é certo que Leonardo Jardim tinha contrato até ao fim de 2026, a verdade é que a imprensa brasileira já tinha indicado nos últimos dias que o treinador podia mesmo acabar por sair um ano antes.

Cenário que agora se verificou, ainda que por motivos algo inesperados — e muito relacionados com a saúde mental do técnico português. “Estes momentos nunca são fáceis, mas temos de ser racionais. Em fevereiro, quando vi para cá, tinha passado 45 dias em viagem e hospital com a minha esposa e sem tempo para nada. Dois dias depois de ela sair do hospital vim para o Cruzeiro. Vim para dar o meu melhor, dediquei-me a 100% a todos os níveis. Saio por motivos muito pessoais. O desgaste de todo este ano, não só desportivo como pessoal. Alguns sinais alertaram-me: ‘Jardim, pára um pouco, pela tua saúde física e mental’. Não é a primeira vez que o faço. Após seis anos no Mónaco também estive ano e meio a refletir sobre a vida. E como não estou disponível a 100% decidi sair, porque não se pode representar o Cruzeiro em ‘part-time’”, começou por dizer.

Mais à frente, Leonardo Jardim garantiu que não decidiu sair devido à eliminação na Taça do Brasil ou ao terceiro lugar no Brasileirão. “Fui claro em relação aos motivos, do desgaste acumulado. Estive três anos e meio no Médio Oriente, não estando a 100% para representar este escudo não sirvo para o clube. Mas estou sempre disponível para dar conselhos se precisarem e me pedirem”, acrescentou.

“No início era mais rígido, queria controlar tudo.” Leonardo Jardim e a liderança democrática em que nem só o treinador manda

O acionista maioritário do Cruzeiro, que também marcou presença na conferência de imprensa ao lado do treinador, deixou a porta aberta a um regresso. “Não pediu nada, nem reajuste de dinheiro para ficar, é uma necessidade pessoal dele. Deixo aqui expressa toda a nossa gratidão pelo que ele fez aqui, sempre nos ajudou. Ele trabalha pela instituição, deixa-nos uma grande lição. Estes 10 meses em que cá esteve valem 10 anos de aprendizagem para mim. Esperamos que um dia você volte”, vincou Pedro Lourenço.

Leonardo Jardim estava no Cruzeiro desde fevereiro, altura em que decidiu deixar o Al Ain dos Emirados Árabes Unidos para abraçar o desafio no clube brasileiro. Com 51 anos, o treinador madeirense já passou anteriormente por Camacha, Desp. Chaves, Beira-Mar, Sp. Braga, Olympiacos, Sporting, Mónaco, Al Hilal, Al Ahli e Al Rayyan, tendo sido campeão na Grécia, em França e nos EAU, conquistando ainda a Liga dos Campeões asiática.