Foi uma avalanche discursiva de 20 minutos com muitas alegações e poucos factos. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dirigiu-se nesta madrugada aos norte-americanos para fazer a defesa dos primeiros 11 meses do seu segundo mandato, atirando para o antecessor democrata, Joe Biden, a responsabilidade por indicadores económicos negativos e reivindicando para si diversos feitos. “Há 11 meses, herdei uma confusão. E estou a resolvê-la”, declarou o republicano, lançando-se de seguida numa repescagem de várias alegações já conhecidas, com especial foco na economia, tema que mais tem penalizado a sua taxa de aprovação, actualmente abaixo dos 40%.
Trump afirmou que os EUA têm hoje mais gente a trabalhar do que em qualquer outro momento da sua história, apesar de a taxa de desemprego ter subido em Novembro para o valor mais elevado dos últimos quatro anos (4,6%) e de, na semana passada, o chairman da Reserva Federal, Jerome Powell, ter alertado que as estatísticas oficiais estão a inflacionar os números reais do emprego. O Presidente republicano alegou depois que “100%” dos novos postos de trabalhos criados este ano foram para cidadãos norte-americanos – um valor implausível, mesmo com as crescentes restrições à imigração. Disse ter controlado a inflação, quando esta permanece acima do objectivo da Reserva Federal, e exagerou a descida do preço da gasolina, dos alimentos e dos medicamentos (destes últimos, referiu quebras superiores a 100%, uma impossibilidade matemática).
Disse ter captado 18 biliões de dólares em investimento, o dobro do valor indicado pela própria Casa Branca, que já inclui diversas promessas de investimento de países e empresas estrangeiras ainda por confirmar e concretizar. Apontou a reindustrialização do país, em resultado da aplicação de taxas aduaneiras, apesar de diversos indicadores de actividade industrial, incluindo os números de construção de novas fábricas, estarem na verdade em queda.
O Presidente norte-americano deixou ainda várias promessas: um cheque de 1776 dólares (o número alude ao ano da independência norte-americana) para os membros das Forças Armadas a tempo do Natal, a que chamou o “dividendo do guerreiro”, e outro de 2000 dólares para todas as famílias, fora as mais abastadas, mas sem se comprometer com uma data. Deixou outra promessa vaga de resolução do problema dos seguros de saúde, cujos subsídios federais vão extinguir-se no final do ano por decisão da maioria republicana no Congresso, deixando milhões de norte-americanos sem possibilidade de pagar o acesso a cuidados de saúde ou a ver a sua despesa subir entre centenas e milhares de dólares por mês. Trump responsabiliza o Partido Democrata e as seguradoras pela crise na saúde.
Também prometeu “algumas das mais agressivas reformas da habitação da história americana”, sem as detalhar. Mas disse que menos imigrantes no país significariam “mais casas”, tal como “mais empregos para os americanos”, alegando que a Administração Biden deixou entrar “milhões de imigrantes ilegais” no país para lhes dar “casas pagas pelos contribuintes” e “cuidados de saúde grátis”, e que “todo o saldo de criação de emprego ia para imigrantes” durante a governação democrata.
Noutra notícia saída do discurso na Sala Oval, Trump disse que anunciará em breve a sua escolha para a liderança da Reserva Federal: “alguém que acredita muito em taxas de juro baixas”. Os receios de interferência do Governo no banco central norte-americano têm alimentado alguma instabilidade nos mercados financeiros.
Venezuela sem novidades
O que não se ouviu na comunicação desta noite foi uma muito especulada declaração de guerra à Venezuela que o comentador conservador Tucker Carlson tinha pré-anunciado horas antes no podcast de Andrew Napolitano, citando supostas fontes do Congresso. A previsão, apesar de citada pela imprensa estrangeira, teve pouco eco nos jornais norte-americanos, e a Casa Branca tinha indicado esta noite que Trump falaria apenas dos seus primeiros 11 meses de mandato e de algumas promessas para o arranque de 2026.
A especulação assentava na rápida escalada de tensão dos últimos dias. Na terça-feira, Nicolás Maduro ordenou à Marinha venezuelana a escolta dos navios petroleiros saídos dos portos do país em direcção aos seus principais mercados, com a China à cabeça. Na madrugada de terça para quarta, e segundo o New York Times, um primeiro grupo de petroleiros saídos de Porto José rumo à Ásia começou a ser acompanhado pelas forças venezuelanas. Nenhuma das embarcações em causa pertencerá ao conjunto de petroleiros alvo de sanções norte-americanas.
A ordem de Maduro respondia a outra, por parte de Trump, proferida no mesmo dia, de um bloqueio naval à Venezuela, e acontece uma semana depois de as forças norte-americanas terem abordado e arrestado um petroleiro venezuelano, numa acção que Caracas qualificou de “pirataria internacional”.
Trump já não esconde a intenção de controlar as reservas petrolíferas venezuelanas, consideradas as maiores do mundo. “Tiraram-nos os nossos direitos. Tínhamos muito petróleo ali. Expulsaram as nossas empresas e queremo-las de volta”, declarou o Presidente norte-americano na quarta-feira. A declaração segue-se a iniciativas de bastidores, fracassadas, para a reabertura dos campos petrolíferos venezuelanos a empresas dos EUA. “A verdade foi revelada”, reagiu Maduro às declarações do Presidente norte-americano sobre o acesso ao petróleo venezuelano.
A nova fase do conflito segue-se a sucessivos passos dados, sob diferentes pretextos, pela Administração Trump. Desde Setembro, as Forças Armadas norte-americanas bombardearam mais de 20 embarcações que consideraram suspeitas de tráfico de droga no Mar das Caraíbas e no Pacífico Oriental, vitimando cerca de 90 pessoas. Washington acusa o regime venezuelano de envolvimento com grupos de narcotraficantes.
Esta semana, Trump designou o fentanil como uma “arma de destruição maciça”. Contudo, a produção e comércio internacional desta substância ilícita, no centro de uma grave crise de toxicodependência nos EUA, não passam pela Venezuela. É sobretudo o México a ser apontado como há anos pelas polícias internacionais como grande centro de produção e distribuição do fentanil na América do Norte, com a China e o Sudeste Asiático a serem vistos como principais fontes dos componentes daquela droga.
Esta quarta-feira, em que Maduro esteve em contacto telefónico com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a Venezuela pediu uma reunião de urgência do Conselho de Segurança para debater a “agressão continuada” dos EUA, enquanto a Presidente do México, Claudia Sheinbaum, exortou a ONU a “prevenir o derramamento de sangue” na região, criticando a “ausência” da organização perante o agravamento da crise. “Apelamos que se recorra ao diálogo e à paz em qualquer disputa internacional, e não a uma intervenção”, declarou Sheinbaum, que acrescentou que o México está disponível para ser anfitrião de eventuais negociações entre Washington e Caracas.