Mas dois eventos no Médio Oriente nos últimos anos deram algum espaço ao Estado Islâmico para se reorganizar. Por um lado, o EI beneficiou do conflito na Faixa de Gaza. O Institute for the Study War (ISW) salientou, logo a seguir ao início da ofensiva israelita no enclave palestiniano, que os grupos alinhados com o Irão, com foco para o Hezbollah, tinham retirado de partes da Síria para se reposicionarem junto à fronteira com Israel de forma a pressionar Telavive. Esta retirada dos grupos muçulmanos xiitas da Síria abriu espaço ao novo crescimento do Estado Islâmico e outros grupos sunitas, escrevia o analista do Médio Oriente Ali Rizk, no final do ano passado, com base no relatório do ISW.

Semanas depois dessa análise, o Médio Oriente protagonizou um nova mudança: a queda do regime de Bashar al-Assad. Ao longo do último ano, o cargo de Presidente foi ocupado por Ahmed al-Sharaa, um antigo combatente de Al-Qaeda, que liderou a ofensiva contra Assad. Apesar das suas ligações ao extremismo islâmico, a liderança de Al-Sharaa foi marcada por uma abertura ao Ocidente, numa tentativa de levantar as pesadas sanções aplicadas sobre a Síria e começar a reconstrução do país, destruído devido a mais de dez anos de guerra civil.

Contudo, esta abertura não foi bem vista pelas fações mais extremistas de combatentes sírios. “O novo Presidente sírio está a caminhar num terreno difícil porque muitos jihadistas não estão satisfeitos com a sua atuação — de um modo geral, há um sentimento de um ressurgimento islâmico”, argumentou Antonio Giustozzi, analista no Royal United Services Institute, ao The Telegraph. O jornal britânico chega mesmo a apontar que alguns extremistas acusam Al-Sharaa de ser um agente israelita, colocado no poder por Telavive. A emboscada do EI a soldados norte-americanos em Palmira, na Síria, que matou três pessoas (incluindo dois soldados) e feriu outras três, na semana passada, é um reflexo desta reorganização do Estado Islâmico na Síria.

Existe, na tradição islâmica, uma história sobre o cerco de Medina. Durante a batalha, as mulheres foram levadas para um local seguro na cidade, mas um homem trepou as muralhas e aproximou-se das mulheres muçulmanas para as atacar. Safiyya bint Abdulmutalib, tia do profeta Maomé, cortou a cabeça ao homem e atirou-a contra os guerreiros inimigos, escreve o jornalista e académico Hassan Hassan. Na história, o homem que queria atacar mulheres muçulmanas é judeu.

Apesar desta caracterização de um homem judeu, a história do cerco de Medina não é utilizada por fundamentalistas islâmicos para justificar atitudes antissemitas, mas antes para defender a utilização da decapitação como tática de guerra. Aliás, como explica Hassan num artigo de 2016, o EI tem uma “ideologia híbrida”, focada muito mais no sectarismo islâmico. “O Estado Islâmico promove uma ideologia política e uma visão do mundo que classifica e excomunga ativamente os pares muçulmanos“, elabora o autor, notando que essa ideologia é sustentada por eventos históricos e por contextos políticos que dividem as diferentes vertentes do Islão.