As declarações da atriz Gloria Pires sobre o exame papanicolau geraram forte repercussão nas redes sociais e provocaram reações de profissionais da saúde e de instituições médicas. A fala foi feita durante entrevista ao programa Na Palma da Mari, da CNN, na qual a atriz levantou questionamentos sobre o fato de alguns exames médicos ainda serem dolorosos para as mulheres.
Durante a conversa, a artista afirmou que, em sua avaliação, a medicina não acompanhou a evolução necessária no cuidado com a saúde feminina. “Hoje, em 2025, a gente ainda ter que passar por aquele tremendo desconforto que é o tal do exame papanicolau? Aquilo tem fundamento? Numa era em que o povo está saindo do planeta, a gente ainda sofre com aquilo. É um negócio de tortura aquilo”, declarou a atriz.
A fala dividiu opiniões e foi duramente criticada por profissionais da área. A ginecologista Ana Comin usou suas redes sociais para rebater as declarações. “Custo a acreditar que mulheres dessa idade estejam falando, em rede nacional, tanta besteira. Poderiam ter estudado um pouco antes de ir a esse programa. Para descobrir um tipo de câncer, tem algum método no universo que seja diferente de obtenção celular? Resposta: não. Por que seria diferente com colo?”, afirmou.
A médica ainda questionou a expectativa de conforto em exames médicos. “Qual exame que se faz que é prazeroso? Exames não são para dar prazer. Remédios não são para ser gostosos. São para curar. Ah, e mais uma coisa: estude o WHI [Iniciativa para a Saúde da Mulher, na sigla em inglês] antes de abrir a boca. Veja como se move a indústria farmacêutica, a mesma com que vocês ganham dinheiro fazendo propaganda. Vocês famosas ajudaram nessa zona que está a medicina. Zona porque pessoas que nunca passaram num vestibular de medicina vão dar palpites na TV. Estudem antes de abrir a boca ou falem daquilo que entendem. Fez teatro? Fale de teatro. Pergunte sobre o que não te compete que passará menos vergonha”, completou.
Diante da repercussão, o A.C.Camargo Cancer Center, um dos hospitais referência no tratamento oncológico, divulgou um posicionamento reforçando a importância do exame de Papanicolau como uma das principais estratégias de rastreamento e diagnóstico precoce de alterações no colo do útero, incluindo o câncer do colo do útero, atualmente o terceiro tipo mais comum entre mulheres no Brasil. Segundo a instituição, são estimados cerca de 17 mil novos casos e aproximadamente 7 mil mortes por ano no país, apesar de se tratar de uma doença amplamente evitável por meio de medidas adequadas de prevenção.
O centro oncológico destaca ainda que, anualmente, cerca de 30 mil mulheres recebem o diagnóstico de algum tipo de câncer ginecológico no Brasil. “Entre 2000 e 2020, mais de 5 mil pacientes com tumores ginecológicos foram tratadas no A.C.Camargo, experiência que, segundo a instituição, reforça que a coleta citopatológica permanece como uma ferramenta segura, eficaz e fundamental para o rastreamento de lesões precursoras e de determinados tipos de câncer ginecológicos,” destacou o centro em nota.
Embora reconheça que o exame possa ser percebido como desconfortável, o A.C.Camargo ressalta que ele desempenha papel central na detecção precoce de alterações que, quando identificadas em estágios iniciais, apresentam altas taxas de cura e reduzem a necessidade de tratamentos mais agressivos no futuro. “Observamos que a hesitação em relação à realização de exames ginecológicos e à vacinação contra o HPV pode impactar negativamente os esforços de prevenção do câncer do colo do útero. Informar a população com base em evidências científicas é essencial para que as mulheres possam tomar decisões conscientes sobre sua saúde”, afirmou a médica oncologista Andrea Paiva Gadelha Guimarães, vice-líder do Centro de Referência em Tumores Ginecológicos da instituição.