Luís Montenegro aproveitou o jantar de Natal organizado pelo grupo parlamentar do PSD para fazer uma espécie de balanço sobre o último ano político, que começou com uma crise política que o derrubou, eleições legislativas que o reforçaram, umas autárquicas que o consagraram e uma greve geral que serviu como primeiro cartão amarelado ao Governo. Por entre muitas garantias de que o Governo e o partido não estão desfasados da realidade, o presidente do PSD não deixou de atirar diretamente à oposição, em particular ao PS: “Não querem aprender com aquilo que o povo lhes disse. E têm o desplante de dizer que os arrogantes somos nós”.
Falando na terceira pessoa, e respondendo àqueles que dizem que o “homem já está entusiasmado e inebriado” e numa referência clara às críticas que tem sofrido nas últimas semanas, Montenegro reforçou o recado: “Tenham calma. Estamos firmes e seguros. Sabemos o chão que pisámos. Mas temos consciência da realidade: não podem tirar-nos o brilho e o gosto do reconhecimento. Estavam à espera de quê? Que ficássemos triste por termos ganho? O povo está com o PSD e com este Governo”, insistiu o primeiro-ministro.
Visando, sem nunca nomear, Bloco de Esquerda, PCP e, sobretudo, PS, Montenegro pediu firmeza à família social-democrata. “Os portugueses não acham nada aquilo que eles acham. Não se deixem condicionar. Não são esses que representam a vontade maioritária do povo”, provocou o primeiro-ministro, que aproveitou a oportunidade para responder a todos aqueles que o acusaram de usar um aumento considerado irrealista do salário mínimo para travar a greve geral.
“Não tinha nada que ver com isso. Não tinha mesmo“, insistiu Luís Montenegro, reforçando, pela segunda vez no discurso, que o objetivo de aumentar o salário mínimo para 1.600 euros e o médio para 3 mil é perfeitamente alcançável. “Temos mesmo de incutir esta cultura de irmos mais longe, de ganharmos. Não precisamos de ficar no rame-rame, de jogar para o empate.”
Projetando a próxima legislatura, e mesmo sendo um governo minoritário que está em muito dependente do que fará o PS no próximo Orçamento do Estado — o Chega chumbou o primeiro —, Luís Montenegro pediu aos deputados e aos governantes presentes no jantar para pensarem a quatro anos. “Abram o vosso horizonte [até] 2029. São os anos desta legislatura. Uma oportunidade de ouro para podermos catapultar Portugal para um ciclo virtuoso de prosperidade. Uma oportunidade a que já não estamos habituados há muito tempo: tempos de normalidade mínima há muito tempo.”
Já a terminar o discurso, Montenegro falou abertamente sobre as presidenciais, não apenas para defender Luís Marques Mendes (“Mostrou ser de longe o mais preparado candidato a Presidente da República”), mas também para responder à tese dos ‘ovos todos no mesmo cesto‘. Referindo-se a Cavaco Silva mas também a Marcelo e a Marques Mendes — o primeiro, na dupla qualidade de comentador-Presidente; o segundo, na condição de comentador-candidato — Montenegro defendeu à independência dos três.
“Se há quem sofreu domingo após domingo fomos nós. [Os nossos Presidentes] têm o condão de exercer com altos critérios de independência. E nunca nenhuma antigo presidente do PSD que foi Presidente da República fez serviços ao PSD”, rematou Luís Montenegro.