A atriz Laura Lufési, que interpreta a pesquisadora Flávia no filme “O Agente Secreto” – Foto: reprodução

“Se algo não está no Google, então não existe!” Admito: já fiz essa infame afirmação várias vezes.

Ela representa o sucesso da narrativa da empresa de organizar todo o conhecimento da humanidade. Mas também indica como essa mesma humanidade aprendeu a confiar nas suas respostas sem questionar.

É perturbador como nos acostumamos a essa comodidade, mesmo que isso empobreça as nossas pesquisas e o nosso senso crítico. Agora, com a explosão da inteligência artificial e dos vídeos curtos, isso se agrava.

Neste fim de semana, finalmente fui assistir a “O Agente Secreto”, estrelado por Wagner Moura. Entre tantos momentos geniais do filme, uma breve cena me chamou a atenção.

Apesar de a história se passar em 1977, em alguns momentos, há cortes para o nosso presente, mostrando duas pesquisadoras transcrevendo fitas de quase 50 anos atrás. Uma delas, Flávia, interpretada por Laura Lufési, se interessa particularmente pela história de Armando, vivido por Wagner Moura.

Quando questiona a colega se ela tinha encontrado mais informações sobre o desfecho daquele homem, a outra responde que não encontrou nada no Google, e que, portanto, havia desistido de procurar. Flávia diz que ela precisava buscar em jornais, pois a informação está neles. A colega encerra a conversa dizendo que isso “dá muito trabalho”.

Pesquisar tornou-se “procurar no Google”, até informações sensíveis e difíceis de se encontrar. Se essa busca é infrutífera, a pesquisa acaba ali.

Mas o Google, a despeito de seus melhores esforços, não sabe tudo. Esse comportamento, normalizado em nossas vidas, prejudica severamente o nosso acesso à informação e achata o nosso senso crítico, pois deixamos de exercitar nossa capacidade de questionar e pesquisar além do óbvio.

Agora, com o próprio Google investindo pesadamente na IA, isso tende a piorar. Com o buscador, ainda precisamos nos dar ao trabalho de entrar em sites e elaborar nosso raciocínio. Com a IA, nem esse trabalho temos, pois o robô avalia as fontes, tira suas conclusões, redige um texto convincente e nos empurra como uma verdade absoluta, mesmo sem garantias disso.

Se isso prejudica a audiência do maior buscador do mundo, a situação fica dramática com os produtores de conteúdo que alimentam a própria IA, entre eles sites de referência, publicações científicas e os próprios veículos de comunicação defendidos por Flávia. As pessoas já os estão consultando muito menos, confiando, sem qualquer reflexão, no que o robô lhes entrega.

Já era muito ruim terceirizarmos para um algoritmo a nossa habilidade essencial de pesquisa. Agora começamos a deixar para a máquina a capacidade de raciocinar, questionar e concluir, algo que nos tornava únicos neste planeta.

Do ponto de vista do comportamento dos usuários e do desenvolvimento irresponsável das big techs, não vejo como reverter esse quadro. Minha expectativa é promover a necessária reflexão para que a sociedade tente encontrar um caminho de resistência.

Não proponho, de forma alguma, evitar essa tecnologia fabulosa, mas sim usá-la com uma consciência que está sendo enterrada. Se não resgatarmos o nosso desejo de manter o protagonismo intelectual neste planeta, sobrará muito pouco para nós diante do avanço da inteligência simulada das máquinas.

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