Na capa da primeira edição da Time França, a atriz Angelina Jolie aparece vestindo uma camisola de malha com um decote que permite ver a mão que cobre uma mama. A fotografia tem um objetivo: colocar o foco na mastectomia preventiva que fez em 2013. As fotografias das cicatrizes da intervenção acompanharão a entrevista completa, que chegará às bancas esta quinta-feira. “Partilho estas cicatrizes com muitas mulheres que amo e fico sempre emocionada quando vejo outras mulheres a partilharem as suas”, revela no excerto publicado pela revista.

Aos 37 anos, depois de ter descoberto ser portadora de uma alteração no gene BRCA1, a atriz de Hollywood foi submetida a uma dupla mastectomia preventiva, ou seja, à remoção das duas mamas. A mutação do gene BRCA, que afeta cerca de uma em cada 400 mulheres, aumenta exponencialmente a probabilidade de se desenvolver um tumor maligno na mama ou nos ovários. De acordo com dados do Instituto Nacional norte-americano do Cancro, se cerca de 2% de todas as mulheres desenvolverão cancro dos ovários, entre aquelas com o gene BRCA1, o risco sobe para valores entre os 40 e 60%.

No artigo que assinou para o New York Times em 2013, com o nome “A Minha Escolha Médica”, a mãe de seis filhos explicava que embora a decisão de fazer a cirurgia não tivesse sido fácil, estava feliz de a ter tomado: “Posso dizer aos meus filhos que não precisam de ter medo de me perderem devido ao cancro da mama”.

Mais tarde, em março de 2015, Jolie escreveu um segundo texto para o jornal norte-americano. No seu “Diário de Cirurgia”, falou sobre ter também removido os ovários. “O que há de belo nestes momentos da vida é que há tanta clareza. Sabes para que o vives e o que importa. É polarizador e é tranquilizante”, lê-se no artigo. No caso da atriz, havia ainda o histórico familiar. A mãe de Jolie morreu de cancro nos ovários aos 56 anos, bem como a avó e a tia.

A mutação do BRCA1 ficou conhecido pelo “gene Jolie”, devido à campanha de sensibilização promovida pela atriz e fundadora da Kids in Need of Defense (KIND), da Fundação Maddox e do Atelier Jolie, que trabalhou por mais de duas décadas para o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). À época das revelações da atriz, a Time americana cunhou o que considerou ser o “efeito Angelina” no aumento das pesquisas na internet relacionadas com a genética do cancro da mama e o aconselhamento genético. Um estudo internacional publicado em 2018 concluiu que o artigo de opinião de Jolie no New York Times conduziu a um aumento significativo da adesão aos testes genéticos e à mastectomia bilateral redutora de risco, entre mulheres norte-americanas.

Na mais recente entrevista da Time França, em que fala sobre a sua vida, com os filhos e o compromisso humanitário que assume, o tema da saúda da mama é também ele central. “Eu quis juntar-me, sabendo que a Time França iria partilhar informações sobre saúde mamária, prevenção e conhecimentos sobre o cancro da mama”, explicou a atriz norte-americana à publicação.

Considerando que “conhecimento é poder”, Jolie aborda as dimensões económica e social de uma doença com diferentes faces para mulheres de diferentes contextos. “Os testes genéticos e os rastreios devem ser acessíveis e económicos para mulheres com fatores de risco evidentes ou um historial familiar significativo”, defende, explicando que esse proessos permite que as mulheres possam “determinar o seu próprio percurso de cuidados de saúde e ter acesso às informações necessárias para fazer escolhas informadas”.

No próximo filme da norte-americana, com data de estreia marcada para o início do próximo ano em França, a atriz fará o papel de uma realizadora de cinema americana confrontada com o diagnóstico de um cancro de mama. Sobre a película de Alice Winocour, Couture, Angelina Jolie considera-a uma “história muito pessoal”. “Muitas vezes, os filmes sobre as lutas das mulheres — especialmente contra o cancro — falam sobre finais e tristeza, raramente sobre a vida. A Alice fez um filme sobre a vida, e é justamente por isso que os temas sensíveis que aborda são tratados com tanta delicadeza”, explica no excerto disponível da entrevista.

“A minha mãe ficou doente durante anos. Certa noite, quando lhe fizeram perguntas sobre a quimioterapia, ela ficou muito emocionada e disse-me que preferia ter falado sobre outra coisa; ela sentia como se a doença se tivesse tornado toda a sua identidade. Adoro este filme porque conta uma história que vai muito além da jornada de uma pessoa doente: mostra a vida“, explica Jolie.

*Texto editado por Cátia Andrea Costa