Disse que não estava muito entusiasmado com os candidatos sem hipótese de passar a segunda volta. Gouveia e Melo é uma espécie de segundo candidato do eleitorado do PS. Também não gosta do almirante?
O almirante é um bluff e é um flop. E há uma posição que ele tomou em relação à Nato que acho altamente reprovável: disse que estava disposto a ir morrer em combate para onde a NATO achasse que era necessário. Esta cultura de morte é absolutamente contrária à necessidade de paz da Europa, que está a atravessar uma crise brutal. Foi humilhada quando os americanos decidiram destruir o North Stream, ou seja, os pipelines que transportavam o gás natural a preços muito convidativos para a Alemanha e para a Europa em geral. E o chanceler da altura, que até era social-democrata, foi uma semana depois a Washington prestava vassalagem a Joe Biden. Foi uma humilhação sabermos que os americanos é que rebentaram com o pipeline. E uma das razões fundamentais da crise da economia alemã e de quase todas as outras economias europeias, deriva justamente dos preços da energia terem subido em flecha e a Europa ser obrigada a transferir-se como cliente da Rússia para os Estados Unidos.
Há alguém dentro do PS que poderia ter avançado e que o convencesse a apoiar?
Sim. Mesmo sendo muito conservador, o Augusto Santos Silva tinha outra estaleca, outra carga política e intelectual e cultural, que seria de uma dimensão bastante superior a qualquer dos candidatos que estão no terreno.
Para si António Vitorino é que não era hipótese.
Não, eu fui um dos que criticaram há dez anos a possibilidade do Vitorino por ser, tal como é hoje ainda o Marques Mendes, um advogado facilitador de negócios. Essa não devia ser a vocação de um Presidente da República. Mas enfim, depois de o Marcelo ter sido Presidente, todos podem ter a ambição de ser Presidentes. Porque Marcelo foi, juntamente com o general Eanes, um dos dois piores Presidentes da República que tivemos desde o 25 de abril.
Há vários candidatos – Henrique Gouveia Melo, Catarina Martins, António José Seguro, até Marques Mendes – que têm invocado o nome do seu tio, Mário Soares, como um exemplo. De todos estes, qual é que mais lhe custa ouvir referir o nome do seu tio como exemplo de Presidência?
O que mais me custa ouvir é o almirante, como é óbvio, porque Seguro, apesar de tudo, tem legitimidade para o fazer, na medida em que também ele foi Secretário-Geral do PS. Custa-me mais ouvir o André Ventura insultar Mário Soares, de uma forma brutal, mal-educada e ainda por cima sem fundamento. E custa-me que não haja quem na família tente pô-lo na ordem e defenda a honra do Mário Soares. Eu não posso fazê-lo, sou apenas um sobrinho por afinidade, portanto não tenho qualquer legitimidade para me arvorar em defensor do Mário Soares.
Caso André Ventura vença a primeira volta, isso já abala o sistema?
Se ele passar da primeira volta já é um mau sinal. Depois da vitória de neofascistas no Chile e na Argentina e de estar uma neofascista inteligente, que é a primeira-ministra italiana, e por ser muito inteligente, mais perigosa ainda… seria um péssimo sinal. Mas também é verdade que, em França, a queda da popularidade do Jean-Marie Le Pen, também começou quando passou à segunda volta e perdeu com Chirac, levou uma banhada. Praticamente toda a esquerda e quase toda a direita votaram no Chirac, que aliás foi um bom Presidente. França já não tem, desde que desapareceram primeiro o De Gaulle, depois o Pompidou, depois o Giscard, depois o François Mitterrand, e depois o Chirac, um presidente com categoria, com estaleca, estatuto, dimensão intelectual e política.
Mas candidaturas como a de António Filipe não acabam com as hipóteses de a esquerda passar à segunda volta? Não acha que devia ter havido uma tendência de convergência?
Não, no caso do PCP é injusto dizer isso. Ainda tem hoje, apesar da debilidade da sua votação, importância no jogo político quotidiano em Portugal. É um dos partidos fundadores do regime democrático, independentemente das críticas que lhe façam. Não sou, nunca fui, nem serei comunista, e aqui estou a tentar agir em nome do que julgo ser o interesse da esquerda no seu conjunto. O Livre é um partido oportunista, que tem contribuído muito para desgastar não só o PCP, mas sobretudo o Bloco de Esquerda, e também o PS. É, no fundo, um partido dos descontentes, por não terem chegado a lugares de proeminência – o caso do Rui Tavares no BE é exemplar. O Bloco de Esquerda é, como se sabe, uma dissidência troskista do partido dito estalinista, que o PC já não é. É um partido ainda muito fechado, mas não é um partido estalinista. Não vem dali perigo nenhum.
Há algum paralelismo entre as eleições de 1986 e as de hoje, no sentido de haver uma forte probabilidade de segunda volta?
É uma boa pergunta. É difícil estabelecer um paralelismo. Se pensarmos e compararmos os quatro candidatos de categoria que houve, nessa altura, a disputar a eleição, em 86 – o Mário Soares, o Freitas do Amaral, a Maria de Lourdes Pintasilgo e o Francisco Salgado Zenha – com os quatro ou cinco que hoje estão em condições de disputar a segunda volta, nenhum deles chega aos calcanhares de qualquer um destes quatro.