Guy Pool / Wikipedia

Submarino russo da class Kilo fotografado no Canal da Mancha, ao largo da costa do Reino Unido

Kiev garante que um novo drone submarino danificou para lá de qualquer reparação um submarino russo da classe Kilo na base de Novorossiysk, abrindo um novo capítulo na guerra naval entre os dois países.

Drones submarinos atacaram um submarino pela primeira vez na história, assinalando um marco na evolução da guerra naval e abrindo mais um capítulo num futuro dominado por unidades não tripuladas.

Segundo os serviços de informações de Kiev, os novos drones subaquáticos Sub Sea Baby, da Marinha ucraniana, atingiram e inutilizaram um submarino russo de última geração da classe Kilo na base de Novorossiysk, no Mar Negro.

A embarcação. com um custo avaliado em mais de 340 milhões de euros, foi destruído por um drone kamikaze cujo custo não ultrapassa os 10 mil euros, salienta o El Confidencial.

O ataque, conduzido pelo Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), e que os russos negam, apesar do vídeo divulgado por Kiev, terá deixado o submarino da Marinha russa fora de serviço, ao provocar danos vitais na popa do navio, tornando-o inutilizável.

Este submarino é capaz de transportar mísseis de cruzeiro Kalibr, um elemento-chave na campanha de terror contra a população civil ucraniana, orquestrada pelo ditador russo Vladimir Putin.

Segundo analistas do Naval News, esta operação não é apenas histórica: representa também uma viragem relevante no conflito naval entre Ucrânia e Rússia, com consequências no teatro do Mediterrâneo e para lá dele.

Os detalhes técnicos da operação, analisados por especialistas em defesa naval, indicam que a Ucrânia recorreu a um veículo subaquático não tripulado (UUV), batizado “Sub Sea Baby”.

Ao contrário dos drones de superfície, que navegam como lanchas rápidas, este dispositivo consegue manter-se submerso na fase final de aproximação, funcionando, na prática, como um torpedo autónomo de longo alcance.

Essa capacidade de imersão foi decisiva para contornar as defesas do porto de Novorossiysk, concebidas sobretudo com pontões flutuantes para bloquear a passagem de embarcações de superfície, mas ineficazes face a ameaças que se deslocam debaixo de água.

Navegar no interior de uma base naval hostil é um desafio de engenharia enorme. O drone terá tido de manobrar por espaços confinados e executar várias curvas com precisão para alcançar o cais dos submarinos, situado no ponto mais distante da doca.

Os analistas sugerem que o aparelho foi guiado por pontos de passagem (waypoints) até às imediações do alvo, momento em que os seus sistemas autónomos assumiram o controlo para o ataque final.

O vídeo divulgado pelo SBU mostra uma explosão massiva na popa do submarino, uma zona crítica onde se encontram a propulsão e os planos de imersão — o que garante que o navio ficará inoperacional durante um longo período, mesmo que não chegue a afundar por completo.

 

O enquadramento estratégico deste ataque insere-se numa nova escalada da guerra económica e de infra-estruturas no Mar Negro. Nas semanas anteriores, a Ucrânia tinha intensificado as operações contra a “frota sombra” de petroleiros russos, inutilizando embarcações como o Virat, o Kiaros e o Dashan, com o objectivo de interromper o contrabando de crude.

A Rússia respondeu bombardeando navios comerciais no porto de Odessa, incluindo o ferry turco Cenk T, carregado de alimentos.

O golpe no submarino em Novorossiysk é interpretado como uma retaliação calculada: eliminar uma plataforma de lançamento de mísseis Kalibr que ameaçava a infra-estrutura energética ucraniana.

Os mísseis Kalibr têm sido utilizados de forma repetida por Moscovo em ataques de longo alcance contra a Ucrânia, incluindo ataques a infraestruturas civis e instalações energéticas, nota a Euronews.

O impacto na frota russa do Mar Negro é devastador, tanto em termos de números como de moral. Com este ataque, a Rússia vê a sua força operacional de submarinos na região reduzida a apenas duas unidades, das seis originais.

Recorde-se que outro submarino da mesma classe, o Rostov-on-Don, foi destruído em Setembro de 2023, quando se encontrava em doca seca em Sebastopol.

A perda destas unidades não só enfraquece o bloqueio naval contra a Ucrânia, como corrói, a longo prazo, a capacidade de projeção de poder de Moscovo no Mediterrâneo, onde estes submarinos costumavam patrulhar como instrumentos de dissuasão.

Um aspecto inquietante exposto pelo ataque é a capacidade de penetração da inteligência ucraniana nos sistemas de vigilância russos.

O vídeo do impacto parece ter origem numa câmara de segurança do próprio porto, o que sugere que o SBU conseguiu piratear o circuito fechado de televisão da base naval para monitorizar a actividade inimiga em tempo real.

As imagens mostram navios de guerra assinalados com caixas verdes, indicando a utilização de algoritmos de inteligência artificial para identificar alvos — uma capacidade que levanta dúvidas sérias sobre a segurança operacional das instalações militares russas mais protegidas.

A vulnerabilidade exposta em Novorossiysk obriga a frota russa a repensar, uma vez mais, o seu dispositivo. Se a sua base principal na costa oriental do Mar Negro já não é segura, as opções passam a ser portos ainda mais distantes e pior apetrechados, como Sochi ou Poti, na Abcásia.

No entanto, estas localizações carecem da infra-estrutura necessária para sustentar operações de combate contínuas, o que, na prática, poderá deixar a Frota do Mar Negro “manca” e funcionalmente ineficaz para influenciar o rumo da guerra.


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