Em Berlim há um prédio de betão de Siza com Bonjour Tristesse escrito no topo. A mesma fachada, anos depois, ganhou um segundo aviso, mais urgente que poético: BITTE LEBN, “por favor vive”. Entre estas duas frases, como entre os lados menos turísticos da trilogia de Berlim de David Bowie, cabe uma geração portuguesa que fez as malas na grande crise da troika, deixou recibos verdes e chaves de casa em cima da mesa e foi aprender para Berlim como se respira noutra língua. Esta é a primeira reportagem de uma trilogia que segue algumas dessas vidas adiadas, divididas entre o país que empurrou e a cidade que acolheu: trabalho qualificado pago como se fosse favor, invernos que não acabam, línguas que se aprendem à pressa, regressos que tanto salvam como doem. Mais do que histórias de emigração, são três cartas escritas de Berlim para um lugar chamado Portugal, a tentar dizer, com todas as sílabas: adeus, tristeza. Esta quinta-feira é Dia Internacional dos Migrantes

 

ADEUS, TRISTEZA – TRILOGIA

 

CAPÍTULO 1

O portuense das montanhas

Quando chegou ao país novo vindo de Portugal, o portuense das montanhas foi recebido com “trancos e barrancos” e pasmou-se: “Em Portugal sou só mais um branco, aqui sou considerado ‘person of color’. É curioso como a perceção muda conforme o lugar”

“Vou sentar-me imediatamente e esperar pelo dom do som e da visão”

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INÍCIO DE REPORTAGEM

 

Um grupo de portugueses segura cartazes improvisados à porta da embaixada de Portugal em Berlim, um dos cartazes diz “Menschen statt Banken”, que quer dizer “pessoas em vez de bancos” numa tradução literal mas que quer dizer “prioridade às pessoas, não aos bancos” numa tradução mais clarificadora e que quer dizer também “pôr as pessoas acima dos lucros” numa tradução mais ideológica, as palavras estão em letras azuis e vermelhas pintadas num enorme pedaço de cartão. São 30 a 40 pessoas que se manifestam, é 15 de setembro de 2012, uns são estudantes e outros trabalhadores, são os “filhos da crise”: deixaram Portugal naquele início de década em que o país estremeceu com a austeridade da troika, sair de Portugal tornou-se para alguns um ato de sobrevivência. “Menschen statt Banken.”

Aquele 15 de setembro de 2012 é aquele mesmo dia inteiro e histórico em que quase um milhão de pessoas sai para as ruas de Portugal contra o traumatizante anúncio da redução da TSU das empresas de 23,75% para 18% e do aumento de 11% para 18% dos descontos para a segurança social dos trabalhadores. “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!” tornou-se nome de movimento e palavras de ordem naquele 15 de setembro que uniu pobres e ricos, esmerados e somíticos, canhotos e destros, famintos e saciados. Naquele 15 de setembro, em Berlim e diante da bandeira portuguesa, o protesto dos portugueses é pequeno, quase íntimo mas não por isso menos fervoroso.

No centro do plano das imagens daquele dia em Berlim vê-se um homem de cabelo escuro e espesso, ondulado a cair-lhe para a testa, barba rala, chama-se Pedro Monterroso, tem 28 anos a 15 de setembro de 2012. Fala para um canal de entrevistas online sobre um país que “vive uma catástrofe”, o país é o dele, o país Portugal, fala para aquele canal de entrevistas sobre uma geração que “empacotou os sonhos” num voo low-cost, a geração é a dele, a geração Pedro Monterroso. Veste um casaco gasto verde-azeitona de bolsos grandes, tem a mochila aos ombros, olha para cima e para baixo para ver onde estão as palavras certas em alemão para explicar o que sente em português.

À esquerda dele está uma mulher jovem de cachecol vermelho que sorri subtilmente para a repórter, à direita dele há um homem mais velho e corpulento que ouve atentamente as declarações do seu conterrâneo Monterroso, tanto aquela mulher como este homem hão de dizer coisas durante aquela entrevista, quando as dizem misturam palavras alemãs de dicção quase perfeita com outras de dicção menos hábil. A entrevista termina com um desejo da entrevistadora, “ich drücke euch hier in Berlin die Daumen, aber auch in Portugal”, que quer dizer “eu aperto os polegares por vocês aqui em Berlim, mas também em Portugal” numa tradução literal mas que quer dizer “estou a torcer por vocês aqui em Berlim, mas também em Portugal” na tradução de quem deseja o fim dos apertos que os portugueses estavam a passar.

Passaram 13 anos.

Pedro Monterroso continua em Berlim. Vive num apartamento modesto com vista para o cenário vangoghiano da Plänterwald, onde os prédios viram costas aos mais curiosos camuflando-se nas longas árvores e nos infindáveis tons de castanho das folhas. É outono em Berlim, é um outono belo mas: o frio é cortante, o sol tímido. Valham as casas aquecidas.

Pedro Monterroso, que agora vive a juventude dos 41 anos, abre a porta: recebe de voz quente e convidativa como o café que carrega cuidadosamente nas mãos. “Aqui não temos Delta, desculpem.” Ri-se, está a preparar-se para uma caminhada com a família: é domingo e está sol, a luz nunca é um bem garantido em Berlim e a que há é para aproveitar toda na rua. O cabelo que em 2012 lhe caía para a testa chega-lhe agora aos ombros, as orelhas estão furadas, a barba mantém-se, o velho casaco azeitona foi substituído por uma parca em azul-escuro para a chuva.

Aparece Iara, é muito pequena e espevitada: tem três anos, é a filha do casal Pedro e Raquel Lima, também 41 anos. Iara circula de um lado para o outro sob o olhar atento de Nina e Baumann – ou ‘Bau’ ou até ‘Baubau’ para os amigos -, são dois gatos quase do tamanho de Iara, ela que procura a “Fahrrad”, “a bicicleta”, traduz a mãe. Pedro fala o português do seu Portugal, Raquel o português do seu Brasil, Iara o português de ambos os pais além do alemão do jardim de infância. Iara mistura expressões e cria com isso uma musicalidade própria, mas ainda não domina o código secreto dos pais: sempre que precisam de falar sem que a filha perceba, Pedro e Raquel usam o inglês, será assim “até que ela o comece a entender também”. Sorrisos.

 

 

“vIM MUITO ZANGADO COM O MEU PAÍS”

 

Pedro Monterroso nasceu em Amarante mas considera-se um portuense “das montanhas”, fundiu o Porto com um vínculo robusto a Trás-os-Montes. Foi para a Alemanha durante o Governo de Pedro Passos Coelho, “exausto de estágios precários e contratos a prazo”. “Em Portugal ganhava 800 euros, vivia com a angústia de ficar doente, se ficássemos doentes estávamos sujeitos ao despedimento. Senti-me muito maltratado enquanto trabalhador e vim muito zangado com o meu país.” “Menschen statt Banken.”

Berlim parecia-lhe uma cidade aberta, alternativa, um lugar onde o currículo não precisava de estar carimbado com o “jeitinho” de uma cunha. “O mercado de trabalho é muito pequeno em Portugal e, quando há vagas, é só para alguns. Depois tens de te encaixar – se não o fizeres, estás fora. Aqui posso ser como sou, com o cabelo comprido, com as minhas roupas.” 

Sociólogo de formação e educador por vocação, acabou a ensinar numa escola europeia bilingue, onde as crianças aprendiam a dizer “bom dia” e “guten tag” no mesmo fôlego. O primeiro salário: 1600 euros. Escasseavam professores portugueses em Berlim naquele 2012, portanto Pedro Monterroso ficou naquela escola durante cerca de 10 anos, entretanto quis sair: “Estava a sentir-me frustrado por não ver avanços na minha carreira, não dava para crescer mais”.

Pedro Monterroso nasceu em Amarante mas considera-se um portuense “das montanhas”, com forte ligação a Trás-os-Montes

Encontrou algum alento num projeto de mentoria que acompanhava jovens – muitos deles filhos de migrantes – na passagem da escola para o mercado de trabalho ou para o ensino superior. Diz que cerca de 80% dos clientes tinham origem árabe ou turca, o contacto diário com essa diversidade acabou por aproximá-lo das políticas públicas e das realidades que raramente chegam às manchetes. Foi o último a ficar quando o projeto perdeu financiamento. “Tive a sorte de o poder fechar, foi uma grande honra.”

Agora exerce um trabalho de mediação entre escolas, assistentes sociais e tribunais numa associação que auxilia as famílias nos serviços de proteção à criança. É também responsável por parte dos casos em que a língua portuguesa é necessária, sobretudo com famílias africanas lusófonas. Move-o o mesmo de sempre: “Tentar perceber as pessoas e ajudá-las a sentir-se menos sozinhas”. Como outrora ele próprio precisou. 

 

Pedro Monterroso demorou o seu tempo a aprender o alemão. Começou a praticar em encontros sociais que organizava, todas as sextas-feiras, em bares e cafés de Berlim e dali nasceu “um núcleo duro” a que hoje em dia chama “amigos”. Já domina a língua mas o português continua a ser o seu território mais íntimo – e abrange não só a vida dentro de casa como pontualmente a sua profissão mas também os telefonemas diários à mãe, “para lhe fazer companhia” a caminho do trabalho.

A escrita também permanece em português, “é assim que sei sentir”. Sonhou outrora em ser escritor e chegou a publicar um pequeno livro infanto-juvenil dedicado a Raquel, chamou-lhe “A Velha Bruxa”, mas tratava-se de “um mercado pequeno”, as oportunidades são raras. A escrita não foi embora, permanece – mas vive em segundo plano, como side job nas horas vagas. Mantém um blogue que descreve como “uma espécie de portfólio”, onde arquiva pequenos textos e memórias “para não os perder”. 

Aos 41 anos, Pedro Monterroso vive com a mulher, Raquel, e a filha de ambos, em Plänterwald, na antiga Berlim Oriental

Enquanto Iara e Raquel preparam um lanche rápido na cozinha, ele pega no telemóvel para mostrar uma das passagens do blogue – ei-la ipsis verbis:

“Já lá vão 12 anos. Corro porque sou livre e sinto-me livre nesta Berlim, que me acolheu e me deu oportunidades, pelas quais também lutei. E retribuo. (…) Trabalho na língua que apenas aos 28 anos resolvi aprender, porque viria a ser definitiva a minha ideia de morar cá (…) Sou livre numa cidade que tem história de revolução e, apesar de à sua volta a extrema-direita estar a crescer, na Europa toda, nos seus confins, em Portugal cresce estupidamente, aqui ainda me sinto numa bolha de liberdade que me aceita como sou. Aceita-me muito melhor do que alguma vez me aceitou o meu país de origem. (…) A cidade aceitou-me aos trancos e barrancos, e eu aceitei-a de coração, e é nela que acima de tudo, com a minha família me sinto em casa. Hoje foram 11 km. Algures em 2025 será a maratona”.

Entre dois países e dois idiomas distintos, a identidade de Pedro Monterroso constrói-se no meio. Sente-se em casa na Alemanha mas também se sente português – embora de uma forma diferente, menos geográfica, mais feita de saudade, de lembranças e de novos olhares que o definem fora da sua terra. “Em Portugal sou só mais um branco, aqui sou considerado ‘person of color’. É curioso como a perceção muda conforme o lugar.”

Interrupção: “Oh, minha patanisca!”, Pedro sorri para Iara, fala com ela: a filha acaba de regressar do quarto, traz uma pequena coleção de livros em português, mostra-os. Um desses livros é o do pai, que ele escreveu para “despir as histórias de palavras preconceituosas que excluem quem não fica bem no quadro das personagens bonitas”. “A ‘Velha Bruxa’ é um manifesto da infância para o adulto distraído – ou do adulto atento para a criança em crescimento”, lê-se na sinopse. Raquel, que é adulta atenta, senta a filha no sofá, ficam a folhear o livro diante do próprio autor. Que está embevecido.

Pedro Monterroso aproveita para fazer uma brevíssima visita guiada pelo apartamento, enquanto faz isso tropeça em pequenos epicentros de nostalgia: um livro de Rui Zink pousado numa prateleira ao lado de literatura inglesa e espanhola; as típicas andorinhas de cerâmica nas paredes da casa de banho, ao lado de uma coleção de ilustrações com os locais mais icónicos de Berlim; plantas – muitas adquiridas orgulhosamente em Portugal – espalhadas pelas várias divisões da casa. Mais de uma década de recordações. 

Já a caminho do Treptower Park, Pedro Monterroso caminha devagar com a pequena Fahrrad cor-de-rosa de Iara nos braços; a mulher e a filha seguem à frente de mão dada. Raquel tem cabelo forte e encaracolado a encher-lhe as costas, veste uma camisa larga de flanela e carrega uma mochila cinzenta com um pequeno capacete branco pendurado; Iara, embrulhada num casaco acolchoado da mesma cor da Fahrrad, vai esmagando com as suas botas as folhas secas. As duas avançam por um corredor estreito entre uma vedação de metal e uma fila de árvores, enquanto uma luz quase dourada atravessa as copas e desenha três silhuetas no chão.

É uma tradição familiar ir ao parque nos fins de semana mais soalheiros, um ritual simples que para Pedro simboliza o que Berlim tem de mais precioso: o espaço partilhado. O caminho estreito desemboca numa clareira larga, onde o Treptower Park se abre em relvados compridos e caminhos de cimento por onde passam bicicletas e carrinhos de criança.

Mais ao fundo, quase escondido entre os troncos, está o parque infantil que a família batizou “parquinho selvagem”. Tem uma estrutura de madeira clara, cheia de cordas, escadas inclinadas e passagens estreitas, montada como se fosse um pequeno forte. Troncos grossos deitados no chão fazem de pontes improvisadas, há rampas para subir de gatas e túneis por onde só cabem corpos pequenos como o de Iara. Pedro já tinha avisado que “os parquinhos infantis em Berlim são uma coisa incrível”, nesta cidade são desenhados por arquitetos e pensados para que as crianças os explorem em liberdade.

À volta deles, dezenas de pais seguem as respetivas crianças com os olhos. Já o resto do parque continua horizonte adentro, em alamedas longas onde o som das bicicletas se mistura com as vozes de famílias e grupos de jovens que convivem e passeiam os seus animais numa paisagem outonal. Pedro solta um suspiro profundo: encontrou neste quotidiano o sossego que procurava quando partiu. Começou por baixo e degrau a degrau chegou aqui: um parque, uma mulher que ama, uma filha bilingue (pelo menos bilingue), um trabalho com outras famílias migrantes.

Pedro Monterroso tem “pena” quando vê outros portugueses chegarem a Berlim. “Dá-me pena. Dá-me raiva. Comove-me. Ver que esta gente, estes jovens de mente aberta, criativos, trabalhadores, que em Portugal foram tão maltratados, como eu, como eu fui…” Reticências eloquentes.

Nesses portugueses de agora diz que reconhece o rapaz de casaco verde-azeitona de outrora, à porta da embaixada portuguesa a sofrer por um país lá longe. E Pedro, tal como David Bowie quando escreveu “Sound and Vision”, também passou os primeiros dias em Berlim sozinho num quarto arrendado e à espera que a vida começasse, a tentar encontrar uma nova forma de ver e de ouvir numa cidade estranha. Hoje, o que lhe é estranho é pensar em voltar a Portugal.

 

UM PAÍS DE PARTIDAS

A emigração molda o imaginário português há várias gerações. Nos anos 60 e 70, mais de um milhão de portugueses deixou o país rumo a França, Alemanha, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Dinamarca, Suécia, Suíça e Reino Unido. Eram dias de ditadura, guerra colonial e pobreza rural. Procuravam um salário certo nas obras, nas fábricas, nas casas de família. Na Alemanha Ocidental eram os Gastarbeiter, trabalhadores convidados, de pão partilhado com italianos, espanhóis, gregos, turcos e jugoslavos.

Muitos regressaram a Portugal após a queda do regime. Outros ficaram, para voltarem apenas durante as férias como “turistas” na própria terra, de passagem para ouvirem palavras familiares e trocar “bons dias” e “boas tardes”. No século XXI, a história repete-se com novos contornos. Os perfis dos emigrantes mudaram: mais jovens, mais escolarizados, mais urbanos. Mas o impulso é o mesmo, o de partir para recomeçar.

Entre 2001 e 2020, 1,5 milhões de portugueses deixaram o país, traduzindo-se em 15% da população e numa média superior a 75 mil portugueses por ano, diz um estudo do Observatório da Emigração. O pico migratório foi registado em 2013, ano em que terão emigrado 120 mil pessoas, durante a crise económica.

O mesmo relatório indica que em 2024 havia cerca de 2,3 milhões de portugueses a viver fora e sabe-se que 70% desses cidadãos têm entre 15 e 39 anos. Os dados também divulgados nesse ano pelo economista Eugénio Rosa revelam ainda que, em 2021, 48,1% dos 1.129.236 portugueses que emigraram entre 2011 e 2022 tinham o ensino superior.

A principal conclusão retirada deste fluxo migratório moderno, refere o documento, é que “Portugal exporta fundamentalmente trabalhadores de escolaridade e qualificação elevadas”, reacendendo o debate político sobre a chamada “fuga de cérebros”: professores, arquitetos, designers, técnicos de saúde, investigadores que cresceram a ouvir que estudar era a melhor garantia de futuro mas que descobriram depressa que o futuro, afinal, morava além-fronteiras.

França permanece o país com maior número de imigrantes residentes nascidos em Portugal (573.000), seguindo-se Suíça (204.000), Estados Unidos (184.000), Reino Unido (156.000), Brasil (138.000), Canadá (134.000) e, finalmente, a Alemanha (115.000), segundo um relatório divulgado no site da Assembleia da República sobre “migrações e exílios de ontem e hoje”.

A tendência de crescimento das entradas de portugueses na Alemanha mantém-se desde 2021, registando em 2024 o valor mais alto desde 2018, com a entrada de 7.410 pessoas. São dados do Observatório da Emigração, com base na informação do Statistisches Bundesamt Deutschland, que foram divulgados este ano.

Berlim tornou-se uma espécie de capital paralela para os jovens qualificados, pelo trabalho e pelo modo de vida. Esta nova vaga não viaja com malas de cartão mas com diplomas e contratos temporários. Não procuram apenas um emprego, procuram tempo, liberdade e espaço para se reinventarem. E partilham o mesmo dilema: o de gostar de Portugal sem conseguir viver nele como sonharam.