A probabilidade de a Rússia lançar um ataque militar direto contra o Reino Unido é atualmente estimada em cerca de 5%. Trata-se de um cenário remoto, mas não impossível, e que poderá tornar-se mais plausível nos próximos anos. Perante este risco, os cidadãos britânicos devem estar preparados para “construir, servir o país e, se necessário, lutar”, avisou o comandante-em-chefe das Forças Armadas britânicas, Richard Knighton.

A declaração foi feita na noite desta segunda-feira e dirigida à sociedade no seu conjunto, incluindo “filhos e filhas, colegas e veteranos”, sublinhando que “todos têm um papel a desempenhar”. Segundo Knighton, mais famílias britânicas poderão vir a compreender “o que significa sacrificar-se pela nação”, numa mensagem citada pelo ‘El Mundo’.

O alerta assume particular relevância por surgir após advertências semelhantes do chefe dos serviços de informações britânicos, do comandante das Forças Armadas francesas, do secretário-geral da NATO e do chefe militar da Aliança Atlântica. A repetição destas mensagens, segundo responsáveis militares, não é coincidência.

O contexto político recente reforça essas preocupações. Nathan Gill, antigo dirigente do partido ultranacionalista Reform UK, que lidera atualmente as sondagens de intenção de voto no Reino Unido, iniciou o cumprimento de uma pena de 10 anos de prisão por ter recebido “dezenas de milhares” de libras da Rússia em troca de declarações públicas favoráveis a Moscovo, incluindo intervenções no Parlamento Europeu, do qual foi membro. Para a nova diretora do MI6, Blaise Metreweli, que falou publicamente pela primeira vez desde que assumiu funções em setembro, a “linha da frente está em todo o lado”.

Revisão das regras eleitorais e interferência estrangeira

Esta terça-feira, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou uma revisão das regras sobre donativos eleitorais, com o objetivo de travar a interferência estrangeira. Entre as medidas em análise está a proibição de contribuições em criptomoedas, consideradas difíceis de rastrear e frequentemente utilizadas por redes criminosas e por Estados estrangeiros. Nigel Farage, fundador e líder do Reform UK, reconheceu que as criptomoedas constituem uma das principais fontes de financiamento do partido.

Knighton foi particularmente direto na sua avaliação do momento estratégico. “A situação é mais perigosa do que em qualquer outro momento da minha carreira”, afirmou. Tendo ingressado nas Forças Armadas há 37 anos, o marechal considera que o atual contexto é mais arriscado do que o período pós-11 de Setembro, o final da Guerra Fria, os conflitos nos Balcãs nos anos 1990 ou a vaga de atentados do Estado Islâmico em meados da última década.

Mobilização nacional e incerteza estratégica

O discurso foi proferido num palco de forte simbolismo: a Conferência Anual de Defesa no think tank ‘RUSI’, um dos fóruns mais influentes do setor da segurança no Reino Unido. Para além de falar para o establishment militar e político, Knighton procurou enviar uma mensagem clara à sociedade britânica: uma força armada profissional, por si só, pode não ser suficiente para garantir a defesa do país. “Isto não é a Guerra do Iraque”, afirmou, defendendo a necessidade de algum grau de mobilização nacional.

Mesmo um eventual acordo de paz estável na Ucrânia não afastaria estes receios. Knighton alertou que a Rússia dispõe de um exército numeroso, tecnologicamente mais sofisticado e com experiência recente de combate. Acrescentou ainda a incerteza gerada pela estratégia dos EUA, que têm vindo a reduzir o seu envolvimento direto na Europa.

Nesse contexto, a NATO prevê entregar à Ucrânia equipamento militar adquirido aos Estados Unidos no valor de 4,25 mil milhões de euros, após a decisão de Washington de deixar de fornecer diretamente armas a Kiev.

Europa perante um horizonte mais duro

As mensagens do chefe das Forças Armadas e da diretora do MI6 foram proferidas no mesmo dia, coincidência que não passou despercebida. Também não são isoladas as advertências de responsáveis militares europeus. Há dois meses, o chefe do Estado-Maior francês admitiu que a Rússia poderia estar em condições de lançar uma guerra contra a Europa dentro de “três ou quatro anos”.

Em novembro, o comandante militar da NATO afirmou que a aliança não exclui ações diretas contra bases russas usadas para lançar drones contra território europeu. Outros responsáveis admitem mesmo a possibilidade de um conflito direto entre a NATO e a Rússia, incluindo o risco de utilização de armas nucleares por Moscovo.

Para o Reino Unido e o resto da Europa, o cenário é agravado pela perceção de um progressivo afastamento dos Estados Unidos. Segundo informações citadas pelo El Mundo, o Departamento de Defesa americano pondera fundir vários comandos regionais, o que reduziria o peso estratégico da Europa, incluindo em África, onde a Rússia tem reforçado a sua influência em países como o Mali, o Burkina Faso e o Níger.