Afonso Gonçalves foi atropelado, em cima da passadeira, num momento em que o sinal estava verde para os peões, num cruzamento da Avenida dos Estados Unidos da América com a Avenida Rio de Janeiro, em Lisboa. O motorista, que depois viria a ser identificado como sendo o taxista Joel Franco, colocou-se em fuga. Esta quinta-feira, no Tribunal Central Criminal de Lisboa, o coletivo de juízes condenou-o, pelos três crimes de que estava acusado, a 14 anos e nove meses de prisão: 12 anos por homicídio simples, dois anos e nove meses por condução perigosa e um ano e nove meses por omissão de auxílio.

A família e o advogado de Afonso Gonçalves, de 21 anos, estão a analisar o acórdão, de que ainda só conhecem a súmula, para decidir se vão recorrer. Paulo Gonçalves, o pai do jovem atropelado, tem dificuldade em avaliar se a sentença foi ajustada. “A maior pena foi aquela a que nós [a família] fomos sujeitos, uma condenação perpétua”, avaliou. “Se isso me trouxesse o Afonso de volta, de bom grado cumpriria eu esta pena”, acrescentou. Joel Franco foi detido 48 horas depois de atropelar e projetar o jovem universitário vimaranense, 17 metros pelo ar. Afonso viria a morrer pouco depois no Hospital de São José. O taxista justificou-se por não ter prestado auxílio com o facto de estar a sair de um longo turno e de estar aflito para ir à casa de banho.

Em setembro de 2024, Joel Franco, de 48 anos, estava em liberdade condicional, por uma condenação de três anos e dez meses, relativa a abuso sexual sobre uma criança, sucedido em 2018. Do cadastro do taxista constam outros crimes: ofensa por negligência e omissão de auxílio, posse de arma proibida e ofensas à integridade física e especulação. Ficou a saber-se que, em 2020, Joel Franco já tinha colhido mortalmente outro peão, embora nessa altura tenha sido absolvido.

Petição para agravar o crime

Para que os crimes de atropelamento com fuga e omissão de auxílio não possam acabar com pena suspensa (o que por vezes acontece), a família de Afonso Gonçalves colocou em marcha uma petição para agravar a moldura penal para estes crimes. O documento já reuniu mais de 16 mil assinaturas e até já foi informalmente apresentado ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco. “Vamos entregar oficialmente na AR, em janeiro. Não o quisemos fazer antes para não ser visto como uma pressão sobre os juízes no caso do Afonso”, referiu Paulo Gonçalves.

A família de Afonso procura voltar à normalidade possível, “até porque temos outro filho de 17 anos que temos de ajudar”. Como o Natal à porta, Paulo Gonçalves lamenta que “daqui até ao fim dos meus dias haverá sempre uma cadeira vazia na mesa da ceia familiar”.