Uma nova pesquisa indica que a cidade romana de Pompeia pode ter experimentado temperaturas incomuns para a época, quando a erupção do Monte Vesúvio devastou a região em 79 d.C. O estudo, que ainda não foi publicado em revista científica revisada por pares, foi apresentado em uma conferência arqueológica realizada nas proximidades de Pompeia, na Itália.

Ao analisar 14 dos icônicos moldes de gesso feitos das vítimas da erupção, os pesquisadores descobriram que pelo menos quatro indivíduos estavam vestindo roupas de lã no momento em que foram sepultados. Isso é surpreendente, considerando que agosto, período em que se acredita que a erupção ocorreu, geralmente apresenta temperaturas quentes nesta área. Os pesquisadores sugerem que o uso de vestimentas de lã poderia ter sido uma medida de proteção contra os efeitos da erupção.

A pesquisa retoma um debate antigo sobre a possibilidade de que a erupção tenha ocorrido em um mês mais frio do que agosto. Contudo, estudos contemporâneos baseados em documentos históricos determinam que o evento catastrófico aconteceu no dia 24 de agosto de 79. Alguns especialistas sustentam que as vestimentas de lã encontradas nas vítimas não são necessariamente indicativas de um clima frio.

O historiador e arqueólogo Pedar Foss, da Universidade DePauw, Indiana, destacou que as roupas de lã eram comuns na época. “Eles usavam lã porque era o que as pessoas usavam naquela época”, explicou Foss ao Live Science, acrescentando que “cerca de 90% de todas as roupas em qualquer lugar do mundo eram de lã”. A lã era resistente, mantinha o calor mesmo quando molhada e era relativamente acessível, enquanto tecidos como linho eram mais frágeis e apenas as classes privilegiadas utilizavam seda e algodão.

A pesquisa foi liderada por Llorenç Alapont, arqueólogo da Universidade de Valência. Em um comunicado traduzido da universidade, Alapont afirmou que os pesquisadores analisaram os padrões dos tecidos impressos nos moldes de gesso das vítimas do Vesúvio. “A partir do nosso estudo […] podemos saber como as pessoas se vestiam naquele dia específico da história”, comentou.

Desde o século 19, foram feitos 104 moldes em Pompeia utilizando gesso para preencher os vazios deixados pelas vítimas soterradas pela cinza e detritos vulcânicos. Especialistas estimam que cerca de 2 mil pessoas podem ter sido mortas na catástrofe, mas muitos outros conseguiram escapar. Atualmente, novos moldes não são mais realizados devido à possibilidade de danificar restos mortais.

Os moldes revelam que muitas das vítimas estavam vestindo um traje composto por uma túnica e um manto de lã. Alapont observou que “não sabemos se essas roupas específicas serviam para protegê-los dos gases ou do calor ambiente causados ​​pela erupção vulcânica”. Ele questionou se as pessoas estavam vestindo lã para se proteger dos efeitos adversos da erupção durante as aproximadamente 18 horas em que durou o evento.

Foss também mencionou o relato do autor romano Plínio, o Jovem, que era adolescente na época da erupção e descreveu os eventos em cartas enviadas ao historiador romano Tácito cerca de 30 anos depois. Plínio datou firmemente a erupção para “Nonum Kalendas Septembres” — o nono dia antes do primeiro dia de setembro — correspondente ao dia 24 de agosto no calendário gregoriano atual.

No entanto, cópias incorretas do relato durante a Idade Média geraram controvérsias sobre a data exata da erupção até que estudos recentes confirmassem a data registrada por Plínio. Defensores da teoria de um mês posterior mencionam evidências como frutas de outono encontradas em Pompeia e inscrições em carvão nas paredes. Contudo, nenhuma dessas evidências é conclusiva.

A historiadora e arqueóloga Allison Emmerson, da Universidade Tulane, esclareceu essa disputa afirmando que “A tradição manuscrita é bastante segura — a única data fornecida pelo texto é 24 de agosto”, escreveu ao Live Science. “No entanto, se essa data reflete o evento real ainda é motivo de controvérsia”.

A nova pesquisa não oferece uma conclusão definitiva sobre a data da erupção do Vesúvio. O estudo sugere apenas que as vestimentas das vítimas podem indicar um dia inusitadamente frio para agosto; no entanto, essa interpretação permanece aberta a questionamentos sobre se o uso da lã foi uma questão de proteção.

Os pesquisadores também notaram que tanto as vítimas encontradas dentro quanto fora das casas estavam usando tipos semelhantes de roupas. Foss ressaltou a importância do trabalho liderado por Alapont ao estabelecer quais vestimentas estavam sendo usadas pelos habitantes de Pompeia no momento da tragédia; no entanto, ele acredita que isso não contribui para esclarecer as condições climáticas daquela fatídica manhã.


Éric Moreira

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.