A imagem ultrapróxima mostra os poros do rosto da porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, mas também as cicatrizes do preenchimento labial. O retrato, que está a percorrer o mundo, faz parte de uma reportagem da revista Vanity Fair sobre o círculo mais próximo de Donald Trump, fotografado por Christopher Anderson. As fotografias, partilhadas nas redes sociais da revista, estão a gerar controvérsia, levando o fotojornalista a vir defender o seu trabalho. “Os retratos em grande plano têm sido uma constante em muitos dos meus trabalhos ao longo dos anos”, declarou ao The Independent.

Leavitt, de 28 anos, é descrita pela revista como “a boca” da Casa Branca e a imagem de grande plano gerou imediatamente críticas na Internet pelo efeito “chocante”. Mas o fotógrafo garante que o objectivo não era, deliberadamente, retratar os defeitos da equipa de Trump — além da porta-voz, a reportagem inclui a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles; o vice-presidente, JD Vance; o secretário de Estado, Marc Rubio; o vice-chefe de gabinete, Stephen Miller; o chefe do gabinete pessoal do Presidente, Dan Scavino; e o chefe de gabinete adjunto para os assuntos legislativos, políticos e públicos, James Blair.

Todos são fotografados ao detalhe, sem esconder imperfeições ou rugas, com um objectivo claro: “Gosto da ideia de penetrar no teatro da política.” Christopher Anderson, que trabalha também para o The New York Times ou para a revista Esquire, já tinha adoptado o mesmo ângulo em 2014 para o livro Stump, em que retratou apenas políticos norte-americanos, tanto democratas, como republicanos. “Foi a minha tentativa de contornar a imagem encenada da política e ultrapassar a imagem que a equipa de relações públicas quer apresentar”, acrescentou o fotógrafo ao The Washington Post.


As imagens foram captadas a 13 de Novembro na Casa Branca e cada um dos membros da administração foi fotografado no seu respectivo gabinete. Anderson já tinha fotografado, neste ano, Donald Trump para a capa da revista do New York Times. “Sei que há muita gente a dizer ‘Ah, ele está a tentar intencionalmente fazer as pessoas parecer mal’ e coisas do tipo — mas não é o caso”, insiste o fotógrafo. E conta: “A certa altura, eu estava tão perto de Susie Wiles que ela disse com uma voz muito séria: ‘Está muito perto’, e eu recuei um pouco.”

Mas garante que não há qualquer manipulação nos retratos — como, de resto, é apanágio do fotojornalismo —, sobretudo no de Karoline Leavitt, que tem sido o mais criticado. “Não coloquei as marcas das injecções nela. As pessoas parecem chocadas por eu não ter usado o Photoshop para retocar as imperfeições e as marcas das injecções. Acho chocante que alguém espere que eu retoque essas coisas”, diz o jornalista.


“Fora do contexto”

Até porque a sua missão é sempre fazer retratos o “mais verdadeiros possível”, ainda que, mais recentemente, trabalhe sobretudo como fotógrafo de celebridades, daí que tenha ficado “desconfiado” com a missão de ir à Casa Branca fazer estes retratos. Talvez já esperasse as reacções que se seguiram, sobretudo de Susie Wiles que criticou a reportagem por “ter tirado tudo do contexto”, não só as suas afirmações (a chefe de gabinete foi a única entrevistada), mas também as imagens. “Não ver a parede bege atrás deles tira-os do contexto? Não tenho a certeza. Tudo o que está no enquadramento é o que eu escolho manter no enquadramento”, responde Christopher Anderson.

Como é habitual, a administração MAGA apontou também o dedo ao jornalista Chris Whipple, que conduziu as 11 entrevistas feitas ao longo do primeiro ano da Presidência Trump. “Uma reportagem tendenciosa e mal-intencionada sobre mim e sobre o melhor Presidente, a melhor equipa da Casa Branca e o melhor gabinete da história”, queixou-se Susie Wiles, que diz terem sido seleccionadas citações para criar “uma narrativa negativa”.


Na longa entrevista, de 29 minutos de leitura, Wiles aponta o dedo à procuradora-geral, Pam Bondi, pela forma como lidou com o caso de Jeffrey Epstein e a Elon Musk pelo enceramento da USAID, a agência governamental de ajuda humanitária e desenvolvimento internacional dos Estados Unidos. E até compara a personalidade de Donald Trump — que define como “alcoólico” — à do seu pai, ao locutor desportivo Pat Summerall. “Os alcoólicos altamente funcionais ou os alcoólicos em geral têm personalidades exageradas quando bebem. Por isso, sou especialista em personalidades fortes.”

Contudo, também reconhece que algumas decisões do seu líder, como as declarações sobre a relação de Bill Clinton com Epstein, condenado por tráfico sexual, não foram as mais correctas. “O Presidente estava errado sobre isso”, declara Wiles. E também tem dúvidas sobre as tarifas impostas às importações: “Tem sido mais doloroso do que eu esperava.”